CAPÍTULO 8
HELENA NARRANDO:
Alcides não me avisou com antecedência.
Ele simplesmente apareceu na porta da casa segura naquela manhã, com o rosto sério demais para ser ignorado.
— É hoje.
Essas duas palavras fizeram meu estômago afundar.
— Hoje…? — repeti, sentindo o coração acelerar.
— Hoje você entra no morro.
O mundo pareceu girar levemente ao meu redor.
Eu sabia que esse momento chegaria.
Mas saber… e estar pronta… eram coisas completamente diferentes.
Ele entrou, fechou a porta atrás de si e colocou uma pequena mochila sobre a mesa.
— Aqui estão suas roupas de hoje — disse. — Simples. Nada que chame atenção. Nada que denuncie que você não pertence àquele lugar.
Abri a mochila.
Calça jeans desbotada.
Blusa justa, mas sem decote.
Tênis velho.
Uma bolsa pequena atravessada no peito.
— Você vai parecer alguém que cresceu em alguma comunidade. — ele explicou.
Minhas mãos tremiam enquanto me vestia.
Quando terminei, me olhei no espelho.
Luna estava ali.
Não Helena.
Nunca mais Helena.
Alcides me entregou um papel dobrado.
— Anota mentalmente. Você vai pegar o ônibus 474 até o terminal de São Cristóvão. De lá, desce duas paradas depois da estação velha. Aí atravessa a rua e pega a kombi branca sem placa que sobe até a entrada do morro.
— E se eu errar?
— Acho bom não errar. Você quem quis isso.
A forma como ele disse isso me deu arrepios.
Sentamos à mesa.
Ele começou a falar baixo, rápido, como se tivesse medo que alguém estivesse ouvindo.
— A policial infiltrada se chama Bianca. Nome falso, claro. Lá dentro ela é conhecida como Bia.
Gravei o nome como se fosse uma oração.
— Você vai dizer que é prima dela. Que veio porque ela arrumou trabalho pra você na boate.
— Eles vão acreditar?
— Vão, porque Bia já deixou tudo preparado.
Respirei fundo.
— E se perguntarem mais?
— Sua história é simples: veio de Belford roxo, brigou com a mãe, precisa de dinheiro.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos.
— Helena… — corrigiu a si mesmo. — Luna. Escuta bem. A partir do momento em que você colocar o pé naquele morro, você não pode mais demonstrar medo.
— Mas eu estou com medo…
— Eu sei. Mas lá dentro medo cheira.
Meu coração apertou.
— Outra coisa — ele continuou. — Nunca, em hipótese nenhuma, pergunte diretamente sobre o chefe do morro.
— Por quê?
— Porque o nome dele não se pronuncia sem cuidado.
Engoli em seco.
— Quem manda na boate?
— O gerente se chama Rogério. Homem perigoso, desconfiado. Mas ele responde a alguém acima.
— Quem?
Ele hesitou.
Por um segundo.
Tempo demais.
— Você vai descobrir.
Aquilo me deu um arrepio estranho.
Quando chegou a hora de sair, ele me acompanhou até o ponto de ônibus.
Antes de eu subir, segurou minha mão.
— Se algo sair do controle… você foge.
— Eu não posso.
— Você pode sim. E deve.
Assenti.
Subi no ônibus com o coração na garganta.
Durante todo o trajeto, eu m*l consegui respirar direito.
Cada parada parecia mais longe do que a anterior.
Quando desci, minhas pernas estavam fracas.
Atravessei a rua como ele tinha dito.
A kombi branca estava ali.
Motor ligado.
Sem placa.
Um homem abriu a porta lateral.
— Vai subir?
Assenti.
Entrei.
Dentro, mais quatro pessoas em silêncio.
A kombi começou a subir.
Cada curva parecia me levar mais fundo em um mundo que eu não conhecia.
Quando parou, o homem apontou com o queixo.
— Chegou.
Desci.
E foi ali…
Ali que eu realmente entendi onde estava me metendo.
A entrada do Morro do Luar parecia uma fronteira.
De um lado, a cidade normal.
Do outro, um universo completamente diferente.
Homens armados guardavam o acesso.
Fuzis pendurados no peito.
Olhares frios.
Um deles levantou a mão quando me viu.
— Parada aí.
Meu coração quase saiu pela boca.
— O que você quer aqui?
Engoli em seco, lembrando das palavras de Alcides.
— Eu… eu sou prima da Bia.
O homem franziu a testa.
— Que Bia?
— A Bia da boate… a Bianca…
Ele me analisou da cabeça aos pés.
Silêncio.
Um rádio chiou.
Ele falou algo baixo.
Depois me encarou de novo.
— Sobe. Mas não faz merda.
Assenti rápido.
Comecei a subir a pé.
O morro era… vivo.
Casas empilhadas umas sobre as outras.
Escadas estreitas.
Becos escuros.
Fios elétricos cruzando o céu como uma teia.
Música alta saindo de várias janelas ao mesmo tempo.
Crianças correndo descalças.
Mulheres sentadas em cadeiras na porta, conversando como se não houvesse homens armados a poucos metros.
O cheiro era uma mistura de comida, fumaça, suor e algo mais pesado.
Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que todos podiam ouvir.
A cada esquina, alguém me observava.
Alguns com curiosidade.
Outros com desconfiança.
Eu tentava manter o rosto neutro.
Postura relaxada.
Passos firmes.
Mas por dentro…
Eu estava em pânico.
Demorei quase vinte minutos até encontrar a boate.
O boate surgia no meio do morro como um castelo sombrio.
Fachada preta.
Luzes vermelhas piscando.
Música grave fazendo o chão vibrar.
Dois seguranças enormes na porta.
Respirei fundo.
E entrei.
O interior era escuro.
Cheio de fumaça.
Luzes coloridas girando pelo salão.
Homens bebendo, rindo alto.
Mulheres dançando em um palco pequeno.
O cheiro de álcool e perfume barato era sufocante.
Um homem baixo, de camisa social aberta e corrente de ouro no pescoço, veio até mim.
— O que você quer?
— Eu… eu vim falar com o Rogério — disse.
— Quem te mandou?
— A Bia.
O nome saiu quase como um sussurro.
O rosto dele mudou imediatamente.
— Você é a prima dela?
Assenti.
— Segue.
Ele me levou até uma sala nos fundos.
Rogério estava sentado atrás de uma mesa.
Gordo.
Careca.
Olhos pequenos e atentos.
— Então você é a prima da Bianca…
— Sou.
— Sabe dançar?
— Sei.
— Precisa de dinheiro?
— Muito.
Ele me encarou em silêncio por alguns segundos que pareceram eternos.
— Começa hoje.
Meu estômago virou.
— Obrigada…
Quando saí da sala, minhas pernas estavam bambas.
Eu tinha conseguido.
Eu estava dentro.
Mas foi só quando uma das garotas passou por mim e cochichou:
— Cuidado… o dono tá aqui hoje.
Que algo gelou dentro de mim.
— Dono…? — perguntei.
Ela me olhou surpresa.
— Você não sabe?
Balancei a cabeça.
— A boate é do chefe do morro.
Meu coração parou.
— Do… chefe?
— É.
Ela sorriu nervosa.
— Tudo aqui é dele.
O sangue sumiu do meu rosto.
— E… e qual é o nome dele?
— O nome dele é Rael...
Continua......