sem saida

806 Palavras
A pequena pensão estava silenciosa naquela noite. Silenciosa demais. Piper organizava algumas mesas vazias enquanto observava o relógio antigo preso na parede descascada da cozinha. Já passava das nove, mas praticamente não tinham aparecido clientes naquele dia. Mais um dia r**m. Ela respirou fundo tentando afastar o peso que apertava seu peito desde a tarde. Ou melhor… Desde o momento em que aquela mulher apareceu. Seus dedos deslizaram devagar até o bolso do casaco onde o cartão dourado continuava guardado. Ela puxou o cartão lentamente. O papel brilhava sob a luz fraca da cozinha. Eleanor Hartwell. Até o nome parecia rico. Piper soltou uma risada nervosa sozinha. — Isso é loucura… Ela apoiou as mãos na pia. Como alguém simplesmente oferece casamento daquele jeito? E pior. Como alguém oferece dinheiro em troca disso? Ela fechou os olhos por um instante. Ainda conseguia lembrar da postura elegante daquela mulher, do carro luxuoso, do perfume caro… tudo nela parecia pertencer a outro universo. Um universo distante demais da vida de Piper. Ela olhou ao redor. A tinta das paredes estava descascando. Algumas cadeiras estavam bambas. A geladeira velha fazia um barulho estranho fazia semanas. E o cheiro constante de comida misturado com gordura parecia impregnado em tudo. Aquilo era a realidade dela. Não mansões. Não heranças. Não famílias milionárias. Ela guardou o cartão rapidamente. — Não. Eu não vou aceitar isso. Falou firme para si mesma. — Isso é completamente absurdo. Casar com um desconhecido? Entrar numa família rica do nada? Parecia história de filme r**m. Piper balançou a cabeça e voltou a limpar a bancada tentando esquecer aquilo. Mas no fundo… Ela não conseguia. Porque pela primeira vez em muito tempo alguém tinha falado algo que mexeu diretamente na maior dor dela. Dinheiro. A chance de salvar o pai. A chance de salvar a pensão. A porta da frente abriu. Piper levantou o rosto rapidamente. O pai entrou devagar. E naquele instante ela sentiu o coração apertar. Ele parecia acabado. Os ombros caídos, o rosto cansado, os olhos vermelhos de preocupação. — Pai? Ele forçou um sorriso. — Oi, meu amor. Mas ela conhecia aquele sorriso. Era o sorriso que ele dava quando estava tentando esconder alguma coisa. Piper caminhou até ele imediatamente. — O que aconteceu? Ele demorou alguns segundos para responder. Então colocou uma pasta cheia de papéis sobre a mesa. — Vamos ter que fechar a pensão. O mundo dela parou. — O quê? A voz saiu baixa. Fraca. O pai respirou fundo, claramente tentando manter a calma. — Mesmo vendendo algumas coisas… ainda não conseguimos pagar a dívida. Piper sentiu os olhos arderem. Não. Não podia acabar assim. Aquela pensão era tudo. Ela cresceu ali. A mãe dela cozinhava naquele restaurante. As lembranças da família inteira estavam naquele lugar. — Pai… calma… a gente vai dar um jeito… — Não tem mais jeito, filha. A voz dele falhou. Aquilo destruiu Piper por dentro. Porque o pai dela sempre foi forte. Sempre. Mesmo nas piores fases. Mas agora… Agora ele parecia derrotado. Ele passou a mão no rosto cansado. — Me perdoa. — Pai— — Eu queria ter conseguido mais pra você. Ela sentiu os olhos encherem imediatamente. — Não fala assim… — Eu queria que você tivesse feito uma faculdade melhor… queria poder te dar uma vida boa… queria que você não precisasse trabalhar tanto aqui… — Pai, para… Ele abaixou a cabeça. — Você merece mais do que essa vida. Piper segurou as mãos dele rapidamente. — Eu nunca precisei de luxo. — Mas eu queria te dar. A voz dele saiu quebrada. Aquilo atingiu Piper com força. Ela odiava ver o pai daquele jeito. Odiava. Porque ele sempre fez tudo por ela. Tudo. Mesmo sem dinheiro. Mesmo cansado. Mesmo depois da morte da mãe. Ele nunca deixou faltar amor. Nunca. — Filha… me desculpa… mas eu realmente não sei mais o que fazer. O silêncio pesou entre eles. E então… Como um choque repentino… O rosto daquela mulher voltou à mente de Piper. “Você ganharia muito dinheiro.” “Dinheiro suficiente para mudar sua vida.” “Salvar sua família.” Ela engoliu seco. Não. Não. Aquilo continuava sendo absurdo. Mas agora… Parecia menos impossível. O pai levantou lentamente. — Vou subir um pouco… minha cabeça tá doendo. Piper assentiu em silêncio. Esperou ele desaparecer pelas escadas. E então ficou parada sozinha na cozinha vazia. O coração acelerado. A mente confusa. Ela puxou o cartão novamente. Os dedos tremiam levemente. Eleanor Hartwell. Piper encarou aquele nome por longos segundos. Ela sabia que aquilo podia destruir a vida dela. Sabia. Mas também sabia de outra coisa. Eles estavam sem saída. Com os olhos marejados, Piper apertou o cartão entre os dedos enquanto uma pergunta ecoava na cabeça dela sem parar. Até onde alguém vai… quando a própria família está afundando?
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