3- PERDOAR?

1077 Palavras
CAPÍTULO 3 AUGUSTO NARRANDO Saí de perto da casa grande quase correndo. O ar parecia não entrar direito no peito. Cada passo afundava na terra como se o chão quisesse me puxar de volta, mas eu só sabia ir pra frente. Precisava sair dali. Precisava ouvir outra voz. Precisava da única verdade que ainda podia me salvar de enlouquecer. O caminho até os barracos dos pião nunca pareceu tão longo. Passei por gente que me conhecia a vida inteira. Ninguém falou nada. Alguns só me olharam estranho, outros abaixaram a cabeça. Talvez já soubessem. Talvez sempre souberam. A ideia me deu vontade de gritar. Avistei nossa casa humilde de longe. Chão de terra, paredes gastas, a porta torta que eu mesmo tinha ajeitado tantas vezes. O mesmo lugar de sempre. O único que ainda parecia real. Meu avô tava sentado no banco de madeira, na sombra, do jeito que ficava todo dia. Quando me viu chegando daquele jeito, levantou devagar, preocupado. — Augusto? — chamou. — Que aconteceu, meu filho? Meu peito apertou quando ele me chamou assim. Pareí na frente dele, respirando forte, as mãos tremendo. Demorei alguns segundos pra conseguir falar. — Vô… — minha voz saiu quebrada. — O senhor… o senhor sabia? Ele franziu a testa, confuso. — Sabia o quê? — Que eu sou filho do Leonel Valença — soltei de uma vez, como quem arranca algo podre de dentro do peito. O silêncio caiu pesado. Pesado demais. Meu avô empalideceu. Os ombros caíram. Os olhos, já cansados pela idade, se encheram d’água no mesmo instante. Aquilo foi a confirmação que eu não queria. — Sabia… — sussurrei, sentindo o mundo desabar de novo. — O senhor sabia esse tempo todo. Ele levou a mão trêmula ao rosto, respirou fundo antes de responder. — Eu sabia, sim. A raiva subiu que nem fogo. — ENTÃO POR QUE NUNCA ME CONTOU?! — gritei. — POR QUE ME DEIXOU VIVER COMO PIÃO, COMO SE EU NÃO FOSSE NADA?! Ele deu um passo pra frente, mesmo com dificuldade. — Porque eu prometi pra sua mãe. Aquilo me desmontou. — Prometeu… o quê? — Prometi que te protegeria — disse com a voz falha. — Que te criaria longe daquele homem. Que não deixaria ele te usar… nem te destruir. — Me destruir?! — ri amargo. — Olha pra mim, vô! Minha vida inteira foi destruída sem eu nem saber por quê! Ele chorava agora. Um choro silencioso, doído, de velho cansado. — Sua mãe me implorou, Augusto… — continuou. — Disse que se você crescesse sabendo quem era seu pai, aquela fazenda ia te engolir. Que você ia virar igual a ele… ou pior. — E virar pião era melhor?! — questionei, a voz falhando. — Era o que dava — respondeu, firme apesar da dor. — Era o que eu podia fazer. Te dei amor. Te dei dignidade. Te ensinei a trabalhar. Te ensinei a ser homem sem precisar pisar em ninguém. Me sentei no banco, sem força nas pernas. A cabeça girava. — Ele tá morrendo… — falei baixo. — Me chamou pra dizer isso agora. Disse que tudo aqui é meu. Meu avô fechou os olhos por um momento. — Então ele finalmente teve coragem. — Coragem tarde demais — respondi. O meu velho sentou ao meu lado com dificuldade, colocou a mão pesada e quente sobre a minha. — Filho… — disse devagar — você não escolheu nascer daquele homem. Mas agora pode escolher o que fazer com essa verdade. Olhei pra frente, pro mesmo chão de terra que sempre foi meu mundo. — Eu não sei quem eu sou mais — confessei. — Você é o Augusto que eu criei — ele respondeu. — O resto… é só um sobrenome. As lágrimas caíram sem pedir licença. Pela primeira vez na vida, chorei no colo de quem sempre foi meu pai de verdade. Depois de um tempo me levantei e sai correndo sem rumo. Prendi o último portão do curral com mais força do que precisava. O ferro bateu seco, ecoando pelo pasto vazio, e eu fiquei ali parado, encarando o gado se ajeitando devagar, como se nada no mundo estivesse errado. Mas tava. Sempre esteve. Encostei a testa no mourão de madeira, sentindo o cheiro forte de terra, de bicho, de suor velho grudado na pele. O sol já tava descendo, pintando tudo de laranja, e aquilo apertou meu peito de um jeito que doeu de verdade. Eu tinha vinte e oito anos. Vinte e oito. Olhos claros puxados da minha mãe — foi o que o vô sempre disse — cabelo castanho claro, corpo forte de tanto carregar peso desde moleque. Forte por fora. Por dentro… nem tanto. As mãos começaram a tremer. — Desgraçado… — murmurei baixo, a voz falhando. A imagem dele vinha sempre assim, sem ser chamada. Frio. Distante. Me olhando como se eu fosse só mais um pião qualquer, mais um corpo pra gastar no pesado, mais um dia de serviço pra explorar. Como pode? Como pode um homem deixar o próprio filho viver na miséria? O choro veio rasgando, sem pedir licença. Primeiro silencioso, depois pesado, engasgado, daqueles que fazem o peito arder e o ar faltar. Eu apertei os olhos com força, mas não adiantou. As lágrimas caíram, misturando com poeira, descendo pelo rosto queimado de sol. — Eu nunca vou te perdoar… nunca… — falei entre soluços, a voz quebrada, jogando as palavras no vazio. Lembrei da casa onde eu cresci. Chão de terra batida, paredes simples, telha velha rangendo quando ventava forte. Lembrei do meu avô, curvado pelo tempo, mãos trêmulas, mas olhar firme. Foi ele quem me criou. Foi ele quem me ensinou a ser homem. Minha mãe morreu no parto, e desde então só sobrou nós dois contra o mundo. Eu sustentava aquela casa desde cedo. Acordava antes do sol, dormia depois da lua alta. Nunca reclamei. Nunca pedi nada. Mas saber que tudo aquilo podia ter sido diferente… isso me rasgava por dentro. Ajoelhei ali mesmo, no chão duro do curral, sem me importar com nada. O choro veio de novo, mais forte, mais feio. — Tu foi um monstro… — sussurrei, sentindo o gosto amargo da raiva. — Um monstro. Levantei o rosto pro céu já escurecendo, respirando fundo, tentando juntar os pedaços de mim que pareciam espalhados pelo pasto inteiro. Eu podia até ter aprendido a sobreviver. Mas perdoar… Isso, eu sabia, nunca ia acontecer. Continua......
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