2- RAEL

1381 Palavras
CAPÍTULO 2 RAEL NARRANDO: Meu nome é Rael Carvalho. Aqui no Morro do Luar, nome não é o que importa. O que importa é o que ele carrega. E o meu carrega peso, história e medo suficiente para manter tudo no lugar. Tenho vinte e seis anos. Pouco, dizem. Jovem demais para comandar um morro inteiro, sussurram. Mas quem diz isso não sabe o que é crescer aprendendo que a vida não espera ninguém amadurecer. O Luar foi minha escola. A violência, minha língua materna. O silêncio, minha proteção. Minha mãe morreu no parto. Nunca tive rosto, cheiro ou lembrança dela. Só uma história repetida tantas vezes que virou verdade absoluta: ela morreu para que eu vivesse. Cresci ouvindo isso como quem cresce ouvindo que o céu é azul. Não questionava. Não sentia. Sentimento nunca foi uma opção. Quem me criou foi o morro. E quem me moldou foi meu pai. Senhor Berne, como todos chamavam ele. Ele era o dono antes de mim. O dono do Luar. O homem que fazia até os mais corajosos pensarem duas vezes antes de levantar a voz. Ele não precisava gritar. Nunca precisou. Bastava olhar. Desde pequeno, eu o acompanhava. Não por escolha. Por destino. Enquanto outras crianças jogavam bola na rua, eu aprendia a identificar o som de tiro. Aprendia a correr sem olhar para trás. Aprendia que confiança é uma moeda rara e que fraqueza custa caro. Meu pai dizia que eu tinha sido feito para aquilo. — Você nasceu aqui, Rael — ele falava, a mão pesada sobre meu ombro. — E quem nasce aqui já nasce sabendo, ou manda, ou é mandado. Eu nunca fui mandado. Entrei para o crime cedo demais para alguém que quisesse outra vida. Mas outra vida nunca foi uma possibilidade real. Primeiro, pequenos serviços. Depois, recados. Olheiro. Soldado. Cada passo observado, cada erro corrigido com dureza. Eu aprendia rápido. Nunca fui explosivo. Nunca precisei provar nada para ninguém. Enquanto outros se perdiam no ego, eu observava. Enquanto gritavam, eu calculava. Meu pai percebeu isso cedo. — Frio — ele dizia. — Você é frio. Isso é bom. Frio sobrevive. E eu sobrevivi. Durante anos, caminhei à sombra dele, absorvendo tudo. Como comandava. Como punia. Como negociava. Como mantinha o morro em equilíbrio. Porque não se trata só de mandar. Trata-se de manter tudo funcionando sem chamar atenção demais. Há três anos, tudo mudou. A polícia subiu o morro numa madrugada pesada. Helicóptero cortando o céu, sirene gritando, tiro ecoando pelas vielas. Uma invasão grande. Daquelas feitas para mostrar força. Meu pai já não tinha a mesma idade, nem o mesmo fôlego. Mesmo assim, desceu. Disse que ninguém pisaria no Luar sem passar por ele. O coração não aguentou. Infarto. Foi assim que o Senhor Berne caiu. Quando me avisaram, eu não chorei. Não gritei. Não quebrei nada. Apenas senti o peso cair sobre mim como uma sentença antiga, já escrita. O morro precisava de alguém no comando. E esse alguém era eu. Assumir não foi fácil. Nunca é. O vácuo de poder atrai tudo que é tipo de gente. Gente achando que podia me testar. Que podia tomar o que não era deles. Eles aprenderam rápido. Aqui, não existe segunda chance para quem confunde juventude com fraqueza. Desde o dia em que meu pai morreu, eu comando tudo. Cada entrada. Cada saída. Cada acordo. Cada punição. O Luar respira no meu ritmo. Meu sub é meu primo mais velho, Fernando, conhecido como Dodô. Nós nunca fomos próximos. Dodô sempre teve ambição demais e disciplina de menos. Cresceu ao lado do meu pai e acha que isso lhe dava algum direito sobre o trono. Ele gosta de aparecer, de impor presença, de ser temido pelo barulho. Eu não. Mas Dodô faz o papel dele. Cuida da rua, da linha de frente, do que precisa ser feito fora da vista direta. Eu cuido de tudo. Da estratégia. Do controle. Nós não nos gostamos. Mas nos respeitamos o suficiente para não atrapalhar o trabalho um do outro. Aqui, ninguém cruza território sem permissão. Nem mesmo sangue do mesmo sangue. Uma das primeiras decisões que tomei como dono foi a boate. Ela fica no ponto mais alto do morro. Não por acaso. Nada no Luar é colocado sem motivo. De lá, eu vejo tudo. O morro inteiro aos meus pés e a tudo lá embaixo fingindo que não depende daqui. A boate não é só diversão. É filtro. É informação. É dinheiro girando sem levantar suspeita. Música alta distrai. Bebida solta língua. Corpo exposto faz gente esquecer quem realmente é. Eu observo tudo. Meu camarote fica elevado, protegido pelas sombras. Não preciso descer para ser visto. Quem manda de verdade não precisa circular. Precisa enxergar. As regras são simples. Respeito às meninas. Sem confusão desnecessária. Sem chamar atenção errada. Quem quebra regra não volta. A boate funciona porque as pessoas se sentem seguras e ameaçadas ao mesmo tempo. É esse equilíbrio que mantém tudo de pé. Gente demais acha que poder é gritar. Poder é controlar. O morro me respeita porque sabe que eu não ajo por impulso. Cada decisão é calculada. Cada ordem tem consequência. Não prometo nada que não possa cumprir. Sou frio. Sou calculista. Sou perigoso. E continuo intocável porque nunca dou espaço para erro. Às vezes, caminho sozinho pelo alto do Luar, sentindo o vento bater no rosto, lembrando do menino que cresceu aqui sem escolha. Do pai que me moldou como uma arma. Da mãe que nunca conheci. Não sinto culpa. Culpa é luxo de quem teve opção. Eu sou o resultado exato do lugar onde nasci. O Morro do Luar não me fez Rei. Ele apenas reconheceu o que eu sempre fui. E enquanto eu respirar, tudo aqui continuará exatamente onde deve estar. O poder não dorme. Aprendi isso cedo. Enquanto o morro silencia, achando que a noite acabou, minha cabeça continua funcionando. A madrugada é o horário mais perigoso. É quando os erros acontecem. Quando alguém bebe demais, fala demais, confia demais. E confiança mata. Caminho pelo corredor estreito que leva ao fundo da boate, longe da música e das luzes vermelhas. Ali, o som muda. Fica mais seco. Mais real. O cheiro de bebida dá lugar ao de concreto úmido e ferro. Dois homens fazem a segurança da porta. Não me perguntam nada. Nunca perguntam. Um aceno de cabeça é suficiente. Lá dentro, o silêncio pesa. É ali que as decisões são tomadas. Onde ninguém vê. Onde não existe palco, só consequência. Meu pai dizia que o erro de muitos líderes é misturar espetáculo com comando. Eu nunca cometi esse erro. Sento na cadeira de madeira, apoiando os cotovelos nos joelhos. Penso no morro como um organismo vivo. Cada viela é uma veia. Cada casa, uma célula. Se algo infecciona, precisa ser cortado antes que espalhe. É simples. Difícil é manter a simplicidade quando todo mundo ao redor tenta complicar. Fernando aparece pouco depois. Ele nunca entra em silêncio. O jeito dele ocupa espaço antes mesmo do corpo. — Movimento hoje foi bom — ele diz, como se estivesse me prestando um favor. — Sempre é — respondo, sem levantar o olhar. Ele se aproxima, encosta na mesa, cruza os braços. Sei que ele quer mais do que uma conversa operacional. Quer validação. Reconhecimento. Nunca vai ter. — Tem gente falando — ele começa. Sempre tem. — Aqui sempre tem gente falando — digo. — O que importa é quem age. Dodô aperta o maxilar. O ego dele sempre reage antes da razão. — A polícia anda rondando mais no asfalto próximo ao morro. — Eles sempre rondam. — Não desse jeito. Levanto o olhar, finalmente. Não por preocupação. Por cálculo. — Então a gente ajusta — digo. — Sem pânico. Sem barulho. Ele suspira, frustrado. — Às vezes eu acho que você confia demais nesse controle todo. — E eu acho que você confia demais na força — respondo. — Cada um com seus defeitos. Silêncio. Ele sabe que não vai vencer esse jogo comigo. Nunca venceu. Nunca vai. — Continua do jeito que tá — finalizo. — Se alguém atravessar a linha, você me avisa. Antes de agir. Dodô assente, contrariado. Ele sai, e o silêncio volta a ocupar o espaço. É nesse silêncio que eu existo melhor. Continua.....
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