Capítulo 6

828 Palavras
Conrado O sedã preto não saiu da minha cabeça. Na manhã seguinte, a primeira coisa que fiz ao entrar na delegacia foi pedir as imagens das câmeras de segurança próximas à universidade. Henrique entrou na sala carregando dois copos de café. — Você está aqui desde cedo? Nem respondi. Mantive os olhos fixos no monitor. A gravação avançava em velocidade acelerada. Estudantes entrando. Ônibus passando. Motocicletas. Carros. Até que ele apareceu. — Volta cinco segundos — pedi ao agente responsável. A imagem retrocedeu. Lá estava o sedã preto. Entrando na rua lateral da universidade às 22h07. Vidros completamente escuros. Sem placa dianteira. O veículo passou devagar pelo portão principal, fez a volta no quarteirão e desapareceu da câmera. — Tem outra câmera na esquina? — perguntei. O agente assentiu. — Estamos puxando. Alguns segundos depois, a nova gravação surgiu. O carro reapareceu. Dessa vez ficou parado por quase dois minutos. Como se esperasse alguém. Meu maxilar se contraiu. — Aproxima. A resolução era r**m. Mesmo ampliando a imagem, era impossível identificar quem estava dentro. — Consegue pegar a placa traseira? O agente balançou a cabeça. — Também está sem placa. Henrique soltou um assobio baixo. — Isso foi planejado. Concordei em silêncio. Ninguém circulava daquela forma por acaso. Muito menos em frente a uma universidade. Desliguei o monitor. — Quero todas as ocorrências envolvendo esse carro nos últimos quinze dias. — Você acha que é do pessoal do Borges? Olhei para Henrique. — Ainda não sei. — Então por que essa obsessão? Respirei fundo. Porque meu instinto gritava. E ele raramente gritava sem motivo. --- Pouco antes do almoço, o telefone da minha mesa tocou. — Delegado Conrado. — Doutor... Reconheci imediatamente a voz. Era Jonas. Um dos poucos informantes que ainda aceitavam trabalhar conosco dentro da comunidade. — Faz tempo que o senhor não liga. — Você pediu para nunca mais ligar. — Eu mudei de ideia. Aquilo bastou para me colocar em alerta. Jonas nunca desperdiçava palavras. — O que aconteceu? Houve alguns segundos de silêncio. Como se ele verificasse se estava sozinho. — Tem gente de fora circulando pelo Morro da Esperança. Meu corpo enrijeceu. — Quantos? — Não sei. Mas não são daqui. — Tem ligação com Caio Borges? — Justamente o contrário. Franzi o cenho. A voz dele ficou ainda mais baixa. — Estão procurando um jeito de encontrar o Caio. Segurei o telefone com mais força. — Como? Nova pausa. — Dizem que escolheram um alvo. Meu coração desacelerou por um instante. Porque, antes mesmo de Jonas responder, eu já sabia quem era. — Eva Borges. Fechei os olhos. Droga. — Tem certeza? — É o que estão comentando. — Quem são eles? — Ainda ninguém sabe. Só sabem que chegaram armados e estão oferecendo dinheiro por informação. Meu sangue gelou. — Informação sobre o quê? — A rotina dela. Olhei automaticamente para a fotografia presa no mural. Eva saindo da padaria. Mochila nas costas. Expressão tranquila. Desliguei o telefone sem dizer mais nada. Henrique me encarava da porta. — Aconteceu alguma coisa? Peguei a chave do carro. — Sim. — O quê? — Talvez a gente tenha passado meses fazendo a pergunta errada. Ele franziu a testa. — Como assim? Olhei novamente para a foto de Eva. Durante todo esse tempo, tentei descobrir se ela escondia informações sobre o irmão. Agora havia uma possibilidade muito pior. Ela podia estar escondendo que estava em perigo. --- Quinze minutos depois, estacionei discretamente em frente à padaria. Não entrei. Fiquei observando do outro lado da rua. Eva atendia os clientes como se nada tivesse acontecido. Sorria. Conversava. Entregava troco. Se alguém olhasse por apenas alguns minutos, concluiria que aquela era uma manhã comum. Mas eu já sabia que aparências enganavam. Meu telefone vibrou. Mensagem de Henrique. "Encontramos outro registro do sedã preto. Em frente à padaria. Ontem, uma hora antes de você chegar." Meu olhar voltou imediatamente para a rua. Então percebi. Do outro lado, parado próximo a uma banca de jornal fechada, um homem de boné observava a padaria. Não fazia compras. Não falava com ninguém. Só observava. Peguei os binóculos que mantinha no carro. Assim que os levei aos olhos, o homem virou discretamente o rosto. Experiente. Tinha percebido que estava sendo observado. Guardou o celular no bolso e começou a caminhar. Sem pressa. Sem correr. Como quem não queria chamar atenção. Saí da viatura no mesmo instante. — Polícia! O homem olhou rapidamente por cima do ombro. E acelerou o passo. Não chegou a correr. Virou a esquina. Quando alcancei a rua seguinte... Ele havia desaparecido. Nenhum carro. Nenhuma motocicleta. Nenhuma porta aberta. Como se tivesse evaporado. Respirei fundo, irritado. Voltei para a avenida principal. Foi então que encontrei o olhar de Eva através da vitrine da padaria. Ela me observava. Não parecia surpresa. Nem confusa. Parecia preocupada. E, pela primeira vez desde que aquela investigação começou... Tive a nítida impressão de que nós dois estávamos procurando exatamente a mesma pessoa.
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