Capítulo 8

949 Palavras
Conrado — Descobriu alguma coisa? Nem precisei levantar os olhos para reconhecer a voz de Henrique. Continuei encarando a fotografia ampliada na tela do computador. O homem de boné captado pela câmera da padaria aparecia apenas de perfil. A imagem era r**m, granulada, mas havia um detalhe que me incomodava. Ele não olhava para a vitrine. O olhar estava voltado para a calçada. Como quem esperava alguém sair. — Ainda não. Henrique aproximou uma cadeira. — Você está analisando essa imagem há quase uma hora. — Porque tem alguma coisa errada. Ele cruzou os braços. — O quê? Apontei para a tela. — Repara na postura. Henrique observou por alguns segundos. — Parece um sujeito esperando alguém. — Exatamente. Abri outra fotografia. Era a câmera da universidade. O mesmo porte físico. Mesmo boné. Mesma forma de manter uma das mãos no bolso da jaqueta. — Não dá para afirmar que é a mesma pessoa. — Não. — Então? — Meu instinto diz que é. Henrique riu pelo nariz. — Você e seu instinto. Não respondi. Nos últimos anos, aprendi que estatísticas resolviam muitos casos. Mas o instinto resolvia os que não apareciam nos relatórios. Meu celular vibrou. Mensagem do setor de inteligência. "Consulta concluída. Nenhum registro do veículo sem placa. Possível carro clonado ou adulterado." Droga. Se haviam retirado as placas, era porque não queriam apenas esconder a identidade. Queriam dificultar qualquer investigação. Fechei o celular. — Henrique. — Fala. — Quero uma equipe discreta na padaria. Ele arqueou as sobrancelhas. — Vigilância? — Sem uniforme. Sem viatura identificada. — Você acha que vão atacar em plena luz do dia? Balancei a cabeça. — Não acho que vão atacar hoje. Acho que ainda estão estudando a rotina dela. Henrique ficou em silêncio por alguns segundos. Depois perguntou: — Você realmente acredita que Eva não sabe de nada? A pergunta permaneceu entre nós. Há poucos dias, eu responderia sem hesitar. Diria que ela escondia informações. Que era impossível crescer ao lado de Caio Borges sem participar de alguma forma. Agora... Agora eu já não tinha tanta certeza. — Acho que ela está escondendo alguma coisa. — Mas? Respirei fundo. — Não sei se esse segredo tem relação com o irmão. --- No início da tarde, resolvi fazer algo que evitava havia anos. Visitei um antigo informante. João "Careca" estava preso havia quase dezoito meses. Antes da prisão, trabalhou para diferentes organizações criminosas da cidade. Conhecia regras que nunca apareciam nos inquéritos. Sentou-se à minha frente na sala de visitas com um sorriso debochado. — Delegado... — João. Ele apoiou os cotovelos na mesa. — A que devo a honra? — Tenho algumas perguntas. — E eu tenho algumas respostas. Sorriu. — Dependendo do preço. Ignorei a provocação. — O que acontece quando uma organização rival quer atingir um líder que quase nunca aparece? O sorriso desapareceu. João passou a língua pelos lábios antes de responder. — Depende. — Do quê? — Do tipo de líder. — Caio Borges. Ele soltou uma risada curta. — Então você está mais atrasado do que eu imaginava. Franzi a testa. — Explica. — Caio não é conhecido por dinheiro. Nem por território. É conhecido pela lealdade. Quem trabalha para ele acredita que o homem faria qualquer coisa pelos dele. Cruzei os braços. — E isso responde minha pergunta? João inclinou-se para frente. — Não se derruba um homem desses atacando os soldados. Ataca-se quem ele ama. As palavras ficaram ecoando na sala. — Ele tem pouca família. João assentiu. — Justamente. Não precisei perguntar de quem ele falava. --- Ao sair do presídio, permaneci alguns minutos dentro da viatura. Olhando o movimento da rua. Lembrei da primeira vez que vi Eva. Atrás do balcão da padaria. Depois da menina que ganhou um doce escondido. Do jeito como tratava os clientes pelo nome. Nada daquilo combinava com o mundo de Caio Borges. Mas o crime organizado tinha uma regra c***l. Você não precisava fazer parte dele para pagar o preço. Bastava carregar o sobrenome errado. Meu telefone tocou. Henrique. — Conrado. — Fala. — Um dos nossos viu um homem seguindo a Eva depois que ela saiu do trabalho. Endireitei-me imediatamente. — Perdeu o sujeito? — Não. Na verdade... Ele acompanhou os dois. Meu coração acelerou. — E? — O homem não tentou contato. Só observou. Fez duas ligações e entrou em um carro preto. Fechei os olhos por um segundo. Era exatamente o comportamento descrito pelos nossos analistas. Reconhecimento. Mapeamento. Preparação. — Você tem fotos? — Estou enviando agora. O celular vibrou quase imediatamente. Abri a imagem. Meu estômago se contraiu. Era o mesmo homem da câmera da padaria. Sem dúvidas desta vez. Mesmo boné. Mesmo casaco. Mesmo relógio metálico no pulso esquerdo. — Henrique... — Também reconheceu? — Sim. — O que fazemos? Continuei olhando a fotografia. Podíamos esperar. Continuar observando. Tentar descobrir para quem ele trabalhava. Era o procedimento correto. Também era a forma mais fácil de perder Eva caso eles resolvessem agir antes. Tomei minha decisão. — Monta uma equipe. — Para prender o sujeito? — Ainda não. — Então? Olhei novamente para a fotografia. — Quero proteção discreta para Eva Borges. Henrique demorou alguns segundos para responder. — Ela vai aceitar? Soltei um riso sem humor. — Conhecendo a senhorita Borges... Provavelmente vai me mandar embora. — E mesmo assim? Liguei o motor da viatura. — Mesmo assim. Porque ela pode não confiar em mim. Pode até acreditar que sou seu inimigo. Mas, se eu estiver certo... Ela ainda não percebeu que alguém já começou a transformar a rotina dela em um mapa. E quando esse mapa estiver completo... A próxima etapa deixa de ser observar. Passa a ser agir.
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