3- HELENA

1159 Palavras
CAPÍTULO 3 HELENA NARRANDO: O zíper da mala fez um som alto demais para um quarto tão silencioso. Parei com a mão ainda segurando o cursor e respirei fundo, como se aquilo fosse me dar coragem para continuar. Minhas roupas estavam dobradas em pilhas organizadas: camisetas neutras, calças jeans, um vestido simples, roupas íntimas, um casaco que eu provavelmente não usaria no calor do Rio, mas que coloquei mesmo assim. Organização sempre foi minha forma de controle. Quando tudo fora de mim parecia prestes a desmoronar, eu alinhava gavetas, empilhava livros, dobrava roupas. Como se isso pudesse impedir o caos. O quarto onde eu cresci parecia menor do que nunca. As paredes bege, a escrivaninha encostada no canto, a estante com meus livros de Direito e algumas fotos antigas que minha mãe nunca teve coragem de tirar. Em uma delas, eu ainda era criança, sentada nos ombros do meu pai, rindo para a câmera. Meu peito apertou. Não agora, Helena. Não agora. Empurrei mais uma blusa para dentro da mala e tentei fechar. Não fechou. Suspirei, tirei uma calça e dobrei melhor. Quando finalmente consegui fechar, senti uma pontada estranha no estômago. Aquilo era real. Eu estava indo embora. — Você ainda pode desistir — a voz da minha mãe soou da porta. Eu nem tinha ouvido ela chegar. Virei devagar. Ela estava ali, com os braços cruzados, o cabelo preso de qualquer jeito e os olhos vermelhos. Usava um moletom velho que era dois números maior, como se quisesse se esconder dentro dele. — Mãe… — murmurei. — Ainda dá tempo — ela insistiu, entrando no quarto. — Você pode desfazer essa mala agora mesmo. Pode sentar comigo na cozinha. A gente faz um café. Conversa. Finge que isso tudo nunca aconteceu. Balancei a cabeça. — Não posso. Ela riu sem humor. — Claro que pode. Você só não quer. Fechei a mala com mais força do que precisava e me levantei. — Mãe, eu estudei para isso. Ela fechou os olhos por um segundo, como se aquela frase fosse um tapa. — Não — ela disse, a voz embargada. — Você estudou para ser advogada. Para ter uma vida normal. Para sair dessa história. — Eu estudei para vingar a morte do meu pai — respondi, firme. O silêncio caiu pesado entre nós. O nome dele sempre fazia isso. Minha mãe levou a mão ao peito, como se estivesse sem ar. — Não fala assim — ela pediu. — Vingança não traz ninguém de volta. — Eu sei — respondi. — Mas justiça talvez traga. Ela se aproximou, segurou meu rosto com as duas mãos, os olhos marejados me encarando como se tentasse memorizar cada detalhe. — Helena, você não sabe no que está se metendo. — Eu sei exatamente. — Não, você não sabe — ela retrucou, a voz falhando. — O Rio não é esse lugar romântico que você acha. Aquele morro… aquele mundo… ele matou o seu pai. Ele vai matar você também. Engoli em seco. — Eu não vou morrer. — Ele também disse isso — ela sussurrou. Aquilo doeu mais do que qualquer grito. Abaixei os olhos por um instante, sentindo o peso de tudo o que eu estava fazendo. Mas quando ergui de novo, a decisão ainda estava lá, sólida, imutável. — Mãe… eu não consigo mais fingir que está tudo bem. Eu não consigo mais viver como se aquilo nunca tivesse acontecido. Cada dia aqui é como se eu estivesse traindo a memória dele. Ela começou a chorar de vez. — Eu já perdi o seu pai — ela disse, soluçando. — Eu não posso perder você também. Meu coração se partiu em dois. Abracei ela, envolvendo seu corpo com os braços, sentindo como ela estava mais magra do que eu lembrava, mais frágil. — A senhora não vai me perder — murmurei no cabelo dela. — Eu prometo que vou me cuidar. — Promessas não param bala, Helena. — Mas param decisões impulsivas — respondi. — Eu não estou indo sem pensar. Eu planejei isso por anos. Ela se afastou um pouco, enxugando as lágrimas. — Então nada do que eu disser vai mudar isso? Balancei a cabeça, em silêncio. Ela soltou um riso triste. — Você sempre foi igual ao seu pai. Quando colocava uma coisa na cabeça, ninguém tirava. — Eu puxei o melhor dele — murmurei. Ela assentiu devagar. — Vai tomar cuidado? — Vou. — Vai me ligar todos os dias? — Todos. — Vai fugir se sentir que está perigoso demais? Hesitei. Ela percebeu. — Helena… — Eu vou tentar — respondi, sincera. Ela respirou fundo, derrotada. — Então vem cá. Me puxou para mais um abraço apertado, desesperado, como se quisesse me fundir ao corpo dela para eu não conseguir ir embora. — Eu te amo, mãe. — Eu também te amo, minha filha. Peguei a mala, a mochila e fui até a porta. Antes de sair do quarto, olhei mais uma vez para tudo. Para minha cama. Para minha estante. Para a foto do meu pai. — Eu volto — sussurrei. A casa parecia diferente quando atravessei o corredor. Mais vazia. Mais fria. Na porta, minha mãe segurou minhas mãos. — Se cuida, Helena — ela disse. — Porque eu não sobreviveria a perder você como perdi ele. Engoli o choro. — Eu volto para a senhora. Eu prometo. Beijei a testa dela e saí antes que perdesse a coragem. A rodoviária estava cheia, barulhenta, viva demais para o estado em que eu estava. Pessoas se despedindo, crianças chorando, malas sendo arrastadas pelo chão. Comprei minha passagem, esperei o ônibus anunciar. Quando chamaram o embarque para o Rio de Janeiro, senti um frio na barriga que nunca tinha sentido antes. Entrei. Escolhi a poltrona da janela. Quando o ônibus começou a se mover, olhei para fora, vendo minha cidade ficando para trás. Adeus, vida antiga. Adeus, normalidade. Adeus, Helena que só sonhava. Horas depois, acordei com o sol batendo no vidro. Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa. Era linda. Caótica. Barulhenta. Intimidadora. Desci do ônibus com a mala na mão e um peso novo no peito. Peguei um táxi barato e pedi para me levar a uma pensão simples que eu tinha achado na internet. Um prédio antigo, com fachada descascada e uma placa torta. O quarto era pequeno, mas limpo. Uma cama de solteiro, uma cômoda, um ventilador barulhento. Era perfeito. Deixei as malas no canto, sentei na cama e respirei fundo. Eu estava no Rio. Eu estava perto. Peguei o celular com as mãos trêmulas e disquei o número que eu sabia de cor desde criança. Chamou duas vezes. — Delegado Alcides — a voz dele atendeu. — Tio… cheguei no Rio de Janeiro — falei. Silêncio. — Como assim chegou no Rio de Janeiro? — ele perguntou, a voz tensa. Meu coração disparou. — Eu preciso te encontrar. E a linha ficou muda por um segundo longo demais... Continua.....
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR