NARRAÇÃO: MARIANA LACERDA O elevador desceu como uma guilhotina hidráulica, um vácuo de pressão que parecia querer expulsar os meus órgãos pela boca, mas o corte real, aquele que separa a vida da morte em vida, já tinha sido executado lá em cima, na cobertura de jacarandá e arrogância. Saí do prédio de vidro fumê e aço escovado com as pernas trêmulas, sentindo o sol de rachar de São Paulo bater no meu rosto como uma ofensa pessoal, uma bofetada da natureza contra quem acabara de assinar a própria servidão. O ar condicionado daquela fortaleza de bilhões ainda parecia impregnado nos meus poros, um frio artificial misturado ao cheiro de uísque turfado, tabaco caro e àquela aura de dominação doentia que o Daniel Bittencourt exalava como se fosse oxigênio puro. Eu não chamei um táxi. Eu não c

