8- RAEL??

1120 Palavras
CAPÍTULO 8 HELENA NARRANDO: Alcides não me avisou com antecedência. Ele simplesmente apareceu na porta da casa segura naquela manhã, com o rosto sério demais para ser ignorado. — É hoje. Essas duas palavras fizeram meu estômago afundar. — Hoje…? — repeti, sentindo o coração acelerar. — Hoje você entra no morro. O mundo pareceu girar levemente ao meu redor. Eu sabia que esse momento chegaria. Mas saber… e estar pronta… eram coisas completamente diferentes. Ele entrou, fechou a porta atrás de si e colocou uma pequena mochila sobre a mesa. — Aqui estão suas roupas de hoje — disse. — Simples. Nada que chame atenção. Nada que denuncie que você não pertence àquele lugar. Abri a mochila. Calça jeans desbotada. Blusa justa, mas sem decote. Tênis velho. Uma bolsa pequena atravessada no peito. — Você vai parecer alguém que cresceu em alguma comunidade. — ele explicou. Minhas mãos tremiam enquanto me vestia. Quando terminei, me olhei no espelho. Luna estava ali. Não Helena. Nunca mais Helena. Alcides me entregou um papel dobrado. — Anota mentalmente. Você vai pegar o ônibus 474 até o terminal de São Cristóvão. De lá, desce duas paradas depois da estação velha. Aí atravessa a rua e pega a kombi branca sem placa que sobe até a entrada do morro. — E se eu errar? — Acho bom não errar. Você quem quis isso. A forma como ele disse isso me deu arrepios. Sentamos à mesa. Ele começou a falar baixo, rápido, como se tivesse medo que alguém estivesse ouvindo. — A policial infiltrada se chama Bianca. Nome falso, claro. Lá dentro ela é conhecida como Bia. Gravei o nome como se fosse uma oração. — Você vai dizer que é prima dela. Que veio porque ela arrumou trabalho pra você na boate. — Eles vão acreditar? — Vão, porque Bia já deixou tudo preparado. Respirei fundo. — E se perguntarem mais? — Sua história é simples: veio de Belford roxo, brigou com a mãe, precisa de dinheiro. Ele segurou meu rosto com as duas mãos. — Helena… — corrigiu a si mesmo. — Luna. Escuta bem. A partir do momento em que você colocar o pé naquele morro, você não pode mais demonstrar medo. — Mas eu estou com medo… — Eu sei. Mas lá dentro medo cheira. Meu coração apertou. — Outra coisa — ele continuou. — Nunca, em hipótese nenhuma, pergunte diretamente sobre o chefe do morro. — Por quê? — Porque o nome dele não se pronuncia sem cuidado. Engoli em seco. — Quem manda na boate? — O gerente se chama Rogério. Homem perigoso, desconfiado. Mas ele responde a alguém acima. — Quem? Ele hesitou. Por um segundo. Tempo demais. — Você vai descobrir. Aquilo me deu um arrepio estranho. Quando chegou a hora de sair, ele me acompanhou até o ponto de ônibus. Antes de eu subir, segurou minha mão. — Se algo sair do controle… você foge. — Eu não posso. — Você pode sim. E deve. Assenti. Subi no ônibus com o coração na garganta. Durante todo o trajeto, eu m*l consegui respirar direito. Cada parada parecia mais longe do que a anterior. Quando desci, minhas pernas estavam fracas. Atravessei a rua como ele tinha dito. A kombi branca estava ali. Motor ligado. Sem placa. Um homem abriu a porta lateral. — Vai subir? Assenti. Entrei. Dentro, mais quatro pessoas em silêncio. A kombi começou a subir. Cada curva parecia me levar mais fundo em um mundo que eu não conhecia. Quando parou, o homem apontou com o queixo. — Chegou. Desci. E foi ali… Ali que eu realmente entendi onde estava me metendo. A entrada do Morro do Luar parecia uma fronteira. De um lado, a cidade normal. Do outro, um universo completamente diferente. Homens armados guardavam o acesso. Fuzis pendurados no peito. Olhares frios. Um deles levantou a mão quando me viu. — Parada aí. Meu coração quase saiu pela boca. — O que você quer aqui? Engoli em seco, lembrando das palavras de Alcides. — Eu… eu sou prima da Bia. O homem franziu a testa. — Que Bia? — A Bia da boate… a Bianca… Ele me analisou da cabeça aos pés. Silêncio. Um rádio chiou. Ele falou algo baixo. Depois me encarou de novo. — Sobe. Mas não faz merda. Assenti rápido. Comecei a subir a pé. O morro era… vivo. Casas empilhadas umas sobre as outras. Escadas estreitas. Becos escuros. Fios elétricos cruzando o céu como uma teia. Música alta saindo de várias janelas ao mesmo tempo. Crianças correndo descalças. Mulheres sentadas em cadeiras na porta, conversando como se não houvesse homens armados a poucos metros. O cheiro era uma mistura de comida, fumaça, suor e algo mais pesado. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que todos podiam ouvir. A cada esquina, alguém me observava. Alguns com curiosidade. Outros com desconfiança. Eu tentava manter o rosto neutro. Postura relaxada. Passos firmes. Mas por dentro… Eu estava em pânico. Demorei quase vinte minutos até encontrar a boate. O boate surgia no meio do morro como um castelo sombrio. Fachada preta. Luzes vermelhas piscando. Música grave fazendo o chão vibrar. Dois seguranças enormes na porta. Respirei fundo. E entrei. O interior era escuro. Cheio de fumaça. Luzes coloridas girando pelo salão. Homens bebendo, rindo alto. Mulheres dançando em um palco pequeno. O cheiro de álcool e perfume barato era sufocante. Um homem baixo, de camisa social aberta e corrente de ouro no pescoço, veio até mim. — O que você quer? — Eu… eu vim falar com o Rogério — disse. — Quem te mandou? — A Bia. O nome saiu quase como um sussurro. O rosto dele mudou imediatamente. — Você é a prima dela? Assenti. — Segue. Ele me levou até uma sala nos fundos. Rogério estava sentado atrás de uma mesa. Gordo. Careca. Olhos pequenos e atentos. — Então você é a prima da Bianca… — Sou. — Sabe dançar? — Sei. — Precisa de dinheiro? — Muito. Ele me encarou em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos. — Começa hoje. Meu estômago virou. — Obrigada… Quando saí da sala, minhas pernas estavam bambas. Eu tinha conseguido. Eu estava dentro. Mas foi só quando uma das garotas passou por mim e cochichou: — Cuidado… o dono tá aqui hoje. Que algo gelou dentro de mim. — Dono…? — perguntei. Ela me olhou surpresa. — Você não sabe? Balancei a cabeça. — A boate é do chefe do morro. Meu coração parou. — Do… chefe? — É. Ela sorriu nervosa. — Tudo aqui é dele. O sangue sumiu do meu rosto. — E… e qual é o nome dele? — O nome dele é Rael... Continua......
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