CAPÍTULO 4
AUGUSTO NARRANDO
Eu ainda tava de joelhos quando ouvi alguém correndo, tropeçando na terra seca.
— AUGUSTO!
Levantei a cabeça num susto. Era a Mirna. Cabelo solto, vestido simples sujo de poeira, o peito subindo e descendo rápido de tanto correr.
— Que foi, Mirna? — perguntei rouco, limpando o rosto com a manga da camisa.
Ela parou na minha frente, ofegante, os olhos arregalados.
— O capataz… — puxou o ar — o capataz e o padre tão te procurando. Na casa grande. Tão perguntando de você pra todo mundo.
Meu estômago revirou na hora.
— Eu não tenho nada pra falar com ninguém — rosnei, já me levantando. — Muito menos com aquele homem.
— Augusto… — ela tentou tocar meu braço. — O padre tá desesperado. Disse que é coisa séria.
— Tudo agora é sério, né? — falei com amargura. — Quando eu passei fome nunca foi.
Virei de costas pra ela, mas não cheguei a dar dois passos quando ouvi a voz conhecida atrás de mim.
— Meu filho…
Fechei os olhos com força.
Padre José vinha andando apressado pelo caminho, a batina levantando poeira, o rosto marcado por preocupação. Atrás dele, de longe, o capataz observava, duro, de braços cruzados.
— Não me chama de filho — falei sem olhar. — Eu não sou nada daquela casa.
— Augusto, por caridade… — o padre se aproximou mais. — Seu pai está morrendo.
Senti o impacto daquelas palavras, mas engoli seco.
— Que morra — respondi frio. — Ele viveu bem. Melhor do que eu.
O padre parou na minha frente.
— Ele pediu por você.
Ri, um riso sem humor.
— Pediu tarde demais.
— É o último desejo dele — insistiu. — Ele tá fraco. Os médicos disseram que não passa de hoje.
— E o que o senhor quer que eu faça? — perguntei, sentindo a raiva subir de novo. — Dê a mão dele? Diga que tá tudo bem depois de uma vida inteira de desprezo?
— Não — o padre disse baixo. — Só vá. Olhe pra ele. Escute. Depois disso… você decide.
Balancei a cabeça em negação.
— Eu não devo nada àquele homem.
O padre respirou fundo, então fez algo que nunca vi: ajoelhou na minha frente.
— Eu tô te implorando, Augusto.
Aquilo me quebrou.
— Não por ele — continuou. — Por você. Pra que essa dor não te acompanhe pro resto da vida.
Olhei ao redor. O curral. A terra. O céu começando a escurecer. Tudo que sempre foi meu mundo.
— Eu tenho medo do que vou ouvir — confessei num fio de voz.
— Às vezes, enfrentar o medo é o único jeito de seguir em frente — ele respondeu.
Ficamos em silêncio por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
Por fim, soltei um suspiro pesado.
— Eu vou — disse. — Mas não por ele. É a última vez que piso naquela casa.
O padre se levantou devagar, aliviado.
— Obrigado, meu filho.
Passei a mão no rosto, respirando fundo, tentando endurecer o coração outra vez.
Se aquele homem queria me ver…
Então ia ter que encarar o filho que ele fingiu não existir.
Continuei andando ao lado do padre em silêncio.
O caminho até a casa grande nunca pareceu tão pesado. Cada passo era como se eu tivesse pisando num passado que eu tentei esquecer a vida inteira. A fachada imponente apareceu de novo diante de mim, grande demais, fria demais. Nada ali parecia casa. Parecia um túmulo esperando alguém.
Assim que entramos, o cheiro de remédio e coisa parada bateu forte no nariz.
O médico tava do lado de fora do quarto, expressão cansada, derrotada. Quando me viu, balançou a cabeça devagar.
— Não há mais o que fazer — disse baixo. — É questão de minutos… talvez menos.
Engoli seco. O padre fez o sinal da cruz.
— Ele ainda tá consciente? — perguntou.
— Muito pouco — respondeu o médico. — Mas reconhece vozes.
O padre olhou pra mim.
— Vai — disse com cuidado. — Agora.
Empurrei a porta com a mão tremendo.
O quarto tava escuro de novo. Cortinas fechadas, só aquela luz fraca entrando pela fresta. O silêncio era tão pesado que parecia gritar. Leonel Valença tava ali… menor do que nunca. A respiração curta, irregular. O peito subia e descia com esforço, como se cada fôlego fosse uma batalha perdida.
Cheguei mais perto.
Ele abriu os olhos devagar. Quando me viu, arregalou um pouco, como se tivesse medo de eu desaparecer.
— Augusto… — sussurrou, quase sem voz.
Fiquei parado. Braços duros ao lado do corpo. O ódio e a dor brigando dentro de mim.
— Eu vim — falei seco. — Falaram que era o seu último pedido.
Os olhos dele se encheram d’água.
— Eu não mereço… — a voz falhou — mas precisava te ver mais uma vez.
Ele tentou levantar a mão, mas não teve força. Aquilo me deu um aperto estranho no peito.
— Me perdoa… — pediu, chorando fraco. — Me perdoa por tudo… por ter sido covarde… por ter te deixado viver como se não fosse meu filho…
Fechei os olhos por um segundo. A imagem da casa de chão batido, do meu avô velho, da fome, das noites dormindo cansado demais até pra sonhar… tudo veio de uma vez.
— Eu não posso — falei com a voz quebrando. — Eu não consigo te perdoar.
Ele soluçou.
— Eu sei… — disse com dificuldade. — Mas eu não posso morrer assim… sabendo que deixei você com esse peso… por favor…
O padre apareceu na porta, em silêncio. O olhar dele em mim não era cobrança. Era pedido.
Leonel me encarou, desesperado.
— Eu fui um monstro… — confessou. — Eu sei. Mas… mas você não é como eu. Não carrega esse ódio com você… não deixa isso te consumir…
Minha garganta fechou. O ar parecia não entrar.
— Você já me consumiu demais — respondi num fio de voz.
Ele começou a chorar de verdade agora, um choro fraco, de homem quebrado.
— Eu te imploro… — sussurrou. — Me perdoa… nem que seja só pra eu ir em paz…
Olhei pra aquele homem que sempre me pareceu gigante… e agora m*l conseguia respirar. Não vi mais o patrão. Não vi o monstro. Vi um homem morrendo. Cheio de culpa. Sozinho.
Respirei fundo.
— Eu não esqueço — falei, sentindo as lágrimas caírem. — Nunca vou esquecer o que você fez comigo.
Ele assentiu, fraco.
— Eu sei…
— Mas… — a voz falhou — eu te perdoo. Não por você. Por mim.
Os olhos dele se iluminaram num alívio quase infantil.
— Obrigado… meu filho… — murmurou.
A mão dele tentou se mover de novo… e parou.
O peito subiu uma última vez… e não desceu.
O silêncio tomou o quarto.
O padre se aproximou devagar, colocou a mão no meu ombro.
— Ele se foi.
Fiquei ali parado, encarando aquele corpo sem vida. O homem que me deu o sangue… e nunca me deu o nome.
As lágrimas caíam em silêncio.
Eu tinha perdoado.
Mas a dor…
Essa ainda ia demorar muito pra ir embora.
Continua .....