CAPÍTULO 4
HELENA NARRANDO:
— Como assim me encontrar? — a voz de Alcides soou mais baixa agora, mais cautelosa. — Helena, você não podia simplesmente… aparecer no Rio.
Segurei o celular com mais força.
— Eu já apareci — respondi. — Eu estou aqui. E eu vim vingar a morte do meu pai. Vim colocar o verdadeiro culpado na cadeia.
Do outro lado da linha, ele demorou a responder.
Quando respondeu, gaguejou.
— H-Helena… isso… isso não é brincadeira. Você não sabe do que está falando.
— Eu sei exatamente do que estou falando — retruquei. — Eu esperei treze anos por isso.
Silêncio.
— Você precisa vir até a delegacia — ele disse, por fim. — Isso não é conversa pra telefone.
— Me passa o endereço.
Houve outra pausa.
— Helena…
— Tio, por favor.
Ele suspirou pesado.
— Anota aí…
Desliguei assim que ele terminou de falar.
Meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela garganta.
Levantei da cama da pensão e comecei a andar de um lado para o outro, tentando organizar os pensamentos. A adrenalina misturava com medo, excitação, raiva. Tudo junto.
Peguei minha bolsa, conferi se o celular estava carregado, respirei fundo e chamei um Uber.
Enquanto esperava, fiquei olhando para o teto manchado do quarto pequeno.
Era isso.
Não tinha mais volta.
Quando o carro chegou, desci correndo as escadas e entrei no banco de trás.
— Delegacia da Polícia Civil, na Rua… — o motorista falou o endereço.
— Isso mesmo. — Confirmei.
O motorista assentiu e arrancou.
O trânsito do Rio era um caos. Buzinas, motos passando entre os carros, gente atravessando fora da faixa. Eu observava tudo pela janela, tentando não demonstrar o turbilhão dentro de mim.
Cada quarteirão parecia um passo mais perto do passado que eu tinha enterrado à força.
Quando finalmente chegamos, paguei a corrida com as mãos trêmulas e desci.
O prédio da delegacia era antigo, com paredes descascadas e janelas altas. Um lugar que cheirava a papel velho, café frio e histórias m*l resolvidas.
Entrei.
— Boa tarde — falei para a atendente. — Eu preciso falar com o delegado Alcides Braga.
Ela me olhou de cima a baixo.
— Tem horário marcado?
— Ele está me esperando.
Ela digitou algo no computador, fez uma ligação rápida e depois apontou para o corredor.
— Sala 12, no final do corredor à esquerda.
Meu estômago revirou.
Caminhei devagar pelo corredor estreito, sentindo o barulho distante de telefones tocando, vozes alteradas, passos apressados.
Parei em frente à porta com a plaquinha: Delegado Alcides Braga.
Bati.
— Entra — a voz dele veio abafada.
Abri a porta.
Ele estava atrás da mesa, com óculos na ponta do nariz, lendo um relatório. Cabelos mais brancos, rosto mais cansado do que na última lembrança que eu tinha dele.
Levantei a mão, sem saber exatamente o que fazer.
— Oi, tio.
Ele ergueu o olhar.
Ficou alguns segundos em silêncio, me analisando.
— Posso ajudar? — perguntou.
Meu coração afundou.
— Sou eu… Helena.
Ele arregalou os olhos.
Levantou-se de repente, derrubando a cadeira para trás.
— Helena?
Aproximou-se devagar, como se eu fosse um fantasma.
— Meu Deus… como você cresceu.
Ele me abraçou forte, cheiro de café e papel velho.
— Você está… você está uma mulher agora.
— O tempo passa — respondi, tentando sorrir.
Sentamos.
Ele ficou me encarando como se estivesse tentando encaixar a criança que ele conhecia na mulher à sua frente.
— Sua mãe sabe que você está aqui?
Balancei a cabeça.
— Não exatamente, com esses detalhes.
Ele suspirou.
— Eu devia imaginar.
Ficamos alguns segundos em silêncio constrangedor.
— Seu pai ia ficar orgulhoso de você — ele disse, por fim. — Sempre falava que você era a mais teimosa da família.
Sorri de leve.
— Eu herdei isso dele.
Ele encostou na cadeira, cruzando os braços.
— Seu pai era um dos melhores policiais que eu já conheci — começou. — Corajoso demais pro próprio bem. Teimoso demais também.
Meu peito apertou.
— Ele salvou minha vida numa operação em São Gonçalo — Alcides continuou. — Levou um tiro de raspão no braço, mas nem reclamou. Disse que tinha prometido pra filha que ia voltar pra casa.
Fechei os olhos por um instante.
— Ele sempre voltava — murmurei.
— Até o dia em que não voltou.
O silêncio ficou pesado.
— Ele se infiltrou no Morro do Luar — Alcides disse. — Contra a recomendação de todo mundo. A gente sabia que era perigoso demais. Mas ele insistiu. Disse que era a chance de derrubar o Berne.
Meu coração disparou.
— Berne — repeti.
— O dono do morro naquela época — Alcides confirmou. — Um dos traficantes mais violentos que eu já vi. Inteligente. Frio. Implacável.
— Foi ele que matou meu pai? — perguntei, com a voz baixa.
Alcides respirou fundo.
— Foi o que sempre acreditamos. Seu pai foi descoberto. Pegaram ele no alto do morro. Não deram chance. Executaram.
Meu corpo inteiro tremeu.
— Então é isso — sussurrei. — Eu vim pra isso. Pra colocar esse homem na cadeia.
Alcides baixou o olhar.
— Helena…
— Eu quero sua ajuda.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Você não vai gostar do que eu vou te dizer.
— Fala.
— O Berne morreu há três anos.
Meu mundo parou.
— Como assim… morreu?
— Infarto — ele respondeu. — Durante uma invasão da polícia no morro.
Senti um vazio enorme se abrir dentro de mim.
— Então acabou? — murmurei.
— Não exatamente — ele disse. — O filho dele assumiu o morro.
Meu estômago gelou.
— Filho?
— Rael Carvalho — Alcides continuou. — Frio, calculista. Pior que o pai em muitos aspectos. Ele comanda tudo agora.
Meu coração voltou a bater forte.
— Então eu ainda tenho um alvo.
— Não, Helena — ele disse, firme. — Você não tem.
Levantei da cadeira.
— Eu não esperei treze anos pra ouvir isso.
— Helena, presta atenção em mim — ele se levantou também. — O Berne morreu. O responsável direto já não está mais aqui. Isso acabou.
— Não acabou pra mim — retruquei.
— O filho não tem nada a ver com isso.
— Ele herdou o morro. Herdou o poder. Herdou o sangue — respondi. — Ele continua o mesmo sistema que matou meu pai.
Alcides passou a mão pelo rosto.
— Eu tenho uma policial infiltrada lá dentro — ele disse. — Na boate do morro. Ela está há meses coletando informação. Você não precisa se meter nisso.
— Não é suficiente.
— Helena, isso é suicídio.
— Não pra mim.
— Você vai morrer!
— Então vai ser tentando.
Ele me encarou, desesperado.
— Sua mãe me mataria se soubesse que você está aqui e que você está pedindo a minha ajuda.
— Ela não precisa saber.
— Você não entende — ele insistiu. — Esse mundo não é como nos filmes. Não é justiça. É carnificina.
— Eu não vou desistir.
— Helena…
— Eu vou atrás disso com ou sem sua ajuda — falei, firme. — Mas eu preferia não fazer isso sozinha.
Ele ficou em silêncio.
O tic-tac do relógio na parede parecia mais alto do que tudo.
Levantei-me.
— Então, tio… você vai me ajudar ou não?
Continua.....