A noite tinha sido longa. Na verdade, quase não dormi. A mente não parava de repetir a mesma frase: eu sou pai. p***a, eu tenho um filho. Um filho que a Cecília escondeu de mim. A raiva e a felicidade se misturavam dentro de mim como fogo e gelo. Eu queria esganá-la por ter tirado de mim os primeiros anos de vida dele, mas ao mesmo tempo… eu me sentia completo. Pela primeira vez em muito tempo, havia uma razão maior para lutar e proteger.
Enquanto pensava, o telefone vibrou na mesa de cabeceira. Era o Máximo.
— Alô.
— Dante… temos um probleminha. — A voz dele estava séria, arrastada.
— Fala logo.
— A amiga da tua mulher foi à polícia denunciar que tu a sequestraste.
— Como é que é? Que p***a é essa, Máximo?
— Pois é. Mas já tratei disso. Os homens que temos dentro da polícia arquivaram a denúncia.
Ainda assim, ela não se calou. Foi até a frente da empresa, gritou, ameaçou fazer escândalo, e corre o risco de filmarem e colocarem na internet.
Isso pode chamar atenção dos inimigos.
Passei a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Tudo bem. Trata disso. Mas ouve: não toques num fio de cabelo dela. Eu prometi à Cecília. Cuida dela, garante que fique segura.
— E como vamos fazer? — perguntou, já sabendo que eu tinha um plano.
— Hospeda-a em um dos nossos condomínios. E pensando melhor… coloca-a no mesmo andar onde está o meu irmão. Ele vai garantir que nada lhe aconteça.
Do outro lado da linha, ouvi um silêncio pesado.
— Dante, não acho isso boa ideia. O Brend vai surtar. Ele não é exatamente… confiável.
— Ele sabe muito bem que, antes de ser irmão dele, eu sou o Don. E quando o Don dá uma ordem, não se discute. Só cumpre.
— Como você quiser… — murmurou. — Eu não quero me envolver em problemas familiares.
— Deixa comigo, Máximo. Eu resolvo.
Desliguei. A água do banho não conseguiu apagar o turbilhão de pensamentos. Eu tinha uma família agora — e isso significava mais responsabilidades, mais riscos.
Quando saí, o quarto estava vazio. Meu coração disparou.
Não é possível. Ela não fugiu. Não se atreveu.
Revirei os cômodos, até que a encontrei na cozinha. Cecília estava com o avental todo sujo de farinha, rindo baixinho enquanto preparava panquecas. O Lion, sentado na bancada, batia as mãos, animado:
— Mamãe, faz uma carinha engraçada! Eu quero uma panqueca sorridente!
Ela riu, passando a mão na bochecha dele.
— A mamãe vai fazer tudo que o meu filho quiser, mas fica quietinho para eu terminar. Assim você come, cresce forte e fica igualzinho ao seu pai.
Aquela última palavra atingiu-me como um soco.
Pai.
O garoto abriu um sorriso radiante.
— Então eu vou conhecer o papai? Ele voltou da viagem?
— Voltou sim, filho. Ele está aqui.
O menino gritou, vibrando:
— Oba! Agora ninguém vai poder dizer que eu sou um filho sem pai!
A garganta fechou. p***a… aquilo me desmontou. Cecília limpou discretamente as lágrimas, mas eu percebi. Então, entrei.
— Bom dia.
O Lion olhou para mim, depois para a mãe.
— Mamãe, é o papai?
Ela assentiu, emocionada.
— Sim, filho. Esse é o seu pai. Ele se chama Dante, e eu tenho certeza de que vai ser incrível contigo.
O menino me encarou com os olhos brilhando.
— Olá, papai! Eu sou o Lion. Você vai jogar bola comigo?
Me abaixei até ficar na altura dele. Não soube direito o que responder — nunca aprendi a ser pai — mas me ouvi dizendo:
— Eu vou cuidar muito bem de você. Vou ser o melhor pai que puder. E não só jogar bola… nós vamos brincar de tudo. Vou te levar à escola sempre que puder.
Ele vibrou, batendo palmas.
— Oba! Agora tenho um pai e uma mãe!
Cecília não aguentou e chorou. Eu me levantei, puxei-a para mim e sussurrei no ouvido dela:
— Obrigado por me deixar fazer parte da vida dele. Da tua vida também.
Ela apenas assentiu, em lágrimas.
Para quebrar o clima, bati palmas.
— Vamos comer a comida que a mamãe fez?
Rimos. As panquecas tinham rostinhos engraçados, e até eu não resisti a sorrir. Depois de comermos, levamos o Lion à creche. Ele me apresentou a todos os colegas, orgulhoso. "Este é o meu pai!" repetia para quem quisesse ouvir. As professoras olhavam para mim de um jeito que eu já conhecia, mas não dei espaço: segurei Cecília pela cintura, deixando claro que ela era minha mulher.
Na saída, ela me agradeceu baixinho.
— Tu não imaginas o quanto isso significou para ele. Mudaste a vida dele só por aparecer.
Segurei sua mão, firme.
— Então me escuta, Cecília: de agora em diante, vou fazer tudo o que for preciso para dar a ti e ao nosso filho uma vida digna. Vocês são a minha família agora.
E pela primeira vez, falar em família não me pareceu um fardo. Foi uma promessa.