Cecília entrou na sala devagar, como se cada passo fosse pesado demais para carregar. Eu a observei em silêncio, o coração batendo mais rápido do que deveria. O reflexo da televisão me mostrava o quanto ela estava tensa, mas quando a chamei para se sentar ao meu lado, ela obedeceu, ainda que com hesitação. Não se aproximou demais. Sentou-se na beira do sofá, como quem está prestes a fugir.
— Senta-te, Cecília. — Minha voz saiu fria, calculada, como exige o meu papel.
Ela engoliu em seco. E eu vi nos olhos dela o medo, a dúvida, a desconfiança. Mas por trás de tudo aquilo havia outra coisa — dor. Uma dor que eu também carregava. E mesmo assim, por mais que dentro de mim houvesse a vontade de segurá-la e dizer que não importava o que tinha feito, que eu só queria recuperar o tempo perdido, o Don dentro de mim falou mais alto. Eu não podia fraquejar. Não com ela. Não agora.
Cruzei as mãos sobre o joelho e disparei:
— O que fizeste não tem perdão. No meu mundo, Cecília, o que fizeste poderia custar a tua vida. Esconder um filho do teu Don é traição.
Ela empalideceu e me olhou como se tivesse levado um soco no estômago.
— Dante... eu...
Levantei a mão, cortando qualquer tentativa de defesa.
— Só existe uma maneira de corrigir isso. Vais te casar comigo.
O silêncio dela doeu mais do que qualquer resposta. Os olhos arregalados, marejados, me encaravam como se eu tivesse perdido a razão.
— Casar? Por quê, Dante? — a voz dela tremeu.
— Porque no meu mundo, um herdeiro só é reconhecido se nascer dentro de um casamento. Senão, ele será visto como um bastardo, um erro. Eu não vou permitir que meu filho seja tratado assim. Eu não vou permitir que toquem nele. — Olhei diretamente em seus olhos, duro. — Tens duas semanas para te preparar.
Ela balançou a cabeça, desesperada.
— Eu não quero isso. Eu não quero tua casa, teu dinheiro, teu casamento. Eu só quero uma vida normal. Só quero que o Lion cresça em paz, sem violência, sem armas, sem máfia.
Aquela palavra — nosso filho — escapou da minha boca sem que eu percebesse. E quando me dei conta, ela já chorava.
Apertei os dentes. A raiva e a dor se misturavam dentro de mim.
— Cecília, escuta. O momento que escolheste esconder ele de mim, roubaste qualquer chance dele ter uma vida normal. O Lion nasceu filho do meu sangue. Do Don da Camorra. Ele não vai poder escapar disso. E se tivesse caído nas mãos de outros antes de mim, vocês já estariam mortos.
Ela tapou o rosto com as mãos, soluçando.
— Eu não sirvo para o teu mundo, Dante. Eu não tenho lugar na tua vida. Você nem gosta de mim...
Meu corpo inteiro se retesou.
— Não gosto de ti? — Minha voz saiu baixa, carregada. — Se eu não gostasse, teria te deixado naquela praia dois anos atrás, como mais uma lembrança de verão. Mas eu procurei por ti, Cecília. Eu enlouqueci atrás de ti. E tu fingiste que não me conhecias. Tu me escondeste o meu filho.**
Ela se calou, a respiração acelerada. E eu finalizei, sem espaço para réplica:
— Chega. A partir de agora és a minha mulher. Vais viver comigo. Daqui a dois dias, vou trazer meus pais. Vou lhes apresentar meu herdeiro. E se não gostares, azar. Não há volta, Cecília. Não há escolha.
Ela tentou argumentar, balbuciando medos sobre a criança, sobre o futuro, sobre a violência que rondava a minha vida.
Eu me inclinei sobre ela, sem quebrar o contato visual.
— Nosso filho é meu herdeiro. Ele vai aprender a se defender. Porque no meu mundo, só existem duas opções: matar ou morrer.
Ela se encolheu no sofá, chorando baixinho.
Foi nesse momento que meu peito se apertou. Eu a puxei contra mim, apesar da resistência, e a abracei forte.
— Não chores, Cecília. Eu vou proteger vocês. Vou dar a minha vida se for preciso. Enquanto eu respirar, ninguém toca em ti nem no nosso filho.
Ela ergueu os olhos para mim, cheios de dor.
— Eu não quero a tua vida em troca da nossa, Dante. Eu só quero viver tranquila... Eu não quero esse destino para o Lion.
Fechei os olhos, respirei fundo, e voltei a usar a máscara que sempre me salvou.
— Então escolhe. Ou casas comigo e crias nosso filho ao meu lado... Ou não casas comigo e ele será criado por outra mulher que eu tiver que tornar minha esposa. Porque, Cecília, eu sou o Don. E o meu herdeiro precisa de uma rainha.
Agora, só me restava esperar pela resposta dela.