Pré-visualização gratuita 1- HELENA
LIvro recomendado para maiores de 18 anos, conteúdo explícito!!!
Livro escrito em atualização diária, sendo a obra concluída com a publicação do último capítulo e a sinalização de completo pela plataforma.
Um pouco sobre a autora:
Bruna Mattos, casada,
mãe e batalhando para o crescimento da filha mais nova TEA 2. Minha carreira sempre foi focada em romances e os que meu público mais gostam, são no universo de morro.
Avisos importantes:
Como o universo é morro, traficantes, a linguagem utilizada não é na maioria das vezes o português escrito no dicionário. Mas sim o português falado no dia a dia com suas abreviações de palavras e gírias. Algumas palavras são censuradas pela plataforma, então aparece a primeira letra e ** mais a última letra, exemplo, s**o, seio, quando a autora lembra, ela pode usar o trema sëio e você terá a palavra escrita com uma acentuação não pertinente.
Temos uma janela de publicação curta pois conta o horário dá plataforma em Singapura, para termos nossas metas diárias completas, de forma que fazer uma revisão ortográfica antes de publicar, para mim que escrevo em
média 4 livros ao mesmo tempo é impraticável. Caso tenham alguma dúvida, ou não entendam algo escrito, podem sinalizar nos comentários do capítulo que eu terei todo carinho do mundo em
esclarecer.
Eu não escrevo insentivando violência doméstica nem tão pouco cenas de estüpro.
Espero que gostem de ler um romance diferente que se passa em algum dos muitos morros do Brasil! Lembrando que eu nunca fui em um morro. Então tudo que eu escrevo é fruto da minha imaginação e pura ficção.
Livro registrado e com direitos reservados.
CAPÍTULO 1
HELENA VASQUES NARRANDO:
Eu sorria.
De verdade.
Sentada naquelas cadeiras duras do auditório, com a beca pesada sobre os ombros e o capelo ameaçando escorregar a qualquer movimento, eu sorria como se o mundo fosse exatamente o lugar seguro que sempre tentei fingir que era.
Quando meu nome ecoou pelos alto-falantes.
— Helena Vasques.
Senti o coração disparar no peito. Levantei-me sob aplausos, passos firmes, postura ereta. Anos de disciplina não se perdem no momento mais importante da vida.
Atravessei o palco com a cabeça erguida.
Recém-formada em Direito.
Meu sonho.
Minha promessa.
Procurei minha mãe na plateia antes mesmo de receber o diploma. Eu sempre fazia isso. Desde criança, precisava confirmar se ela estava ali, se ainda era real, se não tinha desaparecido como tantas coisas na minha vida.
Ela estava na terceira fileira, usando um vestido azul simples, elegante do jeito que só ela sabia ser. Os olhos marejados, as mãos batendo palmas com orgulho contido, como se tivesse medo de chamar atenção demais para si.
Quando nossos olhares se encontraram, foi impossível segurar.
Sorri mais forte.
Ela levou a mão ao peito, emocionada, e assentiu levemente, como se dissesse: você conseguiu.
E eu consegui.
Contra tudo.
Contra o passado.
Contra a dor.
Mas nem sempre foi assim.
Nem sempre existiram aplausos, diplomas ou sorrisos.
Houve um tempo em que tudo o que eu tinha era chuva, silêncio e um caixão descendo lentamente para dentro da terra.
Eu tinha doze anos.
E naquele dia, enterrei meu pai.
A lembrança me atravessa sem pedir permissão, como sempre acontece quando estou feliz demais. É quase c***l. Como se minha mente não me permitisse esquecer quem eu sou de verdade.
O céu estava cinza. Não um cinza bonito, de fotografia antiga. Era pesado, baixo, opressor. A chuva caía sem piedade, encharcando a grama do cemitério e grudando meu vestido preto fino ao corpo magro demais para aquela idade.
Eu odiava aquele vestido.
Odiava o tecido áspero.
Odiava a cor.
Odiava o fato de estar ali.
O caixão estava à minha frente, fechado.
Disseram que era melhor assim. Que eu não precisava vê-lo daquele jeito. Como se o que estava acontecendo já não fosse horrível o suficiente.
Minha mãe segurava minha mão com força. Forte demais. Os dedos tremiam, frios, como se toda a vida tivesse sido drenada dela junto com a morte do homem que amava.
Ela não chorava.
Isso foi o que mais me assustou.
As pessoas choravam por ela. Cochichavam palavras que eu não conseguia ouvir direito.
— Que tragédia.
— tão jovem.
— um herói.
— morreu em serviço.
Herói.
Aquela palavra parecia errada. Meu pai não era um herói. Ele era só… meu pai.
O homem que me ensinou a andar de bicicleta.
Que fazia panquecas aos domingos.
Que me chamava de Leninha quando queria me convencer de alguma coisa.
O homem que prometeu que sempre voltaria para casa.
O padre falava alguma coisa sobre descanso eterno, mas eu não conseguia ouvir. O som da chuva batendo no guarda-chuva preto parecia mais alto. Tudo parecia distante, como se eu estivesse dentro de um vidro grosso, observando a cena de fora.
Quando chegou a hora, alguém colocou uma flor branca nas minhas mãos.
Uma rosa.
Eu encarei aquela flor como se ela fosse um objeto estranho. Minhas mãos tremiam tanto que quase a deixei cair. Dei alguns passos à frente, sentindo o barro afundar sob meus sapatos.
Olhei para o caixão.
Ali dentro estava o meu pai.
Ou o que restou dele.
Senti um nó se formar na garganta, um aperto tão forte no peito que achei que fosse cair ali mesmo. As lágrimas vieram sem pedir permissão, quentes, misturando-se à chuva fria que escorria pelo meu rosto.
— Adeus, papai — sussurrei, com a voz falhando.
Joguei a flor.
Ela caiu sobre a madeira com um som seco, definitivo.
Naquele momento, algo dentro de mim morreu junto com ele.
Mas algo também nasceu.
Uma raiva silenciosa.
Um vazio que nunca mais seria preenchido.
E uma promessa.
Meu pai era policial.
Um policial infiltrado.
Foi isso que me disseram dias depois, quando minha mãe achou que eu já estava dormindo e começou a chorar sozinha na cozinha. Eu ouvi tudo escondida no corredor, com o coração batendo tão forte que achei que ela fosse ouvir.
Ele estava infiltrado no Morro do Luar.
Descobriram.
E não lhe deram chance alguma.
A palavra “execução” ecoou na minha cabeça como um tiro.
Executado.
Meu pai não morreu.
Ele foi assassinado.
E ninguém nunca pagou por isso.
Depois do enterro, nossa vida virou uma sucessão de caixas, despedidas apressadas e silêncios. Minha mãe me tirou do Rio de Janeiro como quem foge de um incêndio. Interior de São Paulo. Outra cidade. Outra escola. Outra versão de nós duas.
Ela tentou apagar tudo.
Fotos guardadas.
Histórias evitadas.
O nome dele raramente pronunciado.
Ela queria me proteger.
Mas o que ela fez foi me ensinar a sobreviver.
Eu cresci aprendendo que sentimentos eram perigosos. Que apego era uma fraqueza. Que a vida podia arrancar tudo de você sem aviso.
Enquanto outras meninas sonhavam com vestidos de festa e romances impossíveis, eu sonhava com justiça.
Com respostas.
Com um nome.
Eu estudava enquanto todos dormiam. Criava regras para mim mesma. Horários rígidos. Notas impecáveis. Nenhuma distração. Nenhuma brecha.
Quando escolhi Direito, minha mãe tentou disfarçar o medo.
— Você tem certeza, Helena?
Eu tinha.
Sempre tive.
Cada livro lido, cada prova feita, cada noite em claro tinha um único objetivo: entender o sistema que falhou com o meu pai. Conhecer as leis que não o protegeram. Aprender como derrubar monstros usando as próprias regras deles.
Eu prometi a mim mesma, ainda com doze anos, em frente àquele caixão encharcado de chuva:
Quando eu me formar, vou descobrir quem matou meu pai.
Vou olhar essa pessoa nos olhos.
E vou colocá-la atrás das grades.
Nem que isso custasse tudo.
Nem que eu tivesse que abrir mão de quem eu sou.
No palco da formatura, enquanto recebia o diploma das mãos do coordenador, senti o peso daquela promessa pousar novamente sobre meus ombros.
Os aplausos ecoavam.
Minha mãe chorava.
Eu sorria.
Mas por dentro, a menina de doze anos ainda estava lá. Com o vestido preto colado ao corpo, os pés sujos de barro e o coração despedaçado.
E ela ainda esperava justiça.
Esse diploma não era um fim.
Era apenas o começo.
E, muito em breve, eu iria cobrar tudo o que o passado me devia.
Continua.....