Acordei com o coração ainda em festa. Eu havia sido contratada. Contratada! Uma palavra tão simples, mas que naquele instante carregava um peso imenso. Significava estabilidade, dignidade e, acima de tudo, esperança. Eu poderia finalmente ser o apoio que meu filho e minha melhor amiga tanto mereciam.
Após preparar o café da manhã para mim, para a Zoe e para o Lion, decidi organizar a casa. Coloquei em dia a minha agenda pessoal e a do meu filho. Senti vontade de sair um pouco e deixar que o Lion respirasse ar puro antes de tudo mudar com minha nova rotina. Liguei para Maria e a convidei para nos acompanhar em um passeio no parque. Ela, como sempre, foi solícita.
Lion ficou radiante ao saber que iríamos ao parque. Correu pela casa animado, como se o mundo fosse um enorme campo de brinquedos esperando por ele. No parque, ele brincou com outras crianças, rodou nos gira-giras, desceu nos escorregas, e eu e Maria nos sentamos para conversar enquanto o observávamos com o coração cheio.
Estávamos ali, sorrindo uma para a outra, quando o meu telefone tocou. Era a Zoe.
— Amiga, por favor, passa na casa do William e pega uns documentos que ele ajudou a preparar pra mim. Eu esqueci e preciso deles ainda hoje no trabalho!
Concordei, mesmo com certo desconforto. William era um amigo importante para nós, especialmente nos momentos mais difíceis. Ele nos ajudou quando fomos despejadas, quando eu estava quase entrando em trabalho de parto… Mas, infelizmente, seus sentimentos por mim mudaram com o tempo. Começou a dar sinais claros de que queria mais do que amizade, e eu precisei ser direta com ele. Mesmo assim, ele não parecia desistir.
Cheguei à casa dele e toquei a campainha. Para minha surpresa — e constrangimento — ele apareceu na porta apenas de toalha.
— William! Desculpa te incomodar, a Zoe pediu que eu viesse buscar os documentos que você preparou pra ela. Ela esqueceu de pegar e precisa com urgência.
Ele sorriu com aquele jeito despretensioso e respondeu:
— Claro, estão no meu quarto. Pode entrar, não precisa ficar aí fora.
— Não, está tudo bem. Prefiro esperar aqui mesmo.
— Cecília... às vezes fico a pensar se esse teu jeito não é só orgulho. Eu só te pedi pra entrar.
Respirei fundo para não criar tensão.
— Está bem, William, vou entrar.
Ele desapareceu por um instante e voltou com a pasta.
— Desculpa o jeito como te recebi. Eu estava saindo pro trabalho e acabei de sair do banho.
— Sem problema. Eu vim sem avisar.
Ele sorriu de novo. Aquele sorriso.
— Quem sabe esse acaso, me vendo assim, não te faz mudar de ideia? Vai que te apaixonas por mim…
— William… — interrompi, firme, mas gentil. — Já te disse antes, e repito: eu não tenho sentimentos por ti além de amizade. Não quero alimentar algo que não existe.
Ele baixou os olhos, com aquela expressão de quem tenta disfarçar o desapontamento. Agradeci os documentos, me despedi e fui entregar à Zoe.
No caminho, liguei para Maria e pedi que ficasse com o Lion por mais algumas horas. Aproveitei para passar no mercado e comprar mantimentos para casa.
Mais tarde, quando fui buscar o Lion, contei a Maria a novidade: havia sido contratada na empresa do Dante Morelli. Ela vibrou de felicidade e disse:
— Sabia que algo bom estava a caminho. Agora o caminho é teu, filha.
No dia seguinte, Zoe me ajudou a me preparar para o grande dia. Pintou meus lábios com um vermelho suave, ajeitou meu cabelo num coque elegante e me emprestou roupas de trabalho: uma saia lápis azul-marinho, uma blusa branca e um blazer combinando. Me deu dinheiro para o táxi, dizendo que era um presente.
Cheguei à empresa às 6h30. O prédio ainda estava silencioso, quase vazio. O segurança me encaminhou à recepção, onde uma senhora muito simpática me mostrou o andar correto. Fiquei aguardando na sala de espera. O elevador se abriu minutos depois… e lá estava ele.
Dante Morelli.
Meu coração disparou. Ele estava impecável — terno preto alinhado, cabelo penteado com perfeição, exalando um perfume marcante, masculino. Meu corpo inteiro estremeceu, mas mantive a compostura.
— Bom dia, senhora Monteiro — disse ele, sério.
— Bom dia, senhor Morelli — respondi.
— Pode entrar e se sentar. A senhora Maia irá lhe instruir. Depois, venha até minha sala com minha agenda do dia.
A senhora Maia chegou pouco depois das 7h. Diferente da recepcionista, ela não era nem um pouco simpática. Demonstrava abertamente seu incômodo com minha presença. Ainda assim, segui cada instrução, anotei tudo com atenção — senhas, acessos, softwares, rotinas. Ao final, pedi a agenda do Dante.
— Ele pediu que eu fosse até a sala dele com a agenda de hoje. Pode me indicar onde a encontro?
Ela imprimiu o cronograma e me entregou. Mas antes de eu sair da sala, ela disse com amargura:
— Para você estar aqui, alguém teve que ser despedida. Alguém que precisava muito deste emprego.
Olhei para ela com firmeza.
— Senhora Maia, lamento que alguém tenha perdido o trabalho. Mas, assim como ela, eu também preciso muito disso. E não acho justo julgar quem nem conheço.
— Como se atreve a falar assim de quem você nem sabe quem é?
— E como a senhora se atreve a julgar a mim, que também não conhece?
Peguei a agenda, respirei fundo e fui direto à sala do Dante. Bati à porta. Quando ele autorizou, entrei e, mantendo o profissionalismo, anunciei:
— Senhor Morelli, aqui está a sua agenda do dia. Às 9h, o senhor tem uma reunião online com a equipe jurídica. Depois, outra reunião presencial no andar abaixo. Após o almoço, reunião com os sócios da Espanha. Por fim, assinatura dos documentos que foram deixados ontem.
Ele me ouviu sem desviar os olhos de mim. Seu rosto impassível, olhar frio e firme. Quando terminei, ele respondeu com um leve aceno:
— Começou bem. Parabéns. Gosto de pessoas que trabalham sem precisar de ordens repetidas. Organize tudo para a reunião das nove. Seja rápida. E lembre-se: odeio repetir coisas.
— Farei o meu melhor para não o desapontar, senhor Dante.
Ele me encarou, com um leve sorriso de canto, carregado de algo mais.
— Há muitas formas de desapontar, senhora Cecília.
Fingi não entender. Não lhe daria espaço.
— Se for tudo, posso me retirar? Gostaria de conhecer melhor os fornecedores e não criar problemas no futuro.
Ele me encarou por mais alguns segundos, seus olhos cravados nos meus. Depois, respondeu com frieza:
— Pode se retirar, Cecília.
E assim, saí. Com o coração acelerado, mas com a certeza de que eu estava pronta para enfrentar aquele novo mundo. Mesmo que, dentro dele, habitasse o pai do meu filho — e o homem que eu nunca consegui esquecer.