Trabalhar com a Cecília durante o dia não foi um peso — foi, surpreendentemente, eficiente. Ela aprende rápido, tem atenção e, acima de tudo, não cometeu erros que me obrigassem a gritar. Isso, por si só, já era notável. Gosto de pessoas que entendem a rotina antes mesmo que eu precise repetir.
Ao fim da tarde, Brend apareceu na minha sala como sempre — impossível não notar o sorriso gozador no rosto. Ficou me cutucando, falando daquilo que me deixa em brasa.
— Mano, não te entendo. Dois anos depois e tu ainda pensa naquela noite. Se a mulher for boa, não perdês tempo — disse ele entre risos, depois, mais sério: — Tu vai transformá-la na tua mulher? Fala sério.
Fixei nele um olhar que costuma parar até quem tem coragem demais. Não precisava dizer mais nada: Brend entendeu. Mas, antes de ir, me deu um conselho com tom de irmão e aliado.
— Investiga bem, Dante. Algo mudou nesses dois anos. Pode haver armadilhas. Não sejas pego de surpresa pelo Conselho.
Tinha razão. Não seria t**o a ponto de assumir qualquer coisa sem informação. Liguei para Mássimo assim que ele saiu e pedi: varre o passado dela. Quero tudo — universidade, endereços, trabalho, quem a protege, possíveis ligações. Em duas horas quero um relatório. Não quero surpresas.
Horas depois, o dia já arrefecia e eu estava atolado em papéis quando ela entrou na minha sala com uma bandeja: chá de camomila e água. Fazia aquilo com a mesma naturalidade com que organizava os prazos e as reuniões. Tive que controlar o que senti para não pegá-la ali mesmo.
— Senhor Dante, precisa de mais alguma coisa ou posso ir? — perguntou, com a voz contida, profissional.
— Não. Pode ir — respondi, tentando soar neutro. Assim que a porta se fechou, o silêncio voltou a me rodear. E naquele silêncio senti o tempo pesar.
Bati na mesa uma vez — mais para mim do que para qualquer um — e esperei. Mássimo atrasara-se. Estranho. Nossa rede costuma ser perfeita. Enquanto eu mastigava a paciência, ouvi passos no corredor. Toquei o interfone e disse: — Entre.
Mássimo entrou com o rosto fechado, o tipo de expressão que nunca traz boas notícias.
— Desembucha, Mássimo. O que encontrou? — ordenei.
Ele sentou, limpou a garganta e foi direto ao ponto com a frieza do homem que vive em papéis e números.
— Don… a senhora Monteiro tem um filho. Um menino de um ano e alguns meses.
Por um segundo todo o ar me faltou. Suspirei baixo, já pressentindo o que viria.
— E onde está a criança? — perguntei, com a voz mais controlada do que senti.
Mássimo não desviou o olhar.
— Na vizinhança dela. Tenho o relatório completo. E, Don… os testes de compatibilidade — ele puxou um envelope — apontam noventa e nove por cento de possibilidade de paternidade. Nós cruzamos amostras de DNA, registros e dados. A chance é praticamente certa.
A ficha caiu com uma força que me dominou. Meu peito apertou, a raiva e a incredulidade se misturaram num nó que me deixou sem reação por alguns segundos.
— Como… como ela pôde me esconder isso?
— tive que engolir as palavras, a mandíbula trêmula.
— Desde quando?
— Há cerca de um ano e pouco. Ela não consta como sua conhecida pública. Ela mudou de endereço várias vezes. A rede teve dificuldade para rastrear — explicou Mássimo. — Só conseguimos localizar depois de unir pontos do perfil social e algumas fontes locais. Don, o relatório está aqui.
Peguei o envelope como se fosse algo incandescente. Folheei os documentos, as fotos, as datas. Tudo fazia sentido demais. Cada pedaço encaixava. Era impossível negar.
A angústia virou raiva. Uma raiva cortante: por ter sido enganado, por ter sido excluído de algo que, por direito, me pertencia. E também, por uma sensação mais inesperada — uma possessão primata, profunda.
— Traga-a para o meu apartamento. Agora. — mandei, sem pestanejar. — E traga a criança também. Não toque nela, não a humilhe, apenas traga — instruí, já imaginando a cena de vê-la ali, com o menino nos braços, olhos arregalados, pronta para explicar o inexplicável.
Mássimo assentiu, já em modo operação.
Enquanto ele saía, o meu pensamento girava como lâmina. Ela me prestou um silêncio calculado ou teve medo? Escondeu-me por proteção? Por covardia? Por orgulho? Todas as possibilidades me enraiveceram e, ao mesmo tempo, mexeram com algo que eu não queria admitir: a ideia de que havia um filho meu — uma parte minha — crescendo longe, sem meu nome, sem meu controle.
Clamei para dentro de mim as primeiras verdades do que eu queria: ela pagaria por ter sumido; eu exigiria explicações; e, acima de tudo, aquela criança seria minha prioridade. Protegeria ou ela me destruiria— ainda não sabia qual seria o meu gesto primeiro. Mas sabia de uma coisa com certeza letal:
Ninguém some com algo meu e sai impune.