2- PAI?

1387 Palavras
CAPÍTULO 2 AUGUSTO NARRANDO A casa grande sempre me intimidou. Pé-direito alto, móveis escuros, silêncio demais. Mas naquele dia… tinha algo diferente. Pesado. Denso. Como se as paredes soubessem que estavam prestes a guardar um segredo grande demais. O capataz tava logo na entrada. O rosto fechado, sério como nunca. — Entra, Augusto — ele disse, abrindo passagem. — O patrão tá no quarto. Tá te esperando. Assenti, em silêncio. Conforme eu caminhava pelo corredor, vi uma coisa que me deixou impactado: o padre da cidade, sentado numa cadeira perto da porta do quarto, rosário enrolado nos dedos, cabeça baixa. Aquilo me deu um nó no estômago. Leonel Valença nunca foi homem de padre. Nunca foi homem de nada além de si mesmo. — Pode entrar — o capataz reforçou, empurrando a porta devagar. Entrei. O quarto tava escuro. Cortina fechada, só um filete de luz entrando pela fresta. O cheiro de remédio era mais forte ali dentro. E então eu vi. Leonel Valença tava na cama. Fraco. Magro. A pele amarelada, os olhos fundos. Aquele homem duro, que parecia feito de ferro, agora parecia pequeno. Quase frágil. Nunca, em toda minha vida, eu tinha visto ele daquele jeito. Meu peito apertou. — Chega mais perto… — a voz dele saiu rouca, arranhada, quase um sussurro. Obedeci. Porque sempre obedeci. Fiquei ao lado da cama, o chapéu apertado nas mãos, sem saber onde olhar. — Pode sair — ele disse, olhando pro capataz e depois pro padre. — Quero falar com ele sozinho. O capataz hesitou. O padre fez o sinal da cruz, lançou um olhar estranho pra mim e saiu em silêncio. A porta se fechou atrás deles, deixando só nós dois. O silêncio gritou. — Sabe por que eu te chamei, Augusto? — ele perguntou, a respiração pesada. — Não, senhor — respondi automático, como sempre. Ele soltou um riso fraco. Amargo. — Até nisso você é diferente… Nunca me chamou de pai. Franzi a testa. — Eu nunca chamei ninguém assim — falei, confuso. Ele fechou os olhos por um momento, como se juntasse forças. — Eu tô morrendo — disse direto, sem rodeio. — Não tem mais jeito. O médico já deixou claro. Engoli seco. — O que isso tem a ver comigo? — perguntei, sentindo o coração acelerar. Leonel abriu os olhos de novo. E quando olhou pra mim… não era o olhar frio de sempre. Era um olhar carregado de coisa não dita. De culpa. — Tudo. Minha respiração falhou quando ele continuou: — Você não é só um pião dessa fazenda. Senti o chão sumir por um segundo. — Como é que é? — Você é meu filho, Augusto. As palavras bateram em mim como um tiro no peito. — Isso… isso é alguma brincadeira? — minha voz saiu falha, quase sem força. — Eu nunca brinquei com você — ele respondeu. — Nem quando te fiz sofrer. Nem quando te tratei pior do que os outros. Minhas mãos começaram a tremer. — Minha mãe… — comecei, mas ele me interrompeu. — Sua mãe foi a única mulher que eu amei. — A voz dele quebrou. — Mas fui covarde. Deixei ela sozinha. Deixei ela morrer achando que você nunca teria um pai. Senti os olhos arderem. O peito doía. Tudo doía. — Eu te observei a vida inteira — ele continuou. — Te vi crescer. Te vi virar homem. Forte. Digno. Mesmo sem nada. Mesmo sem saber quem você era de verdade. — Então por que me tratou daquele jeito?! — explodi. — Por que me fez sofrer tanto nessa vida?! Ele virou o rosto, respirando com dificuldade. — Porque eu me odiava em você. Porque você era tudo que eu nunca fui corajoso o suficiente pra ser. O silêncio caiu pesado entre nós. — A fazenda… — ele retomou. — Tudo isso é seu. A terra, o gado, o meu dinheiro. Eu quero que você assuma tudo quando eu morrer. Dei um passo pra trás, em choque. — Eu não quero nada seu. — Vai querer — ele disse firme, apesar da fraqueza. — Porque isso também é o que sua mãe merecia. E porque você merece saber quem é. As lágrimas escorreram antes que eu pudesse impedir. — Minha vida inteira foi uma mentira… — sussurrei. — Não — ele respondeu. — Foi verdade demais. E agora… agora é hora de você escolher o que vai fazer com tudo isso. Leonel fechou os olhos, exausto. — Me perdoa… — murmurou. — Mesmo que seja só no fim. Fiquei ali, parado, com o mundo desmoronando aos meus pés. — Não… — balancei a cabeça, sentindo o ar faltar. — Não é assim que acaba. Dei um passo à frente, o coração batendo descompassado. — Acorda! — minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Acorda e fala direito comigo! Olha pra mim! – Aproximei mais da cama. — Você não pode jogar isso em cima de mim e simplesmente fechar os olhos! Leonel não respondeu. A respiração dele era fraca, irregular. O peito subia e descia com dificuldade, como se cada fôlego fosse uma batalha. — Fala comigo! — gritei, a garganta queimando. — Eu passei a vida inteira sem nada! Sem pai, sem nome, sem escolha! Agora você me diz isso e… e dorme?! A porta se abriu de repente. — Augusto… — a voz calma do padre cortou o quarto. Padre José entrou apressado, o rosto sério, mas sereno. Ele se aproximou da cama, checou Leonel com cuidado e depois olhou pra mim. — Ele precisa descansar. Falou mais do que o corpo aguenta — disse baixo. — O coração dele tá fraco. — Descansar? — ri sem humor. — Ele acabou de virar minha vida do avesso. — Eu sei — o padre respondeu com firmeza mansa. — Mas agora você precisa sair. — Não — falei num fio de voz. — Eu não terminei. — Ele terminou — disse o padre, pousando a mão no meu ombro. — Por hoje. Fiquei alguns segundos encarando Leonel. Aquele homem que sempre foi grande demais agora parecia pequeno demais pra tudo o que tinha causado. Virei o rosto, engoli o choro e saí do quarto. O corredor parecia mais longo. Mais frio. Cada passo ecoava como se a casa inteira soubesse do que tinha sido dito ali dentro. Do lado de fora, o sol ainda brilhava, indiferente. — Vem comigo, Augusto — o padre chamou, apontando pra lateral da casa. Seguimos em silêncio até perto do jardim. O vento balançava as árvores, e aquele som simples me deu vontade de gritar. A vida seguia. Só a minha tinha parado. — Eu conheci sua mãe — o padre disse de repente. Pareu tudo dentro de mim. — O quê? — virei pra ele devagar. — Conheci — repetiu. — Mulher boa. Forte. Orgulhosa. Sofreu muito… mas amou o seu pai até a morte. Fechei os punhos. — Então é verdade… — murmurei. — Ele é mesmo meu pai. O padre assentiu. — É. Nunca houve dúvida. Leonel sempre soube. Sempre teve medo… e culpa. — suspirou. — E agora, no fim, resolveu enfrentar as duas coisas. — Pedir perdão não apaga nada — falei duro. — Não devolve minha mãe. Não devolve minha vida. — Eu sei — ele disse. — Mas o perdão não é por ele, Augusto. É por você. Soltei uma risada amarga. — Você não sabe o que é crescer sem nada. Trabalhar até o corpo doer só pra sobreviver. — Sei, sim — respondeu com calma. — E sei também que ele não vai durar muitos dias. O médico foi claro. Olhei de volta pra casa grande. Praquele lugar que sempre foi proibido pra mim. — Isso nunca vai ser fácil — falei. — Eu não sei se consigo perdoar. O padre colocou a mão no meu ombro mais uma vez. — Ninguém tá te pedindo pra ser agora. Só pra não deixar o ódio decidir tudo por você. Fiquei em silêncio. O vento bateu no meu rosto, levando junto o suor, a poeira… mas não levou a dor. Eu cheguei ali como pião. Saí daquela casa como filho de um homem que eu nunca pedi pra chamar de pai. E ainda não sabia qual dessas verdades doía mais. Continua .....
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR