6- HELENA

1368 Palavras
CAPÍTULO 6 HELENA NARRANDO: O telefone tocou às seis da manhã. O som atravessou o quarto da pensão como uma sirene de alerta, me arrancando de um sonho confuso onde eu caminhava pelo morro com meu pai ao meu lado. Demorei alguns segundos para entender onde eu estava. O teto manchado. A parede descascada. O cheiro de mofo. Rio de Janeiro. Meu coração disparou quando vi o nome no visor. Alcides. Atendi na primeira vibração. — Alô. — Helena, levanta agora — a voz dele saiu baixa, urgente. — Você precisa sair dessa pensão imediatamente. Sentei na cama, o corpo inteiro em alerta. — O que aconteceu? — Não faz perguntas. Só faz o que eu estou mandando. Arruma suas coisas em vinte minutos e desce. Um carro vai te buscar. — Mas… tio… — Helena — ele interrompeu, sério. — Esse lugar não é seguro. E você não tem ideia de quem pode estar te observando. Um frio percorreu minha espinha. — Alguém sabe que eu estou aqui? Houve um segundo de silêncio do outro lado da linha. Um segundo longo demais. — Não. Mas isso pode mudar rápido demais. Engoli em seco. — Tá bom… eu já estou descendo. Desliguei com a mão tremendo. Por alguns segundos fiquei sentada na cama, tentando controlar a respiração. Eu m*l tinha chegado no Rio. E já estava fugindo. Arrumei a mala às pressas, jogando roupas dentro sem dobrar, sem pensar. Cada barulho no corredor me fazia parar e prender a respiração. Quando desci, um carro preto estava parado em frente à pensão. Vidros escuros. Motor ligado. O motorista não disse uma palavra quando entrei. A cidade passava pela janela em silêncio. Quanto mais nos afastávamos do centro, mais meu estômago se contraía. — Para onde estamos indo? — perguntei. — Ordem do delegado — ele respondeu apenas. Quase quarenta minutos depois, o carro entrou numa rua discreta de um bairro afastado. Parou em frente a uma casa simples, com portão alto e sem nenhuma placa. O motorista abriu a porta. — É aqui. Desci com a mala na mão, o coração acelerado. Antes que eu pudesse bater, o portão se abriu sozinho. Alcides estava ali. Rosto cansado. Olhos atentos demais. — Entra rápido. Obedeci. Assim que o portão se fechou atrás de mim, ele respirou fundo. — A partir de agora, esse vai ser seu endereço. — Aqui? — Lugar emprestado de um amigo antigo. Seguro. Discreto. Ninguém liga esse endereço a você. Olhei ao redor. Casa pequena. Limpa. Mobiliada com o básico. — Tio… o que está acontecendo? Ele passou a mão pelo rosto. — Eu subestimei o quão rápido as coisas se mexem no Rio. Meu coração apertou. — Você disse que ninguém sabia… — Eu disse que ainda não sabiam. Silêncio. — Helena, a partir de hoje, seu treinamento começa. Meu corpo inteiro gelou. — Treinamento? Ele assentiu. — Você não vai entrar naquele morro sendo só uma advogada com raiva. Você precisa aprender a sobreviver lá dentro. Antes que eu pudesse responder, a porta da sala se abriu. Uma mulher entrou. Alta. Postura reta. Cabelos presos num coque firme. Olhos escuros, atentos, que pareciam medir cada centímetro de mim em segundos. — Essa é a inspetora Laura Mendes — Alcides disse. — Polícia civil. Quinze anos infiltrada em áreas de risco. Ela me analisou em silêncio. Dos pés à cabeça. Depois estendeu a mão. — Então você é a filha do Vasques. Apertei a mão dela. — Sou. — Você não parece alguém que sobreviveria uma semana no Morro do Luar. Aquilo doeu. Mas eu não desviei o olhar. — Eu vou aprender. Um canto de sorriso apareceu nos lábios dela. — Gosto disso. Alcides pigarreou. — Laura vai ser sua sombra nos próximos dias. Tudo o que você fizer, falar ou pensar vai passar por ela. — E você — ela completou — vai esquecer tudo o que aprendeu sobre o mundo lá fora. Ela me levou para o quarto dos fundos. Ali havia um espelho grande, um colchonete no chão, uma mesa com papéis e uma câmera pequena. — Primeiro: postura — ela disse. Me colocou diante do espelho. — No morro, postura é sobrevivência. Ombros duros significam medo. Cabeça erguida demais significa desafio. Ela ajustou meus ombros com as mãos firmes. — Relaxa… mas não demais. Respirei fundo. — Você anda como quem pede desculpa — ela disse. — Isso te mata rápido. Me fez caminhar de um lado para o outro. Corrigiu meus passos. Meu olhar. — Olho no olho só quando for seguro. Olhar baixo demais vira fraqueza. Depois veio a linguagem corporal. — Nunca cruze os braços — ela explicou. — Parece defensivo. — Nunca coloque as mãos nos bolsos — disse, tirando minhas mãos de lá. — Esconde intenções. — Aprenda a sorrir sem mostrar os dentes quando estiver com medo. Ela me fez repetir gestos. Expressões. Silêncios. Horas se passaram sem que eu percebesse. Depois, veio a parte mais difícil. — Agora vamos aprender a mentir. Meu estômago revirou. Ela colocou uma cadeira diante de mim e sentou. — Nome? — Helena Vasques. Ela levantou a sobrancelha. — Errado. Engoli em seco. — Eu… ainda não tenho nome falso. — A partir de hoje, você se chama Luna. Meu coração falhou uma batida. — Luna… — Repete até isso virar verdade. — Meu nome é Luna. — De novo. — Meu nome é Luna. Ela começou a me bombardear de perguntas. — De onde você veio? — Do interior… — Errado. Pensa rápido. — De Belford Roxo. — Quem é sua mãe? — Morreu. — Por quê? — Tuberculose. Cada resposta precisava sair sem hesitação. Quando eu travava, ela batia na mesa. — No morro, hesitação é sentença de morte. Em algum momento, comecei a suar frio. Meu coração disparava. — Olha pra mim — ela disse. — Agora mente dizendo que nunca conheceu seu pai. Abri a boca. E nada saiu. Minha garganta fechou. Ela me encarou. — Você não pode falhar nisso. Fechei os olhos por um segundo. — Eu… nunca conheci meu pai. Minha voz falhou. Ela balançou a cabeça. — De novo. — Eu nunca conheci meu pai. — Melhor. Depois veio a defesa. Noções básicas. Como sair de um agarrão. Como cair sem bater a cabeça. Como atingir pontos sensíveis. Me ensinou a usar joelho, cotovelo, salto. Caí no chão duas vezes. Ralei o braço. Mas levantei em silêncio. No final do dia, eu estava exausta. Sentada no chão, encostada na parede, respirando com dificuldade. Laura me observava em silêncio. — Você é mais forte do que parece. — Eu não tenho escolha. Ela assentiu. Quando ela saiu do quarto, Alcides entrou. Me olhou com cuidado. — Como você está? — Cansada… mas pronta. Ele sentou na cadeira diante de mim. — Helena… tem uma coisa que eu preciso te dizer. Meu coração acelerou. — Sobre meu pai? Ele ficou em silêncio por tempo demais. Olhou para a porta. Depois para mim. — Algumas partes daquela operação… nunca ficaram claras. Meu corpo inteiro ficou tenso. — Que partes? — Relatórios que sumiram. Horários que não batiam. Ordens que ninguém assumiu ter dado. Meu sangue gelou. — Você acha que… alguém traiu meu pai? Ele desviou o olhar. — Eu acho que… nem tudo foi culpa do morro. O chão pareceu sumir sob meus pés. — O que você está escondendo de mim, tio? Ele levantou rápido. — Não é hora disso. — Você prometeu que ia me ajudar! — E estou ajudando! — ele elevou a voz, depois se controlou. — Mas tem coisas que, se você souber agora, podem te destruir antes mesmo de você chegar lá dentro. Meu peito apertou. — Meu pai morreu… e você ainda está me escondendo a verdade? Ele segurou meus ombros. — Eu estou tentando te manter viva. Se afastou. — Descansa. Amanhã o treino continua. Saiu do quarto me deixando sozinha. Fiquei ali sentada, com o coração disparado. Então não foi só o morro. Não foi só Berne. Alguém mais tinha participado da morte do meu pai. E a pessoa que mais sabia sobre isso… Era o homem em quem eu precisava confiar... Continua....
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