4- HELENA

1227 Palavras
CAPÍTULO 4 HELENA NARRANDO: — Como assim me encontrar? — a voz de Alcides soou mais baixa agora, mais cautelosa. — Helena, você não podia simplesmente… aparecer no Rio. Segurei o celular com mais força. — Eu já apareci — respondi. — Eu estou aqui. E eu vim vingar a morte do meu pai. Vim colocar o verdadeiro culpado na cadeia. Do outro lado da linha, ele demorou a responder. Quando respondeu, gaguejou. — H-Helena… isso… isso não é brincadeira. Você não sabe do que está falando. — Eu sei exatamente do que estou falando — retruquei. — Eu esperei treze anos por isso. Silêncio. — Você precisa vir até a delegacia — ele disse, por fim. — Isso não é conversa pra telefone. — Me passa o endereço. Houve outra pausa. — Helena… — Tio, por favor. Ele suspirou pesado. — Anota aí… Desliguei assim que ele terminou de falar. Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta. Levantei da cama da pensão e comecei a andar de um lado para o outro, tentando organizar os pensamentos. A adrenalina misturava com medo, excitação, raiva. Tudo junto. Peguei minha bolsa, conferi se o celular estava carregado, respirei fundo e chamei um Uber. Enquanto esperava, fiquei olhando para o teto manchado do quarto pequeno. Era isso. Não tinha mais volta. Quando o carro chegou, desci correndo as escadas e entrei no banco de trás. — Delegacia da Polícia Civil, na Rua… — o motorista falou o endereço. — Isso mesmo. — Confirmei. O motorista assentiu e arrancou. O trânsito do Rio era um caos. Buzinas, motos passando entre os carros, gente atravessando fora da faixa. Eu observava tudo pela janela, tentando não demonstrar o turbilhão dentro de mim. Cada quarteirão parecia um passo mais perto do passado que eu tinha enterrado à força. Quando finalmente chegamos, paguei a corrida com as mãos trêmulas e desci. O prédio da delegacia era antigo, com paredes descascadas e janelas altas. Um lugar que cheirava a papel velho, café frio e histórias m*l resolvidas. Entrei. — Boa tarde — falei para a atendente. — Eu preciso falar com o delegado Alcides Braga. Ela me olhou de cima a baixo. — Tem horário marcado? — Ele está me esperando. Ela digitou algo no computador, fez uma ligação rápida e depois apontou para o corredor. — Sala 12, no final do corredor à esquerda. Meu estômago revirou. Caminhei devagar pelo corredor estreito, sentindo o barulho distante de telefones tocando, vozes alteradas, passos apressados. Parei em frente à porta com a plaquinha: Delegado Alcides Braga. Bati. — Entra — a voz dele veio abafada. Abri a porta. Ele estava atrás da mesa, com óculos na ponta do nariz, lendo um relatório. Cabelos mais brancos, rosto mais cansado do que na última lembrança que eu tinha dele. Levantei a mão, sem saber exatamente o que fazer. — Oi, tio. Ele ergueu o olhar. Ficou alguns segundos em silêncio, me analisando. — Posso ajudar? — perguntou. Meu coração afundou. — Sou eu… Helena. Ele arregalou os olhos. Levantou-se de repente, derrubando a cadeira para trás. — Helena? Aproximou-se devagar, como se eu fosse um fantasma. — Meu Deus… como você cresceu. Ele me abraçou forte, cheiro de café e papel velho. — Você está… você está uma mulher agora. — O tempo passa — respondi, tentando sorrir. Sentamos. Ele ficou me encarando como se estivesse tentando encaixar a criança que ele conhecia na mulher à sua frente. — Sua mãe sabe que você está aqui? Balancei a cabeça. — Não exatamente, com esses detalhes. Ele suspirou. — Eu devia imaginar. Ficamos alguns segundos em silêncio constrangedor. — Seu pai ia ficar orgulhoso de você — ele disse, por fim. — Sempre falava que você era a mais teimosa da família. Sorri de leve. — Eu herdei isso dele. Ele encostou na cadeira, cruzando os braços. — Seu pai era um dos melhores policiais que eu já conheci — começou. — Corajoso demais pro próprio bem. Teimoso demais também. Meu peito apertou. — Ele salvou minha vida numa operação em São Gonçalo — Alcides continuou. — Levou um tiro de raspão no braço, mas nem reclamou. Disse que tinha prometido pra filha que ia voltar pra casa. Fechei os olhos por um instante. — Ele sempre voltava — murmurei. — Até o dia em que não voltou. O silêncio ficou pesado. — Ele se infiltrou no Morro do Luar — Alcides disse. — Contra a recomendação de todo mundo. A gente sabia que era perigoso demais. Mas ele insistiu. Disse que era a chance de derrubar o Berne. Meu coração disparou. — Berne — repeti. — O dono do morro naquela época — Alcides confirmou. — Um dos traficantes mais violentos que eu já vi. Inteligente. Frio. Implacável. — Foi ele que matou meu pai? — perguntei, com a voz baixa. Alcides respirou fundo. — Foi o que sempre acreditamos. Seu pai foi descoberto. Pegaram ele no alto do morro. Não deram chance. Executaram. Meu corpo inteiro tremeu. — Então é isso — sussurrei. — Eu vim pra isso. Pra colocar esse homem na cadeia. Alcides baixou o olhar. — Helena… — Eu quero sua ajuda. Ele fechou os olhos por um instante. — Você não vai gostar do que eu vou te dizer. — Fala. — O Berne morreu há três anos. Meu mundo parou. — Como assim… morreu? — Infarto — ele respondeu. — Durante uma invasão da polícia no morro. Senti um vazio enorme se abrir dentro de mim. — Então acabou? — murmurei. — Não exatamente — ele disse. — O filho dele assumiu o morro. Meu estômago gelou. — Filho? — Rael Carvalho — Alcides continuou. — Frio, calculista. Pior que o pai em muitos aspectos. Ele comanda tudo agora. Meu coração voltou a bater forte. — Então eu ainda tenho um alvo. — Não, Helena — ele disse, firme. — Você não tem. Levantei da cadeira. — Eu não esperei treze anos pra ouvir isso. — Helena, presta atenção em mim — ele se levantou também. — O Berne morreu. O responsável direto já não está mais aqui. Isso acabou. — Não acabou pra mim — retruquei. — O filho não tem nada a ver com isso. — Ele herdou o morro. Herdou o poder. Herdou o sangue — respondi. — Ele continua o mesmo sistema que matou meu pai. Alcides passou a mão pelo rosto. — Eu tenho uma policial infiltrada lá dentro — ele disse. — Na boate do morro. Ela está há meses coletando informação. Você não precisa se meter nisso. — Não é suficiente. — Helena, isso é suicídio. — Não pra mim. — Você vai morrer! — Então vai ser tentando. Ele me encarou, desesperado. — Sua mãe me mataria se soubesse que você está aqui e que você está pedindo a minha ajuda. — Ela não precisa saber. — Você não entende — ele insistiu. — Esse mundo não é como nos filmes. Não é justiça. É carnificina. — Eu não vou desistir. — Helena… — Eu vou atrás disso com ou sem sua ajuda — falei, firme. — Mas eu preferia não fazer isso sozinha. Ele ficou em silêncio. O tic-tac do relógio na parede parecia mais alto do que tudo. Levantei-me. — Então, tio… você vai me ajudar ou não? Continua.....
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