Isabela.
Domingo.
A palavra carrega um peso diferente quando não preciso colocar salto, maquiagem estratégica ou fingir que gosto de café r**m servido em copos corporativos. A luz entra sem pedir licença pela janela do meu quarto, quente, preguiçosa, quase gentil. Pela primeira vez na semana, não penso no escritório. Nem nos corredores. Nem nos olhares calculados.
Hoje, eu decido não ser funcional.
Desço para a cozinha ainda de pijama, cabelo preso de qualquer jeito, e encontro meu pai sentado à mesa, lendo o jornal como se o mundo ainda obedecesse ao papel impresso. Ele levanta os olhos quando me vê e sorri daquele jeito tranquilo que sempre me desmonta.
— Bom dia, Bella.
— Bom dia — respondo, servindo café. — É estranho não ter pressa num domingo.
— Aproveite — ele diz. — Você merece.
Ele hesita por um segundo antes de continuar, dobrando o jornal com cuidado excessivo.
— Vou sair mais tarde. Jantar.
Ergo o olhar, curiosa.
— Jantar?
— Sim. Com uma mulher.
A informação não me choca. Depois da morte da minha mãe, Luciana, isso aconteceu outras vezes. Meu pai teve namoradas. Algumas discretas. Outras passageiras. Mas nenhuma que atravessasse a porta de casa. Nenhuma que ele quisesse que eu conhecesse.
— Entendi — digo, apoiando o cotovelo na mesa. — E… é sério?
Ele sorri de lado, um pouco constrangido.
— Não sei, essas coisas levam tempo — responde. — Não quero que você pense demais sobre isso.
Eu penso mesmo assim.
Não por ciúme. Não por posse. Mas porque cada mulher que passou pela vida dele sempre pareceu existir numa espécie de espaço paralelo — longe de mim, longe da memória da minha mãe, longe de qualquer tentativa de continuidade.
— Fico feliz por você — digo, sincera. — De verdade.
Ele estende a mão e aperta a minha por um instante.
— Obrigado.
O silêncio que se segue é confortável… até deixar de ser.
— Pai — começo, escolhendo as palavras. — Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
Respiro fundo.
— A Cecília… — digo, casual demais para enganar. — A esposa do Mikhail.
O nome pesa mais do que deveria naquele ambiente leve longe do escritório.
Meu pai não reage de imediato. Apenas me observa, atento.
— O que tem ela?
— Eu nunca soube muito sobre ela — continuo. — Só sei que morreu. E que… foi tudo muito rápido.
Ele se recosta na cadeira.
— Foi uma situação complicada — responde, com cautela. — Cecília enfrentava questões delicadas. Não era uma mulher fraca, mas carregava muito mais do que deixava transparecer.
— E como ela morreu? — pergunto, quase num sussurro.
Ele hesita. Talvez por medo, não sei.
— Um acidente — diz, finalmente. — Pelo menos foi assim que tudo terminou oficialmente.
Oficialmente.
A palavra ecoa na minha cabeça.
— Mikhail… sofreu? — pergunto, sem olhar diretamente para ele.
Meu pai inclina a cabeça, pensativo.
— Cada pessoa sofre à sua maneira, Isabela. Alguns enterram. Outros endurecem. — Ele faz uma pausa. — Mikhail mudou depois disso. Ficou mais fechado. Mais distante.
Assinto lentamente.
Então é isso.
A mulher que veio antes.
A ausência que ainda paira.
O silêncio que ele carrega como armadura.
— Obrigada por me contar — digo, levantando-me.
Ele ri de leve.
— Faça o que quiser hoje — diz. — Domingo é seu.
Meu pai me observa por cima do jornal, como se estivesse me estudando. Ele sempre faz isso quando acha que eu estou “presa demais” a mim mesma.
— Você deveria sair mais, Isabela — ele diz, num tom casual demais para não ser ensaiado. — Fazer amigos. Conhecer gente da sua idade. Talvez até… — ele pigarreia — …um namorado.
Reviro os olhos antes mesmo de responder. Não por desrespeito, mas por cansaço. É sempre a mesma conversa, como se a solução para tudo fosse me misturar com pessoas que nunca me entenderiam.
— Eu não gosto de pessoas da minha idade — digo, simples, direta.
Ele abaixa o jornal lentamente, me encarando de verdade agora.
— Como assim não gosta?
Dou de ombros, cruzando os braços.
— Elas falam de coisas vazias. Vivem de aparências, de validação, de dramas que não significam nada. Tudo é urgente, tudo é exagerado, tudo é descartável. — Respiro fundo. — Eu me sinto deslocada perto delas. Como se estivesse fingindo ser alguém que não sou.
Meu pai suspira, passando a mão pelo rosto, claramente dividido entre preocupação e frustração.
— Isso não é saudável, Isabela. Você não pode se isolar do mundo.
— Eu não estou isolada — respondo, talvez rápido demais. — Eu só escolho melhor com quem gasto meu tempo.
Ele me encara por alguns segundos, como se quisesse dizer algo mais duro, mas não diz. Talvez porque, no fundo, ele saiba que eu não estou errada. Só… penso diferente.
O celular vibra sobre a mesa antes que meu pai volte a falar qualquer coisa. O nome na tela faz meu estômago se apertar de um jeito que eu jamais admitiria em voz alta.
Mikhail.
Atendo com calma calculada, já imaginando o tom presunçoso do outro lado da linha.
Subo de volta para o quarto com a sensação estranha de que, mesmo longe do escritório, algumas questões insistem em me acompanhar.
— Isabela — a voz dele vem baixa, controlada. — Quero jantar com você hoje.
Ergo uma sobrancelha, mesmo sabendo que ele não pode ver.
— Jantar? — repito. — Que inesperado. Isso é um convite social ou…
— Um jantar de negócios.
Não consigo evitar a risada. Curta, debochada.
— Negócios? — zomba escorrendo da minha boca antes que eu pense melhor. — E esses “negócios” envolvem o quê exatamente? f***r comigo entre a entrada e a sobremesa?
O silêncio do outro lado dura meio segundo a mais do que deveria. Quando ele fala de novo, a voz perdeu qualquer vestígio de gentileza.
— Tome cuidado com a sua boca, Isabela.
Sorrio. Lento. Provocador.
— Ou o quê? — pergunto, encostando na cadeira. — Vai cancelar o jantar?
Ele solta uma respiração pesada, como se estivesse se contendo.
— Você sabe muito bem que não — diz. — Oito horas. Vou mandar o endereço.
A ligação cai antes que eu possa responder.
Fico olhando para o celular apagado, o coração acelerado, a mente em alerta. Meu pai diz que eu deveria sair com pessoas da minha idade.
E eu estou fazendo o oposto disso! Flertando com o perigo
Caminho até o closet ainda descalça, deixando a porta se fechar atrás de mim com um clique suave. Meus dedos passeiam pelos cabides sem pressa, como se eu já soubesse exatamente o que procuro. Não é um jantar qualquer — e, definitivamente, não quero parecer alguém indo discutir contratos e números frios.
Escolho o vestido pela cor. Um azul profundo, quase noturno, feito para chamar atenção sem pedir permissão. Quando o tecido encosta na minha pele, sei que acertei. Ele realça meus olhos de um jeito quase indecente, como se a cor tivesse sido criada só para isso. Para me expor. Para provocar.
No espelho, prendo o cabelo por um segundo… e desisto. Prefiro solto. Ligo o modelador e faço cachos lentos, calculados, moldando cada mecha com cuidado. O loiro ganha movimento, cai pelos meus ombros com um ar estudado de despretensão. Quando termino, me observo em silêncio.
Deslumbrante.
Nada ali lembra a mulher discreta que ele provavelmente espera encontrar. Nada sugere um jantar de negócios. Há intenção demais no decote, ousadia demais no jeito como o vestido marca meu corpo, perigo demais no reflexo que me encara de volta.
Sorrio para mim mesma.
Se ele acha que tem tudo sob controle esta noite… vai se surpreender.