7- ENVELOPE

1114 Palavras
CAPÍTULO 7 HELENA NARRANDO: O envelope era pardo. Sem remetente. Sem assinatura. Apenas meu nome verdadeiro escrito à caneta: Helena Vasques. Eu estava sentada à mesa da pequena cozinha da casa segura quando Alcides colocou o envelope diante de mim. — Abre — ele disse. Minhas mãos tremiam. Não era medo. Era a sensação estranha de que, ao abrir aquele envelope, alguma coisa dentro de mim deixaria de existir para sempre. Rasguei a lateral com cuidado. Dentro havia uma carteira de identidade. CPF. Carteira de trabalho. Título de eleitor. Tudo perfeitamente novo. Peguei o RG primeiro. A foto ainda era minha. Mas o nome… Luna Ferreira dos Santos. Meu coração parou por um segundo. Luna. O mesmo nome que Laura tinha escolhido no primeiro dia de treinamento. Olhei para Alcides. — Esse vai ser seu nome agora — ele disse. — Oficialmente, Helena Vasques deixou de existir. Passei os dedos sobre o papel plastificado. Data de nascimento alterada. Naturalidade: Belford Roxo. Estado civil: solteira. Profissão: dançarina. Engoli em seco. — Então é isso… — murmurei. — Eu já não sou mais eu. — Isso é proteção — ele respondeu. — Se alguém puxar sua ficha, essa é a única vida que vai aparecer. Peguei os outros documentos. Cada papel parecia arrancar um pedaço de mim. — E se eu esquecer quem eu sou? — perguntei em voz baixa. Ele não respondeu. A resposta estava no silêncio. Laura entrou logo depois. Trazia uma bolsa grande no ombro. — Pronta pra nascer de novo, Luna? Fechei os olhos por um instante. Quando os abri, assenti. Ela me levou até um prédio antigo, a poucos bairros dali. — Essa academia pertence a uma amiga minha — explicou. — Oficialmente, aulas de dança. Extraoficialmente… preparação pra sobreviver em boates controladas pelo crime. O lugar cheirava a madeira velha e perfume barato. Espelhos enormes cobriam uma parede inteira. Barras de ferro no canto. Um pequeno palco improvisado no fundo. Três mulheres já estavam ali. Maquiagem carregada. Roupas justas. Saltos altos. Todas me olharam quando entrei. Eu me senti… nua. Mesmo vestida. — Essa é a nova — Laura anunciou. — Tratem bem. Uma delas riu. — Tá com cara de colegial. Corei. Laura me empurrou gentilmente para o centro da sala. — Tira o tênis. Obedeci. — Aqui dentro, você não é Helena — ela disse em voz firme. — Você é Luna. E Luna dança. A música começou. Um batidão grave, pesado. As outras começaram a se mover com naturalidade. Quadris soltos. Corpos confiantes. Olhares provocantes. Eu fiquei parada. — Anda — Laura ordenou. — Eu… eu nunca dancei assim… — Vai aprender. Ela veio por trás de mim e segurou minha cintura. — Solta o corpo. — Eu não sei como… — Esquece quem você foi — ela sussurrou no meu ouvido. — E deixa quem você precisa ser aparecer. Me mexi desajeitada. Meus braços rígidos. Meu quadril travado. Uma das mulheres riu. — Relaxa, princesa. Isso aqui não é tribunal. Fechei os olhos. Respirei fundo. Tentei imitar os movimentos. Cada passo parecia errado. Cada gesto parecia uma traição a tudo o que eu tinha sido. Horas se passaram. Meu corpo doía. Minhas pernas tremiam. Mas, pouco a pouco, algo começou a mudar. O ritmo entrou em mim. O movimento ficou menos forçado. Laura parou ao meu lado. — Melhor. — Ainda estou horrível. — Está aprendendo. No fim do treino, fui ao banheiro. Quando levantei os olhos para o espelho… Eu quase não me reconheci. Cabelo preso de qualquer jeito. Rosto suado. Olhos cansados. Mas o que mais me assustou não foi a aparência. Foi o olhar. Não havia mais a Helena ali. Havia alguém… vazio. Assustada. Desconhecida. Minha garganta apertou. Voltei para a casa segura no fim da tarde. Entrei no quarto e me sentei na cama. Tirei os documentos da bolsa. Espalhei todos sobre a pia. Nome por nome. Número por número. Vida por vida. Helena Vasques. Luna Ferreira dos Santos. Qual delas era real agora? Peguei o RG falso outra vez. — Luna… — murmurei. Me observei por longos minutos. O cabelo longo caía até quase a cintura. O mesmo cabelo que meu pai era apaixobado quando eu era criança. Lembrei dele me penteando antes da escola. — Minha princesa… Uma lágrima escorreu. — Desculpa, pai… Abri a gaveta do armarinho do banheiro. Havia uma tesoura lá dentro. Grande. Pesada. Peguei com a mão trêmula. — Eu preciso fazer isso… — sussurrei para meu reflexo. Fiquei na ponta dos pés para ficar mais próxima do espelho. Segurei uma mecha grossa de cabelo. Meu coração disparava tão forte que parecia querer fugir do peito. — É só cabelo… — tentei me convencer. Mas não era. Era a última coisa que ainda me ligava à menina que eu tinha sido. Fechei os olhos. E cortei. O som foi seco. Cruel. Quando abri os olhos, a mecha caiu no chão como algo morto. Meu peito se apertou. Cortei outra. E mais outra. O espelho começou a me mostrar uma estranha. Cabelo cada vez mais curto. Desigual. Descontrolado. Comecei a chorar. Mas continuei. Quando terminei, meus fios m*l passavam dos ombros. Irregulares. Brutos. Eu parecia… outra pessoa. Caí sentada no chão, cercada de pedaços de mim. Passei a mão no cabelo novo. — Adeus, Helena… No dia seguinte, Laura trouxe roupas. Vestidos curtos. Saltos altos. Maquiagens fortes. — Prova isso. Entrei no banheiro e vesti um dos vestidos. Preto. Justo. Curto demais. Quando saí… Laura me encarou em silêncio. — Vira de lado. Obedeci. — Anda. Dei alguns passos. Ela assentiu. — Você está começando a desaparecer. Aquilo me deu um arrepio. — Isso é bom ou r**m? — Necessário. Ela começou a me ensinar como andar de salto. Como sentar. Como cruzar as pernas. Como olhar. — Na boate, seu corpo fala antes da sua boca — ela dizia. — Aprende a sorrir sem parecer gentil. — Aprende a provocar sem parecer apaixonada. À noite, sozinha no quarto, eu treinava diante do espelho. Sorriso errado. Olhar errado. Postura errada. Eu errava. Tentava de novo. Até que, em certo momento… Algo aconteceu. Eu sorri. E o sorriso não parecia meu. Parecia de Luna. O susto foi tão grande que eu dei um passo para trás. — Quem é você…? — sussurrei para o reflexo. Meu celular vibrou. Mensagem de Alcides: — Logo você vai começar a trabalhar na boate. Meu estômago revirou. Respondi apenas: — Estou pronta. Mentira. Eu não estava. Mas Helena Vasques já não podia mais admitir isso. Porque, na frente daquele espelho… Ela estava desaparecendo. E, no lugar dela… Estava nascendo alguém que eu não conhecia. Alguém que talvez não conseguisse mais voltar. Continua.....
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