5- CECÍLIA

1117 Palavras
CAPÍTULO 5 CECÍLIA NARRANDO Meu nome é Cecília Medina. Tenho vinte anos, sou loira, corpo bem cuidado, olhos verdes que costumam chamar atenção por onde passo. Cresci ouvindo que eu tinha tudo pra ser feliz… mas quase ninguém percebeu que, muitas vezes, eu me sentia completamente sozinha. Eu não moro na fazenda. Nunca morei. Minha vida sempre foi na cidade, entre faculdade, cafés apressados e noites longas demais dentro de uma casa enorme que, apesar de confortável, às vezes parece grande demais pra uma pessoa só. Meu pai tem uma fazenda. Grande. Tradicional. Daquelas que carregam nome, história e silêncio. Eu cresci indo pra lá nos fins de semana, feriados, datas importantes. Era um lugar bonito, mas nunca foi exatamente meu lar. Sempre me senti mais visita do que parte de tudo aquilo. Minha família é… complicada. Meu pai sempre foi presente à maneira dele: pagando tudo, resolvendo tudo com dinheiro, mas eu sempre fui mais apegada nele do que na minha mãe. Ele sempre foi carinhoso comigo, atencioso. Enquanto minha mãe, sempre foi grossa, na dela, tudo pra minha mãe é dinheiro. A única coisa que importa pra ela é o dinheiro e a classe social que a gente carrega. Aprendi cedo a me virar sozinha, a não depender emocionalmente de ninguém. Meu irmão então, esse puxou a ela. Interesseiro, não gosta de trabalhar e vive com dividas em jogos. Ele é o desgosto da nossa família. Se tem uma pessoa que realmente me conhece, essa pessoa é a Sophia. Minha única amiga. Confidente de alma. Ela sabe absolutamente tudo sobre mim: meus medos, minhas inseguranças, minhas escolhas erradas e… meus sentimentos mais escondidos. Sophia é quem me escuta sem julgar, quem me puxa de volta quando eu começo a me perder. E tem o Josué. Só de pensar nele, meu coração aperta. Josué é segurança da fazenda do meu pai. Alto, moreno, olhar sério, postura firme. Um homem de poucas palavras, daqueles que observam mais do que falam. Sempre respeitoso. Sempre no limite exato entre presença e distância. Ele nunca passou da linha comigo. Nunca tentou nada. Nunca se aproveitou da posição. Nunca me olhou como se tivesse direito a alguma coisa. E talvez seja exatamente por isso que eu me apaixonei. Me apaixonei pelo jeito contido, pela força silenciosa, pela forma como ele parece me proteger sem precisar tocar em mim. Um sentimento proibido, guardado a sete chaves dentro do peito. Um amor que só a Sophia conhece por completo. Ela vive dizendo que eu devia esquecer isso. Que homem como ele não se envolve com mulher como eu. Que esse tipo de sentimento só machuca. Mas como é que a gente escolhe não sentir? Às vezes, quando vou à fazenda e cruzo com Josué pelos corredores ou pelo pátio, nossos olhares se encontram por segundos rápidos… intensos. Ele abaixa a cabeça. Eu sigo em frente fingindo normalidade. Mas por dentro… Por dentro eu sou só uma mulher apaixonada por alguém que nunca deveria amar. .............................................. O fim de semana chegou como sempre chegava: com convite do meu pai pra ir até a fazenda. Eu fui mais por costume do que por vontade. Mas, naquele dia, algo em mim parecia inquieto demais pra ser só rotina. A cachoeira ficava um pouco afastada da casa principal. Era meu lugar preferido desde menina. Água gelada, pedras grandes, o som constante caindo forte, limpando a cabeça da gente. Um lugar onde eu conseguia esquecer quem eu era… e de quem eu deveria gostar. Eu tava sozinha. O sol atravessava as árvores, batendo na minha pele molhada. O vestido leve grudava no corpo, e eu tinha acabado de tirar a sandália, sentando numa pedra lisa, deixando os pés na água. Foi quando senti. Não ouvi passos. Só senti. Levantei o rosto devagar… e meu coração disparou. Josué. Ele tava parado alguns metros atrás, fardado, sério como sempre, mas com o olhar diferente. Mais escuro. Mais carregado. Como se tivesse brigando consigo mesmo. — Eu… eu não sabia que tinha alguém aqui — ele disse, firme, mas a voz não saiu tão segura quanto o normal. — A cachoeira não é proibida — respondi, tentando parecer calma. — Nem eu. Ele desviou o olhar, claramente desconfortável. — Eu devia ir embora. — Então por que não vai? — perguntei antes de pensar. O silêncio caiu pesado entre nós, quebrado só pelo barulho da água. Ele respirou fundo, passou a mão pelo cabelo curto e me olhou de novo. Dessa vez, direto. Sem fugir. — Porque eu sempre fui apaixonado por você, Cecília. Meu corpo inteiro arrepiou. — Desde o primeiro dia — ele continuou. — Desde que te vi descendo do carro, rindo de qualquer coisa. Mas eu sei o meu lugar. Sei que você é… proibida pra mim. Levantei da pedra devagar, sentindo o coração quase sair pela boca. — Proibida por quem? — questionei, me aproximando um passo. — Pelo mundo — ele respondeu. — Pelo seu pai. Pela diferença entre nós. Você é filha do meu patrão. Eu sou só o segurança da casa. — Não é só — falei baixo. — Nunca foi só. Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquilo doesse. — Não complica, Cecília… — murmurou. — Isso não tem futuro. — Tem se eu quiser — rebati, já perto demais. — Eu quero você. Não quero mais ninguém. Os olhos dele desceram pros meus lábios. Depois subiram de novo, cheios de conflito. — Você não sabe o que tá dizendo. — Sei exatamente — respondi. — Eu penso em você o tempo todo. Isso não é coisa pequena. Ele deu um passo pra trás. — Seu pai nunca vai aceitar. — Meu pai pode entender — falei com convicção. — E se não entender… é a minha vida. Não a dele. — Você acha mesmo que ele vai deixar? — Josué perguntou, a voz pesada. — Que vai aceitar ver a filha dele com alguém como eu? — Alguém como você é exatamente quem eu quero — respondi, sem hesitar. O silêncio voltou, mais tenso ainda. De repente, ele não aguentou mais. Me puxou pela cintura com força contida, como quem lutou contra aquilo por tempo demais. A boca dele encontrou a minha com urgência, fome, verdade. Um beijo quente, intenso, proibido. Minhas mãos foram pro pescoço dele, os dedos tremendo, enquanto o mundo inteiro parecia desaparecer. Quando ele se afastou, a testa colada na minha, a respiração descompassada, a voz saiu num sussurro dolorido: — Isso é errado… — Errado é fingir que não sente — respondi. Ele me olhou como se eu fosse tudo que ele sempre quis… e tudo que ele sabia que podia perder. Continua......
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