Capítulo 15 — Cecília Monteiro

904 Palavras
Cheguei em casa tão cansada que parecia que cada passo pesava toneladas. O ônibus lotado, o calor abafado, a exaustão do meu primeiro dia… mas tudo isso se apagou no instante em que abri a porta e vi o meu pequeno Lion. Ali, no nosso cantinho simples, o meu filho era a minha felicidade e a minha prioridade. Arrumei a casa, preparei o jantar, dei-lhe banho e o coloquei na cama. Ele adormeceu tranquilo, com aquela respiração suave que sempre me lembrava o quanto eu tinha que ser forte por ele. Fiquei algum tempo assistindo televisão, tentando relaxar, até que Zoe chegou do trabalho. Contei a ela como tinha sido meu primeiro dia na empresa Morelli. Falei que Dante havia sido profissional, que não me tratou de forma inapropriada. Ela suspirou aliviada, mas eu confessei algo que ficou preso na minha garganta: eu tinha desejado, no fundo, que ele perguntasse por que eu desapareci. Eu queria ouvir dele que havia sentido a minha falta. Mas sabia que isso não era possível. Trinta minutos depois, a tranquilidade da noite foi despedaçada. A porta da nossa casa foi golpeada com força, como se quisessem arrancá-la. Eu e Zoe nos entreolhamos, assustadas. — Amiga… você está esperando alguém? — ela perguntou. — Não. E você? — respondi, o coração disparando. As batidas insistentes nos fizeram estremecer. Tomei coragem, respirei fundo e fui até a porta. Abri. Na minha frente, estava um homem alto, de olhos azuis frios como gelo, cabelos pretos e corpo tatuado. Usava um terno preto impecável, e atrás dele havia mais homens igualmente intimidador. O líder, com a voz firme, disse: — Temos de sair agora. O senhor Dante pediu que viesse conosco. Você e o seu filho. Meu estômago revirou. Senti a ficha cair com brutalidade. Ele sabia. Dante sabia da existência de Lion. — Eu não vou a lugar nenhum. Não vou levar o meu filho com vocês — respondi, a voz trêmula, mas firme. O homem estreitou os olhos. — Senhora Cecília, estou a perder a paciência. Vai por bem… ou por m*l. Zoe deu um passo à frente, tomada pela raiva. — Quem você pensa que é, para invadir nossa casa? Vou chamar a polícia! O homem riu, uma gargalhada fria, como se achasse graça da coragem dela. — Chame. Não vai adiantar. Vocês sabem muito bem quem nós somos. Meu medo se transformou em desespero. Segurei Zoe pelo braço e a puxei de volta, tentando fechar a porta, mas o homem a segurou com facilidade. — Senhora Cecília, é melhor não me testar. Vamos agora. Olhei para a sala, para o corredor, para o quarto onde Lion dormia. O pânico de que eles pudessem machucar Zoe ou assustar meu filho venceu qualquer resistência. — Eu vou. Mas não façam barulho. O meu filho está dormindo — pedi, quase implorando. — Seja rápida — respondeu ele, seco. Entrei no quarto, arrumei Leo, vesti-o melhor para o vento da noite e o tomei nos braços. O coração parecia que ia sair pela boca. Voltei à sala. Zoe correu até mim e me abraçou com força. — Amiga, não vá. Eles são perigosos. — sussurrou chorando. — Eu volto, eu prometo. — tentei sorrir, embora estivesse desmoronando por dentro. Os homens nos escoltaram até um carro luxuoso. A viagem foi silenciosa, sufocante. Quando chegamos, vi que era um hotel de luxo, absurdamente diferente da minha realidade. Subimos pelo elevador até o último andar. O líder tirou um cartão e abriu a porta de uma suíte gigantesca. — Sente-se — ordenou. Me acomodei no sofá, com Leo no colo, tentando proteger seu sono. O homem saiu, mas não estávamos sozinhos. Pelo reflexo da televisão, vi alguém ainda ali. Virei o rosto… e o sangue gelou. Dante estava atrás de mim. Meu coração parou. Não consegui falar nada. O silêncio pesou até que a voz dele, fria e carregada, cortou o ar: — Explique-se. Por que escondeu a gravidez? Por que desapareceu? Você tem ideia do que fez? Do perigo que colocou em mim, em você, no meu filho? Cada palavra dele era um golpe. Eu tremia, tentando segurar as lágrimas. — Dante… eu não queria esconder. Mas quando descobri, eu perdi o emprego, perdi a casa, não tinha nada. Minha amiga me sustentou, ela e eu corremos de um lugar para outro. Eu pensei em ligar para você… tantas vezes. Mas você não é um homem normal. Você é um mafioso. Eu tive medo. Medo do meu filho viver nesse mundo, de morrer por causa dele. Então decidi desaparecer. Minhas lágrimas caíam sem controle. Eu estava em pânico. — Dante, eu não quero perder o meu filho. Eu não posso viver longe dele. Ele é a minha vida. O olhar dele queimava, mas não havia resposta imediata. Então, com uma calma aterrorizante, ele disse: — Traga o menino. — Para quê? — perguntei, a voz embargada. — Traga o menino. — repetiu, firme, inabalável. Sem escolha, coloquei Lion no colo e o segui até um quarto enorme e luxuoso. Dante apontou para a cama. — Deite-o aí. Eu te espero na sala. Coloquei meu filho na cama, ajeitei-o com cuidado, beijei sua testa. Meu coração estava em frangalhos. Quando voltei para a sala, senti que a minha vida tinha acabado de mudar para sempre. Dante não ia permitir que Lion vivesse longe dele. E, no fundo, eu sabia… nada nunca mais seria igual.
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