CAPÍTULO 6
CECÍLIA NARRANDO
O tempo passou.
Não rápido.
Não fácil.
Passou do jeito mais c***l possível: em dias roubados, encontros escondidos e uma ansiedade constante que nunca me deixava respirar em paz.
Eu e Josué… a gente namorava escondido.
Não tinha nada de conto de fadas. Nada de fotos, nada de mãos dadas em público, nada de planos ditos em voz alta. Nosso amor vivia nos cantos da fazenda, nos horários errados, nos olhares longos demais e nos beijos rápidos que pareciam sempre uma despedida.
Eu ia pra fazenda com desculpas cada vez mais frágeis. Ele sempre dava um jeito de estar por perto.
Às vezes era atrás do galpão.
Às vezes perto da cerca, no fim da tarde.
Às vezes dentro da caminhonete parada longe da casa, com o coração acelerado e o medo grudado na pele.
Mas mesmo assim… eu era feliz quando estava com ele.
Josué me tratava como ninguém nunca tratou. Não como filha do patrão. Não como troféu. Não como alguém acima. Ele me via. Me escutava. Me respeitava.
E isso me fez querer mais.
— Você precisa falar com meu pai — eu dizia quase toda vez que a gente se encontrava.
Ele sempre ficava tenso quando eu tocava nesse assunto.
— Não é a hora, Cecília — respondia. — Ainda não.
— Quando vai ser? — eu insistia, sentindo o nó se formar no peito. — A gente não pode viver escondido pra sempre.
Ele desviava o olhar, passava a mão no rosto, respirava fundo.
— Seu pai confia em mim — dizia. — Se eu falar agora… posso perder tudo. O trabalho. A dignidade. Você.
— Eu não vou a lugar nenhum — eu garantia. — Mas eu preciso que você lute por nós.
Ele me puxava pra perto, encostava a testa na minha, como se estivesse cansado demais pra discutir.
— Eu tô lutando do jeito que eu sei.
Mas os dias viravam semanas.
As semanas viravam meses.
E a conversa sempre terminava do mesmo jeito: com promessas vagas e adiamentos que me machucavam mais do que eu queria admitir.
Eu amava Josué.
Mas começava a sentir medo.
Medo de que ele nunca tivesse coragem de enfrentar o mundo por mim.
E o pior aconteceu numa tarde que eu jamais vou esquecer.
Minha mãe chegou mais cedo em casa.
Eu tinha acabado de voltar da fazenda, o corpo ainda quente do abraço dele, o coração leve demais pra alguém que devia estar em alerta. Subi pro quarto achando que tava tudo sob controle.
Não estava.
— Cecília — a voz da minha mãe ecoou pelo corredor. — Vem aqui. Agora.
Meu estômago gelou.
Desci devagar. Ela tava na sala, sentada, postura dura, celular em cima da mesa. Meu celular.
— O que é isso? — perguntou fria, apontando pra tela aberta com mensagens minhas e dele.
Meu mundo caiu.
— Mãe… — comecei, mas não consegui continuar.
Ela levantou num pulo.
— VOCÊ TÁ FICANDO COM UM SEGURANÇA?! — gritou, o rosto vermelho de ódio.
— O nome dele é Josué — respondi, tentando manter a voz firme. — E eu amo ele.
O tapa veio rápido.
Estalado.
Meu rosto virou pro lado com a força. O ardor queimou a pele, mas a dor maior foi por dentro. Levei a mão ao rosto, sentindo os olhos encherem de lágrimas.
— Você perdeu o juízo?! — ela continuou. — Um simples segurança? Você sabe o que isso significa pra nossa família?
— Eu sei o que significa pra mim — respondi, chorando. — Ele me faz feliz!
— Felicidade não paga contas! — ela cuspiu. — Não sustenta nome! Não mantém status!
— Eu não sou um negócio! — gritei de volta. — Eu sou sua filha!
Ela me olhou com desprezo.
— Você é uma Medina. E vai se comportar como uma.
Meu pai chegou pouco depois, atraído pela gritaria. Olhou meu rosto vermelho, minha mãe transtornada, o clima pesado.
— O que tá acontecendo aqui? — perguntou sério.
Minha mãe foi rápida:
— Sua filha tá se envolvendo com um empregado da fazenda.
O silêncio que caiu foi pior que qualquer grito.
Meu pai me olhou. Não com raiva. Com decepção.
— É verdade, Cecília?
Respirei fundo, o coração disparado.
— É — respondi. — E eu amo ele.
Ele passou a mão pelo rosto, cansado.
— Isso não pode continuar — disse por fim. — Você sabe disso.
— Eu sei que vocês nunca aceitaram que eu escolha por mim — respondi, a voz firme apesar do choro. — Mas eu não vou terminar.
— Ela tá sendo manipulada — disse a minha nhã mãe, a voz firme, ensaiada. — Esse homem se aproveitou da posição. Se aproximou dela pra conseguir vantagens.
— NÃO! — gritei na hora. — Isso não é verdade!
Meu pai virou o rosto pra mim, confuso, tentando entender aquela cena que parecia grande demais pra sala.
— Cecília… — ele começou. — É isso mesmo?
Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta. Dei um passo à frente.
— Pai, eu ia te contar — falei, a voz tremendo, mas firme. — Eu e o Josué estamos juntos porque eu quis. Ninguém me obrigou a nada. Eu amo ele.
Minha mãe se virou pra mim num pulo.
— Cala a boca! — gritou. — Você não sabe o que tá dizendo!
— Sei sim! — rebati. — E eu não vou mentir pra salvar aparência nenhuma!
Meu pai levou a mão ao peito de repente.
Foi rápido demais.
— Pai? — chamei, sentindo o sangue gelar.
Ele tentou dar um passo, mas o corpo falhou. O rosto perdeu a cor, a boca entortou levemente, os olhos ficaram perdidos.
— Meu Deus… — minha mãe sussurrou, recuando.
Meu pai caiu.
O som do corpo dele batendo no chão foi seco. Definitivo. Um barulho que eu nunca vou esquecer.
— PAI! — gritei, me jogando ao lado dele.
Ele respirava estranho, pesado, a fala embolada quando tentou dizer meu nome.
— Chama… chama uma ambulância! — berrei, desesperada.
Minha mãe ficou paralisada por um segundo que pareceu uma eternidade, depois correu até o telefone com as mãos trêmulas.
Segurei o rosto do meu pai entre as mãos, chorando sem controle.
— Fica comigo, pai… pelo amor de Deus… — implorei. — Não faz isso comigo.
Os olhos dele me encararam por um instante. Um olhar assustado. Frágil. Diferente de tudo que eu já tinha visto nele.
— Ce… cília… — tentou dizer, mas a palavra morreu no meio.
O choro me rasgava o peito.
Tudo tinha saído do controle.
Em poucos minutos a casa se encheu de vozes, passos apressados, ordens médicas. Quando levaram meu pai na maca, eu fiquei ali, parada, sentindo como se tivesse sido arrancada de mim mesma.
Minha mãe me olhou como se eu fosse a culpada de tudo.
— Olha o que você fez — disse fria, c***l.
Eu não respondi.
Só pensava numa coisa.
Naquela verdade que eu tentei contar. No amor que eu defendi. E no preço alto demais que aquilo parecia estar me cobrando.
Continua.....