Pare de me olhar desse jeito que eu paro de te olhar assim
O que me surpreende é que eu não quero realmente que você pare
E os seus ombros estão gelados (frios como a noite)
Você é uma explosão (você é dinamite)
I Bet That You Look Good on the Dancefloor, Arctic Monkeys
Depois de ouvir aquele garoto me contar que tive uma overdose, as lembranças da noite passada decidiram dar o ar da graça na minha bagunça mental.
Reputação.
Isso nem deveria existir.
É a definição carinhosa que se dá para alguém que faz tudo que der na telha, contra a sociedade hipócrita que não sabe lidar com isso, mas ainda sim se acham então no direito de te classificar como uma pessoa boa ou r**m, somente pela forma como esse alguém bem decide viver a sua própria vida e acredite, na prática é mil vezes mais patético do que na teoria.
Eu nunca fui um exemplo.
Talvez isso explique o porquê que as freiras decidiram me dar uma "atenção especial", acho desde de sempre elas conseguiram enxergar meus traços mentais instáveis e com a ajuda extra financeira da minha mãe, tentaram me colocar no eixo, das piores formas possíveis.
Venhamos e convenhamos que falharam miseravelmente.
Se eu pudesse resumir minha vida em três palavras, basicamente, seria: dor, traumas e ódio.
Essa é a receita perfeita para criar uma Lailah defeituosa.
Uma personalidade a parte da minha pessoa, que viveu anos aprisionada naquele lugar e dentro de mim mesma, junto com todas as lembranças sombrias da minha vida antes do meu pai ir embora, da criança que morreu dia após dia, no caso, trauma após trauma e desde de então procura em bares, perdida por aí, distrações que sejam capazes de me abstrair do inferno caótico que habita dentro da minha mente.
Eu poderia dizer como explicação que o meu desvio de caráter e a minha má reputação de garota pra lá de problemática, se vem de toda a merda que passei nos últimos meses, mas não vou fazer isso. Afinal, só estou sendo quem realmente sou. Uma pessoa, que encontra no erro o melhor combustível para praticar todos os pecados possíveis e não respeita merda nenhuma de reputação, e muito menos dar a mínima em ter uma.
Já tive problemas no passado, mas não foram só problemas, foram problemas pra c*****o, do tipo, cheguei no fundo do poço e morei com a Samara por um longo tempo. As drogas, o álcool e a vontade intensa de me livrar de mim mesma deveriam ser minhas inimigas, contudo não são. Já fui dependente disso para sobreviver, e foi uma merda.
Agora você deve se perguntar: como ela fala sobre isso com tanta tranquilidade?
Então, é aqui onde te falo sobre a inversão de valores, algo muito errado... Ao se repetir muito uma coisa, ela se torna comum, e ao se tornar comum, passa a ser correto.
Eu sei, não sou burra, e como eu não preciso de ninguém pra fazer merda comigo, decidi botar a minha vida em perigo tendo uma ideia extremamente errada quando inconscientemente quis me autodestruir dessa forma, no passado. Não queria saber se iam me apontar o dedo e dizer coisas do tipo "olha lá a santa do p*u oco", "não é ela que é freira?", "as santas são as piores", "hipocrisia do c*****o".
Enfim a liberdade... Que se f**a a merda do rótulos, eu só queria viver e me ver livre desse inferno.
Era o que eu pensava quando usava. Nunca estive tão enganada.
Minha voz ficava embolada e a visão embaçada demais. Eu enxergava apenas borrões.
Eu estava ficando cada vez mais presa dentro de todos os meus problemas.
Minha mente me alertava do que viria pela frente...
Não demorou muito para que eu chegasse em um estado muito familiar pra mim, a Inconsciência.
É quando a nossa mente encontra válvula de escape para outra dimensão.
Mais memórias da noite passada me atingem. Lembro da sensação de meu coração pulsando forte contra o meu peito, sentia uma pontada fina de dor atrás dos meus olhos, talvez pela pupila dilatada e meus dentes começam a doer rangendo um contra o outro. Me levantei, tentando me equilibrar em cima dos meus coturnos com salto, ao mesmo tempo que puxava a barra do meu vestido para baixo, tentando cobrir o que provavelmente eu estaria mostrando.
Era tarde demais.
"Ela está tendo uma overdose." Ouvi uma voz avisar e já não consegui mais identificar quem disse isso, porém provavelmente tenha sido esse cara que eu não fazia ideia da onde aquele ele tinha surgido e que peça o destino queria me pregar.
Porque caralhos alguém se importaria com a minha vida e me salvaria dela?
O fato de eu ter tido uma overdose era meio constrangedor, só que sendo quem eu sou, esse era um dos meus menores problemas e outras coisas me abalariam mais ainda.
— Que tipo de cara é você?
— O tipo de cara que não levanta antes do meio dia. — Meus olhos rolam, vendo ajustar a coberta da cama, não com o intuito de arrumá-la, mas sim de se meter debaixo dela novamente. — Então dá licença.
Deixo escapar um "babaca" dos meus lábios, o achando bem estranho dormir com as janelas abertas e com a luz do dia entrando.
Quem gosta do dia? Eu particularmente sempre vou preferir a noite.
Volto da imensidão dos meus pensamentos e caiu na real novamente.
— Que horas são? — Pergunto com o meu coração gelando. Eu dormi com um cara desconhecido, depois de eu ter tido uma discussão com o meu meio irmão e agora deve ser o quê? Oito horas da manhã? Merda.
Ele não me responde, em contrapartida o vejo se aconchegar de olhos fechados e sinto inveja disso devido a ressaca me consumindo. Por isso, escorrego a sua camisa que eu vestia pelos meus braços e jogo a peça de roupa na sua direção, me virando de costas em seguida. Não me importo se ele se aproveitou pra olhar, definitivamente ele não é o tipo de cara que eu faria questão de me exibir, mas aproveitando a oportunidade de estar apenas de calcinha, me curvo e para pegar meu celular jogado no chão do quarto e ver que ja são 15h32min.
Fodida é pouco para me descrever.
— p**a merda! — Corro como se tivesse em uma maratona. — p**a-merda!
— Pode calar a boca?
— Pode ir se f***r!? — Falo, vestindo rapidamente o meu vestido preto, querendo apenas ficar de roupa logo.
Não dou a mínima se estou sendo grossa. Eu estou a mais de doze horas longe de casa, eu precisava ter mostrado minha mãe que estava sóbria o bastante para que ela não tivesse que me dizer que sou a pior decepção de sua vida.
— Você tem que me deixar em casa. — Digo aflita. Ele parece não dar a mínima também, pois continua com os olhos fechados.
A minha roupa inteiramente preta, em plena tarde, não condiz nada com o calor que faz e qualquer um que olhasse se daria conta que eu virei uma noite em alguma festa.
Duas batidas são dadas na madeira da porta do seu quarto e agora, aquilo se faz como o suficiente para que ele crescesse suas orbes cinzas e me olhasse assustado. Uma voz feminina o manda abrir e pela entonação dela, deduzo estar possessa de raiva. O susto se triplica, quando ele parece confirmar que a pessoa que batia, fosse quem ele esperava.
Eu até poderia ficar assustada, mas o prazer em vê-lo daquela forma me contagiou mais.
— Você me disse que não transamos... — Paro de descer o vestido nas minhas coxas, somente para lhe apontar um dedo enquanto assimilo tudo. — Mas dormimos juntos... — Estreito os olhos para ele, quando o mesmo pula da cama e fica estatístico encarando a entrada do quarto. — E agora sua namorada bate na porta?
— Você precisa dar o fora daqui. — Disse tocando nos meus ombros, em quase que desespero. — E ela não é minha namorada.
As batidas da portas se intensificam, e um grito mais alto é dado pela pessoa do outro lado, mandando-o abrir.
— Que eu preciso dar o fora eu já sei. — Cruzo os braços, tão impaciente quanto ele. — O que eu não sei é seu nome.
— E nem precisa saber. — Prontamente responde, pegando pegando uma caneta, pendurando o objeto na boca e depois alcança um panfleto do Mc Donalds na gaveta do criado mudo.
Observo a cena atenta, inevitável meu olhar não cai para a forma que seus lábios se franzem, segurando a caneta de tampa azul, e depois a atenção que tem nos seus olhos quando começa a escrever algo e alguns segundos, me entrega depois junto com uma chave que se encontrava perto da sua carteira em cima também do móvel.
— Toma. — Ele afunda o papel nas minhas mãos e me puxa até a janela. — Vou ser legal com você e te emprestar meu carro. Você vai dirigir até sua casa e a noite vai me ligar pra que a gente possa se encontrar.
Ele explica de uma forma tão rápida que para mim não fica claro o suficiente das suas intenções por trás disso. Suspendo as sobrancelhas e a minha boca se abre. Então ele sente a necessidade de explicar melhor.
— Se encontrar, para que você devolva o meu carro.
— Mas eu... Eu não...
Várias outras batidas são dadas na porta e cada vez com mais brutalidade, e agora pra minha alegria em vencer esse joguinho que a gente criou, escuto bem quando ela fala:
— Abre a p***a dessa porta, Derick!
Uma sugestão de um sorriso vitorioso começou a brotar nos meus lábios.
Enquanto isso as batidas continuavam e a qualquer momento aquela porta ia ser colocada a baixo.
— Anda, Angeline. — Seus olhos se alinharam aos meus, sinto uma sensação estranha me remexer por dentro, ele sabia meu nome do meio. — As coisas aqui vão ficar feias e você precisa ir. Só faz o que eu tô te dizendo.
Talvez se eu descesse até a parte mais baixa do telhado e depois caísse naquele arbusto, não me machucasse, mas espera.
— Não! — Grito com raiva. — Não vou fazer isso!
Sinto uma fagulha de ódio aquecer meus nervos e eu mesmo sem o conhecer, apenas sabendo o seu nome, quis tentar lembrar se realmente ele tinha uma arma no colchão, porque se tivesse, eu juro que o matava.
— Não adianta fugir seu filha da p**a!
Seja lá o que ele fez, essa mulher vai matá-lo.
Fico feliz em saber disso.
Sem alternativa e com muito ódio, coloquei uma perna pra fora e depois metade corpo, mas antes de ir, decidi dar início a minha doce vingança.
— Preparado, Derick? — Enfatizei bem seu nome, queria que ele sentisse o veneno na minha voz.
— Para o quê? — Um vinco de confusão se formou no meio da sua testa.
— Pra nunca mais ver o seu carro?
Seus olhos me encaram como quem dizia: você não é louca!
— Sou sim! — Sorri ironicamente, respondendo seu pensamento.
Às vezes, só às vezes, eu meio que sem querer, consigo saber exatamente o que as pessoas imaginam, cogitam ou pensam. Alguns dizem ser um dom, já eu costumo dizer que é só mais uma particularidade estranha da minha pessoa.
Coloquei a outra perna para fora da janela. Tendo cuidado ao me equilibrar e não ser pega por ninguém ali, mas antes de finalmente descer e ir, lhe lancei um último olhar acompanhado de um dedo do meio.
— Aproveita e vai de novo se f***r, só que dessa vez no quinto dos infernos. — Lhe lancei um dedo do meio. — Espero que ela te mate e te faça mastigar o seu p***o.
N/A NOTAS DA AUTORA
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