pensando

737 Palavras
Piper quase não dormiu naquela noite. Ficou virando de um lado para o outro na cama pequena do quarto enquanto encarava o teto escuro, ouvindo o barulho distante da chuva começando do lado de fora. Toda vez que fechava os olhos, a voz daquela mulher voltava. “Você ganharia muito dinheiro.” “Minha família vai mudar sua vida.” Ela apertou o travesseiro contra o rosto com força. Aquilo era errado. Estranho. Insano. Mas as imagens do pai destruído na cozinha voltavam imediatamente depois. “Vamos ter que fechar a pensão.” Aquilo machucava mais do que qualquer orgulho. Mais do que qualquer medo. Perto das três da manhã, Piper desistiu de tentar dormir. Levantou devagar para não fazer barulho e caminhou até a pequena janela do quarto. A chuva escorria pelo vidro enquanto ela abraçava o próprio corpo tentando organizar os pensamentos. Talvez existisse outro jeito. Talvez algum empréstimo. Talvez ela pudesse trabalhar em dois empregos. Talvez— Mas ela sabia. No fundo, sabia. As dívidas já estavam grandes demais. O pai estava esgotado. E eles não tinham mais tempo. Seus dedos foram até o celular em cima da cômoda. Ela ficou olhando para o cartão dourado ao lado do aparelho por quase um minuto inteiro. O coração batia rápido. Muito rápido. Então, antes que perdesse coragem, pegou o celular e digitou o número. Chamou apenas duas vezes. — Piper. A mulher atendeu imediatamente. Como se já estivesse esperando. Piper engoliu seco. — Senhora Hartwell… — Fico feliz que tenha ligado. A calma daquela mulher deixava tudo ainda mais assustador. — Eu… eu queria entender melhor essa história. — Claro. — Porque sinceramente isso parece completamente louco. Eleanor soltou uma pequena risada do outro lado. — Talvez seja mesmo. Piper passou a mão nervosa pelos cabelos. — Por que eu? A resposta demorou dois segundos. — Porque eu enxerguei algo em você. Aquilo arrepiou Piper sem motivo. — Meus filhos cresceram cercados de pessoas falsas. Mulheres interesseiras, superficiais… mulheres que só enxergam dinheiro. Você é diferente. — A senhora nem me conhece. — Conheço o suficiente. O silêncio voltou. Piper respirou fundo. — E se eu aceitasse… como funcionaria? — Primeiro você conheceria meus filhos. Sem pressão. Sem obrigação imediata. Se houver interesse de ambas as partes, seguimos em frente. “Ambas as partes.” Piper quase riu internamente. Como se homens ricos e lindos fossem olhar pra ela daquele jeito. — E o dinheiro? A pergunta saiu mais baixa. Mais envergonhada. Mas Eleanor não pareceu julgá-la. — Sua família receberia ajuda imediatamente. O coração dela apertou. Imediatamente. — Quanto? — O suficiente para quitar as dívidas da pensão. Piper fechou os olhos na mesma hora. Era dinheiro demais. Muito dinheiro. — Isso é absurdo… — Não para mim. A chuva continuava batendo na janela enquanto Piper sentia a respiração falhar aos poucos. Aquilo estava realmente acontecendo. — Eu não sou esse tipo de mulher — ela sussurrou. — Que tipo? — Que casa por dinheiro. A voz dela saiu quebrada. Porque aquilo feria diretamente o orgulho dela. Eleanor ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder. — Não. Você é o tipo de mulher que faria qualquer coisa pela família. Aquilo atingiu Piper em cheio. Forte demais. Ela apertou os olhos imediatamente sentindo a garganta arder. Porque era verdade. Ela faria. Pelo pai… ela faria qualquer coisa. — Amanhã haverá um jantar na minha casa — Eleanor continuou. — Venha conhecer meus filhos antes de decidir qualquer coisa. Piper demorou para responder. — Eu não tenho roupa pra um jantar em mansão. — Isso não será um problema. — Senhora— — Amanhã às sete. Um carro vai buscar você. E então a ligação encerrou. Piper abaixou o celular devagar. O quarto parecia pequeno demais de repente. Ela caminhou até a cama e sentou lentamente. O coração ainda acelerado. Ela tinha acabado de aceitar? Não. Talvez. Ela nem sabia mais. Passou as mãos no rosto tentando respirar direito. Tudo estava acontecendo rápido demais. Ela olhou novamente para o cartão dourado. Depois para o próprio quarto simples. As paredes antigas. Os livros da faculdade empilhados no chão. As roupas simples. A realidade dela. E pela primeira vez na vida, Piper sentiu medo do que poderia acontecer se atravessasse a porta daquele mundo rico. Porque no fundo… Ela tinha a sensação de que depois daquele jantar, sua vida nunca mais voltaria a ser a mesma.
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