Capítulo 7

1188 Palavras
Eva Conrado voltou. Eu o vi antes mesmo que ele saísse do carro. Estava do outro lado da rua, parado como alguém que fingia observar o movimento da avenida, mas cujo olhar retornava à padaria a cada poucos segundos. Eu deveria estar irritada. E, de certa forma, estava. Desde que ele aparecera na minha vida, parecia impossível passar um único dia sem ser lembrada de quem era meu irmão. Mas havia algo diferente naquela manhã. Ele não estava me observando como um investigador que tenta arrancar uma confissão. Parecia procurar outra coisa. Ou outra pessoa. Continuei atendendo os clientes, embora minha atenção estivesse dividida entre o balcão e a vitrine. — Bom dia, Eva. Sorri para o senhor Augusto. — O de sempre? — Dois pães de milho e um café. Enquanto preparava o pedido, voltei a olhar discretamente para fora. Conrado permanecia no mesmo lugar. Foi então que ele atravessou a rua. Meu coração acelerou. Não em minha direção. Ele caminhou rapidamente para a esquina, como se tivesse identificado alguém. Desapareceu por alguns segundos. Quando voltou, vinha sozinho. A expressão fechada dizia tudo. Não encontrara quem procurava. Respirei devagar. Então eu não estava imaginando coisas. Ele também tinha percebido que havia alguém nos observando. A confirmação deveria me tranquilizar. Fez exatamente o contrário. --- — Eva. Levantei os olhos. Seu Joaquim me entregava uma bandeja de sonhos recém-saídos do forno. — Está tudo bem? Forcei um sorriso. — Claro. Ele me encarou por alguns segundos. Conhecia-me havia quatro anos. Sabia reconhecer quando eu mentia. — Você está pálida. — Dormi m*l. Ele assentiu, mas não pareceu convencido. — Se precisar ir para casa mais cedo, eu cubro seu turno. Sorri com sinceridade dessa vez. — Obrigada. Ele deu um leve aperto no meu braço antes de voltar para os fundos. Aquele gesto simples fez um nó surgir na minha garganta. Havia pessoas que me enxergavam além do sobrenome. E eu tinha medo de que acabassem pagando por isso. --- O restante da manhã transcorreu sem novidades. Pelo menos era o que parecia. Às onze horas, um rapaz entrou usando um boné escuro. Nunca o tinha visto antes. Pediu apenas uma garrafa de água. Enquanto eu registrava a compra, senti seu olhar sobre mim. Não era curiosidade. Era avaliação. Como se estivesse comparando meu rosto com alguma fotografia. — Mais alguma coisa? — perguntei. Ele demorou um segundo para responder. — Não. Pagou em dinheiro. Antes de sair, lançou um olhar para toda a padaria, como se decorasse o ambiente. Esperei até que desaparecesse. Meu estômago se contraiu. Talvez fosse um cliente qualquer. Talvez. Mas eu já não conseguia acreditar em coincidências. --- Na hora do almoço, sentei nos fundos da padaria com uma marmita que m*l consegui tocar. Meu celular vibrou. Era uma mensagem de Luan. "Tudo certo?" Respondi imediatamente. "Até agora, sim." A resposta veio quase no mesmo instante. "Dois homens passaram perguntando por você na entrada do morro. Ninguém respondeu." Fechei os olhos. Então continuava acontecendo. "Você falou com o Caio?" Demorou alguns minutos. "Ainda não." Suspirei. Era estranho admitir, mas eu estava começando a sentir raiva do meu irmão. Não pelas escolhas que fizera anos atrás. Essa raiva eu já conhecia. Era pela ausência. Sempre que o perigo aumentava, ele desaparecia. Talvez para proteger a organização. Talvez para proteger a si mesmo. Mas quem ficava para trás era eu. Guardei o celular. Perdi completamente a fome. --- Quando meu turno terminou, esperei alguns minutos antes de sair. Olhei para os dois lados da rua. Nada. Mesmo assim, decidi mudar o caminho. Em vez de seguir para o ponto de ônibus habitual, entrei por ruas mais movimentadas. Passei por uma farmácia. Depois por uma papelaria. Entrei em uma pequena loja de conveniência e comprei uma garrafa de água que nem precisava. Apenas queria observar quem entrava depois de mim. Ninguém. Saí. Continuei caminhando. Talvez eu estivesse exagerando. Talvez o medo estivesse transformando desconhecidos em ameaças. Foi quando ouvi passos atrás de mim. Não eram rápidos. Nem lentos. Mantinham exatamente o mesmo ritmo que os meus. Virei à esquerda. Os passos fizeram o mesmo. Atravessei a rua. Eles também. Meu coração começou a bater tão forte que m*l conseguia ouvir o barulho do trânsito. Entrei em uma banca de revistas. Fingi observar algumas capas. Pelo reflexo do vidro, vi um homem parar do lado de fora. Boné preto. Óculos escuros. Celular na mão. Não entrou. Ficou esperando. Contei mentalmente. Um... Dois... Três... Quando saí da banca, ele voltou a caminhar. Não olhava diretamente para mim. Mas mantinha a distância. Meu impulso foi correr. Controlei-me. Se eu corresse, confirmaria que havia percebido. Em vez disso, entrei na primeira cafeteria que encontrei. Escolhi uma mesa próxima à janela. Pedi um café. O homem permaneceu do outro lado da rua. Falando ao telefone. Cinco minutos depois, outro carro preto estacionou alguns metros adiante. Meu sangue gelou. Não era o mesmo sedã. Mas a cor foi suficiente para despertar todo o medo da noite anterior. O homem guardou o celular. Entrou no carro. Os dois desapareceram. Fiquei parada por alguns segundos, tentando entender o que acabara de acontecer. Eles não tentaram falar comigo. Não tentaram me abordar. Só observaram. Como se estivessem montando um quebra-cabeça. --- Cheguei em casa antes do anoitecer. A primeira coisa que fiz foi conferir se todas as janelas estavam trancadas. Depois sentei no sofá. O silêncio parecia maior do que a casa. Peguei o celular. Abri a conversa com Luan. Escrevi: "Acho que estavam me seguindo." Apaguei. Escrevi outra vez. "Tenho certeza de que estavam me seguindo." Apaguei novamente. No fim, apenas enviei: "Precisamos conversar." Ele visualizou imediatamente. "Estou indo." Larguei o telefone ao meu lado. Minha cabeça doía. Fechei os olhos por alguns segundos. Foi então que a imagem de Conrado voltou à minha mente. Ele atravessando a rua. Correndo atrás de alguém. Voltando sozinho. O modo como havia me olhado através da vitrine. Pela primeira vez, não enxerguei o delegado obstinado que queria prender meu irmão. Vi um homem tentando impedir que alguma coisa acontecesse. Aquilo me incomodou mais do que deveria. Porque confiar nele seria um erro. Mas continuar ignorando tudo também parecia ser. Um ruído de motor interrompeu meus pensamentos. Levantei rapidamente. Afastei a cortina apenas alguns centímetros. Uma motocicleta preta estava parada do outro lado da rua. O homem que a pilotava usava capacete. Não dava para ver seu rosto. Ele permaneceu imóvel por quase um minuto. Depois arrancou e desapareceu. Meu telefone tocou. Luan. — Já estou chegando. A voz dele era séria. — Não sai de casa por nada. Olhei novamente para a rua vazia. — Eu não vou sair. — Promete? — Prometo. Desliguei. Encostei a testa na janela. Nos últimos dias, minha vida deixara de ser dividida entre a padaria e a faculdade. Agora eu media o tempo entre olhares estranhos, carros desconhecidos e a esperança de que tudo aquilo acabasse antes que alguém decidisse parar de apenas observar. Porque eu tinha a sensação de que quem estava me seguindo ainda não tinha feito seu primeiro movimento. Estava esperando. E eu não fazia ideia do que.
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