CAPÍTULO 5
HELENA NARRANDO:
Alcides respirou fundo.
Mas não foi um suspiro qualquer.
Foi pesado. Carregado. Como se ele estivesse segurando o mundo inteiro dentro do peito.
— Helena… — ele começou, passando a mão pelo rosto. — Eu não posso te enfiar nisso.
Cruzei os braços.
— Eu já estou nisso desde o dia em que enterraram meu pai.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Você não faz ideia do inferno que é aquele lugar — disse. — Eu já perdi bons policiais lá dentro. Gente experiente. Treinada. E você… você é só uma menina que cresceu com um trauma.
Aquilo doeu mais do que eu esperava.
— Eu não sou só uma menina — respondi, com a voz firme. — Eu sou a filha de um policial assassinado. E eu não vou voltar atrás.
Ele abriu a boca para retrucar, mas eu não dei espaço.
— Eu não vim até o Rio pra desistir, eu vou fazer acontecer.
Ele me encarou, chocado.
— Você é louca.
— Eu escolhi isso — falei. — E não importa o que você diga, eu não vou embora.
O silêncio se estendeu entre nós.
Alcides se levantou, foi até a janela da sala e ficou olhando a rua lá embaixo.
— Seu pai também falava assim — murmurou. — Com esse mesmo olhar decidido. Essa mesma voz que não treme.
Meu peito apertou.
— E olha onde isso levou ele.
Engoli em seco.
— Levou ele a ser um homem que morreu tentando fazer a coisa certa.
Ele virou devagar para mim.
— Ou levou ele a deixar uma filha órfã.
Aquilo me atingiu em cheio.
Mas eu não abaixei a cabeça.
— Eu prefiro morrer tentando do que viver me escondendo — respondi.
Ele voltou para a mesa e se sentou, derrotado.
— Você é tão teimosa quanto ele.
— Eu sei.
Ele ficou alguns segundos em silêncio, depois falou:
— Se… — ele respirou fundo de novo — se eu te ajudar, vai ser do meu jeito.
Meu coração acelerou.
— Do seu jeito como?
— Com regras. Exigências. Limites. Se você quebrar qualquer um deles, você desiste e volta pra casa. Sem discussão.
— Que regras?
— Primeira: você não pisa no morro sem a minha autorização.
Assenti.
— Segunda: você não fala com absolutamente ninguém sobre isso. Nem sua mãe. Nem amigos. Nem ninguém.
— Eu concordo.
— Terceira: você vai passar por um preparo antes de qualquer aproximação. Eu não vou te jogar num covil de lobos sem te ensinar a sobreviver.
Engoli em seco.
— Tudo bem.
— Quarta: se em qualquer momento eu achar que você está em risco real, você desiste. Some do Rio. E isso não é negociável.
Meu peito apertou.
— Eu prometo.
Ele me encarou por alguns segundos, tentando decidir se podia confiar em mim.
— Você jura que, se eu disser para parar, você para?
Respirei fundo.
— Eu juro.
Mentira.
Mas eu precisava que ele acreditasse.
Ele passou a mão pelos cabelos grisalhos.
— Onde você está dormindo?
— Numa pensão barata aqui perto — respondi. — Duas quadras da Lapa.
O rosto dele se fechou.
— Aquilo não é lugar pra você.
— É o que eu posso pagar agora.
— Você não vai mais ficar lá — ele disse. — Pelo menos por enquanto. Eu vou arrumar um lugar mais seguro.
Meu coração apertou.
— Eu não quero te dar trabalho.
— Você já é trabalho desde que nasceu — ele respondeu, com um meio sorriso triste.
Levantei da cadeira.
— Então… eu aguardo seu contato?
Ele assentiu.
— Aguarda meu contato. E, até lá, você não faz absolutamente nada por conta própria. Nada.
— Eu prometo.
Ele veio até mim e segurou meus ombros.
— Helena… se eu pudesse, eu te mandava embora agora.
— Eu sei.
— E eu tô com medo de estar cometendo o mesmo erro que cometi com seu pai.
— A diferença é que agora você não está sozinho nisso — falei. — Agora eu sei onde estou me metendo.
Ele me puxou para um abraço forte.
— Você não devia estar carregando isso sozinha.
— Eu carrego isso desde quando ele morreu.
Nos soltamos.
— Se cuida — ele disse. — E não muda de número.
— Não vou mudar.
Abri a porta da sala.
— Tio?
— Oi.
— Obrigada… por não me mandar embora.
Ele deu um meio sorriso.
— Eu ainda posso mudar de ideia.
— Eu sei.
Saí da sala com o coração pesado, mas estranhamente mais leve ao mesmo tempo.
Desci as escadas da delegacia sentindo as pernas trêmulas.
Do lado de fora, o calor do Rio me envolveu como um tapa no rosto.
Parei na calçada e respirei fundo.
Era oficial.
Não tinha mais volta.
Levantei o braço e chamei um táxi.
— Praia mais próxima daqui — pedi ao motorista.
Ele assentiu e arrancou.
Durante o trajeto, fiquei olhando as ruas passarem pela janela.
Gente rindo. Casais andando de mãos dadas. Crianças correndo.
O mundo seguia normal enquanto o meu estava desmoronando por dentro.
Quando o táxi parou, paguei a corrida e desci.
A praia estava quase vazia. O céu começava a escurecer em tons de laranja e roxo.
Tirei os tênis.
Enterrei os pés na areia fria.
Comecei a caminhar devagar pela beira do mar.
O som das ondas era hipnotizante.
Respirei fundo.
Pai…
Fechei os olhos.
Eu estou aqui.
Eu vim até o Rio.
Eu prometi que ia te encontrar justiça. Lembra?
O vento bagunçou meu cabelo.
Eu sei que você não queria isso pra mim.
Eu sei que você queria que eu tivesse uma vida normal. Que eu casasse. Que tivesse filhos. Que esquecesse tudo isso.
Uma lágrima escorreu.
Mas eu não consegui esquecer.
Nunca consegui.
Olhei para o mar escuro.
Eles te mataram.
E ninguém pagou por isso.
Minha garganta fechou.
Eu tô com medo, pai.
Muito medo.
Mas eu tô indo mesmo assim.
Porque se eu não for… eu nunca mais vou conseguir respirar em paz.
As ondas molharam meus pés.
Eu vou até o fim.
Por você.
Por mim.
Por tudo o que tiraram da gente.
Passei a mão no rosto, limpando as lágrimas.
Fiquei ali parada, olhando o horizonte.
Esperando.
Esperando o telefone tocar.
Esperando o próximo passo...
Continua.....