Pré-visualização gratuita 1- CONHECENDO AUGUSTO
LIvro recomendado para maiores de 18 anos, conteúdo explícito!!!
Livro escrito em atualização diária, sendo a obra concluída com a publicação do último capítulo e a sinalização de completo pela plataforma.
Temos uma janela de publicação curta pois conta o horário dá plataforma em Singapura, para termos nossas metas diárias completas, de forma que fazer uma revisão ortográfica antes de publicar, para mim que escrevo em
média 4 livros ao mesmo tempo é impraticável. Caso tenham alguma dúvida, ou não entendam algo escrito, podem sinalizar nos comentários do capítulo que eu terei todo carinho do mundo em
esclarecer.
Um pouco sobre a autora:
Bruna Mattos, casada,
mãe e batalhando para o crescimento da filha mais nova TEA 2. Minha carreira sempre foi focada em romances e os que meu público mais gostam, são no universo de morro. Estou aqui com um livro um tanto diferente pra vocês. Espero que gostem.
CAPÍTULO 1
AUGUSTO NARRANDO
Tenho 28 anos.
Os olhos claros, puxados pro mel, iguais aos da minha mãe — foi o que meu avô sempre disse. O cabelo castanho claro vive desgrenhado, queimado de sol, e o corpo… bom, o corpo é do jeito que o trabalho faz a gente ficar: forte, duro, marcado de calo, dor e resistência.
Nunca tive escolha.
Acordo todo dia antes do sol. Antes do g**o, antes do mundo. A casa onde moro é simples demais pra chamar de casa pra muita gente. Chão de terra batida, paredes de barro rachadas, telha velha que chia quando o vento passa mais forte. Mas foi ali que eu cresci. Foi ali que aprendi a virar homem cedo demais.
Quem me criou foi meu avô.
Minha mãe morreu no parto. Nunca ouvi o som da voz dela, nunca senti o cheiro, nunca tive colo. Só sei que ela se foi pra que eu ficasse. Desde pequeno aprendi que a vida não pede licença, só cobra.
Meu avô já era velho quando me pegou no colo pela primeira vez. Hoje é mais velho ainda. Curvado, frágil, com as mãos trêmulas e a respiração curta. E sou eu quem sustenta nós dois.
Sou pião desde menino.
Trabalho pesado, sol rachando a cabeça, suor descendo pelos olhos, coluna doendo antes mesmo do meio-dia. A fazenda é grande, rica, bonita pra quem vê de longe. Mas pra quem trabalha nela, é só mais um lugar onde a gente entrega o corpo em troca de quase nada.
O patrão… Leonel Valença...
Frio. Seco. c***l.
Nunca levantou a voz, nunca precisou. O olhar dele sempre foi suficiente pra fazer qualquer um baixar a cabeça. Nunca me tratou diferente dos outros — talvez até pior. Eu sentia isso, mesmo sem entender o porquê.
Naquele dia, eu tava na lista, limpando o mato em volta da casa. Enxada na mão, camisa colada no corpo de tanto suor, a terra subindo um cheiro quente que grudava na pele. Cada golpe no chão era automático, como se eu já tivesse feito aquilo mil vezes. E tinha mesmo.
De vez em quando, eu olhava pra porta da nossa casa. Meu avô tava sentado num banco baixo, na sombra, observando o nada. Às vezes cochilava. Às vezes me olhava com aquele orgulho silencioso que nunca precisou de palavras.
— Não força demais, Augusto… — ele falou fraco, mas firme.
Assenti com a cabeça, mesmo sabendo que não tinha como forçar menos. A vida nunca me deu essa opção.
Enquanto eu trabalhava, sentia um aperto estranho no peito. Uma sensação r**m, como se alguma coisa estivesse prestes a mudar. Não era cansaço. Era… pressentimento.
Eu não sabia ainda, mas aquele chão de terra, aquela casa humilde, aquela vida de pião… tudo isso tava com os dias contados.
Terminei o que eu estava fazendo, quando o sol já começava a subir mais firme. Limpei o suor do rosto com o antebraço, senti a camisa encharcada colar no peito e larguei a enxada encostada na parede da casa.
— Vou prender o gado, vô — avisei.
Ele só levantou a mão devagar, em sinal de que ouviu. Andar muito já não era com ele fazia tempo.
Peguei o chapéu velho, encaixei na cabeça e segui em direção ao curral. O caminho era de terra batida, cercado de cerca torta e capim alto. O cheiro forte de esterco misturado com poeira fazia parte do meu dia desde sempre. Eu já nem sentia mais.
O gado tava espalhado, pastando tranquilo, alheio a qualquer miséria humana. Assobiei do jeito que aprendi ainda moleque, estalando a língua, chamando um por um. Eles me conheciam. Sabiam quem eu era. Diferente das pessoas, os bichos nunca fingiram nada comigo.
Fui fechando as porteiras, empurrando devagar, guiando o rebanho pro curral. O corpo respondia no automático. Braço firme, perna forte, respiração pesada. Cada passo levantava poeira, grudava na pele suada, entrava no nariz.
Enquanto eu trabalhava, a cabeça não parava.
Minha vida sempre foi isso ali. Terra, boi, cerca, sol e dor nas costas. Nunca reclamei. Nunca sonhei alto. Aprendi cedo que quem nasce sem nome não pode querer muito da vida.
Mas aquele aperto no peito voltou.
Olhei em direção à sede da fazenda, lá longe. A casa grande, branca, imponente. Onde o patrão morava. Onde eu só entrava quando era chamado. Um lugar que sempre me causou um incômodo estranho… como se não fosse só ódio ou respeito. Era algo mais fundo. Algo que eu nunca soube explicar.
— Anda, desgraça… — murmurei, dando um tapa de leve na traseira de um boi mais lerdo.
Fechei a última porteira com força. O barulho seco da madeira ecoou pelo curral. Foi aí que vi um dos capatazes vindo apressado, montado no cavalo, levantando poeira pelo caminho.
Meu estômago embrulhou na hora.
— Augusto! — ele gritou antes mesmo de parar. — O patrão quer falar contigo. Agora.
Fiquei parado por um segundo, com a mão ainda apoiada na porteira. O sol queimava minha nuca, mas um frio correu pela espinha.
— Comigo? — perguntei, sem entender.
— Com você. Disse que é urgente.
Assenti devagar. Limpei a mão suja de terra na calça e tirei o chapéu da cabeça, segurando firme. Antes de seguir, olhei de novo pra nossa casa simples, pro banco onde meu avô costumava sentar.
O caminho até a casa grande parecia mais longo do que de costume. Cada passo afundava na terra seca, e aquele frio na espinha não ia embora. Era como se o ar tivesse ficado mais pesado de repente.
Quando me aproximei da casa grande, vi a Mirna parada na frente da varanda.
Ela era filha do capataz. A gente se criou junto ali na fazenda, correndo no meio do mato, dividindo pão seco e silêncio. Pra mim, sempre foi como uma irmã. Nunca olhei diferente, nunca pensei besteira. Mirna era família — do jeito torto que a vida permitiu.
Ela tava pálida. As mãos se torciam uma na outra, nervosas.
— Augusto… — me chamou assim que me viu.
— Que foi, Mirna? — perguntei, já sentindo o peito apertar mais.
Ela chegou mais perto, abaixando a voz, como se as paredes pudessem ouvir.
— O patrão tá muito m*l. De cama. — engoliu seco antes de continuar. — Desde cedo passando m*l… o médico veio correndo. Ele tá perguntando por você desde a manhã.
Franzi a testa.
— Por mim? — repeti, incrédulo. — Mas por quê?
Mirna balançou a cabeça, perdida.
— Não sei. Só sei que ele mandou te chamar. Disse que precisava falar contigo… hoje. Que não podia esperar.
O jeito que ela falou me deu um arrepio. Não era ordem comum. Não era bronca. Não era serviço.
Era urgência.
— Meu pai tá lá dentro com ele — ela continuou. — Nunca vi o patrão daquele jeito, Augusto. Ele tá… diferente. Fraco. — Os olhos dela marejaram. — Fiquei com medo.
Respirei fundo, sentindo o gosto seco da poeira na boca.
— Tá bom — respondi, tentando parecer firme. — Eu vou.
Ela segurou meu braço por um segundo, forte demais pra quem sempre foi calma.
— Seja o que for… — disse baixo — toma cuidado.
Assenti. Não tinha o que dizer.
Subi os poucos degraus da varanda devagar. A madeira rangeu sob meu peso, como se anunciasse minha presença.
Continua......