Capítulo 9

1002 Palavras
Eva O despertador tocou às seis da manhã. Pela primeira vez em muito tempo, eu já estava acordada antes dele. Passei boa parte da noite encarando o teto do quarto. Cada barulho do lado de fora me fazia prender a respiração. Uma moto acelerando. Um cachorro latindo. Passos na calçada. Nada acontecia. Ainda assim, o sono nunca chegava por completo. Desliguei o despertador e me sentei na cama. Por alguns segundos, fiquei olhando para o pequeno quarto onde morava havia quatro anos. As paredes claras. A estante cheia de livros da faculdade. O vaso com uma jiboia na janela. Tudo parecia exatamente igual. Mas eu não. Era estranho como o medo mudava as pessoas sem alterar nada ao redor. Levantei, tomei um banho demorado e prendi o cabelo em um coque desajeitado. Enquanto preparava um café, peguei o celular. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Respirei aliviada. Talvez o dia anterior tivesse sido apenas uma sucessão de coincidências. Talvez eu estivesse permitindo que a paranoia tomasse conta da minha cabeça. Quase acreditei nisso. Quase. --- A padaria estava cheia quando cheguei. Seu Joaquim já retirava pães do forno. Assim que me viu, sorriu. — Dormiu melhor? Sorri de volta, embora soubesse que ele perceberia a mentira. — Um pouco. — Ainda está pálida. — Café resolve. Ele riu. — Para quase tudo. Amarrei o avental e fui para o balcão. Os primeiros clientes começaram a chegar. Um senhor comprando pão francês. Uma mãe com dois filhos pequenos. Uma adolescente apressada antes da escola. Atender aquelas pessoas sempre me fazia bem. Ali ninguém me chamava de irmã do Caio. Eu era apenas a Eva da padaria. A moça que lembrava do pedido de cada cliente. — Dois sonhos e um pingado, não é, dona Célia? A mulher sorriu. — Você tem uma memória invejável. Sorri de volta. Era bom esquecer, nem que fosse por alguns minutos, tudo o que estava acontecendo. --- Por volta das dez da manhã, saí para colocar o lixo reciclável na lixeira da calçada. O sol já aquecia o asfalto. Olhei automaticamente para os dois lados da rua. Nada. Nenhum sedã preto. Nenhum homem de boné. Nenhuma motocicleta parada. Suspirei. Talvez, finalmente, eu pudesse relaxar. Foi quando senti alguém se aproximar. — Com licença. Virei-me rapidamente. Era uma senhora de cabelos grisalhos, carregando duas sacolas pesadas. — Você pode me ajudar? Sorri, um pouco envergonhada pelo susto. — Claro. Peguei uma das sacolas e a acompanhei até a esquina. Ela agradeceu diversas vezes. Quando voltei para a padaria, encontrei Seu Joaquim me observando da porta. — Você nunca consegue dizer não para ninguém, não é? Dei de ombros. — Ela precisava de ajuda. — Um dia isso ainda vai lhe dar trabalho. A frase foi dita em tom de brincadeira. Mesmo assim, fiquei pensando nela. --- O movimento diminuiu perto da hora do almoço. Aproveitei para organizar as prateleiras. Enquanto alinhava alguns pacotes de biscoito, ouvi a campainha da porta. Levantei a cabeça. Um homem entrou. Usava camisa social azul-clara, calça jeans e segurava um celular. Não havia nada de estranho nele. Ainda assim, meu coração acelerou. Ele caminhou lentamente pelos corredores. Pegou uma garrafa de água. Depois um pacote de torradas. Por fim, aproximou-se do caixa. — Bom dia. — Bom dia. Passei os produtos. Ele me encarou por alguns segundos. — Você trabalha aqui há muito tempo? A pergunta me pegou de surpresa. — Alguns anos. — Gosta daqui? Forcei um sorriso educado. — Gosto. Ele assentiu. Pagou a compra. Antes de sair, disse apenas: — Tenha um bom dia. Fiquei observando enquanto atravessava a rua. Entrou em um carro branco estacionado alguns metros adiante e foi embora. Respirei fundo. Talvez ele só fosse simpático. Mas ultimamente qualquer pergunta simples parecia esconder outra intenção. --- À tarde, tentei estudar durante o intervalo. Abri um dos livros da faculdade, mas li a mesma página três vezes sem entender uma linha sequer. Minha concentração havia desaparecido. Peguei um caderno e comecei a fazer uma lista. "Trocar o caminho para casa." "Evitar ruas vazias." "Não usar fones de ouvido." "Pedir aplicativo quando sair da faculdade." Olhei para aquelas anotações. Pareciam regras de sobrevivência. Não a rotina de uma estudante. Fechei o caderno com força. Eu odiava isso. Odiava deixar que o medo decidisse por mim. Passei anos lutando para construir uma vida normal. Agora, bastaram poucos dias para que essa normalidade começasse a escapar pelos meus dedos. --- Quando o expediente terminou, esperei alguns minutos antes de sair. O céu estava coberto por nuvens escuras. O vento carregava o cheiro característico de chuva. Caminhei até o ponto de ônibus mantendo os olhos atentos ao movimento. Duas adolescentes conversavam perto de uma banca de jornal. Um casal discutia baixinho. Um vendedor ambulante organizava seus produtos. Tudo parecia comum. O ônibus demoraria alguns minutos. Sentei-me no banco de concreto e coloquei a mochila ao lado. Sem perceber, comecei a observar cada carro que passava. Cada pessoa que diminuía o passo. Cada rosto desconhecido. Foi então que me dei conta. Eu tinha mudado. Não era mais a mulher que saía da padaria pensando na prova da faculdade ou no jantar que faria quando chegasse em casa. Agora eu calculava rotas de fuga. Saídas. Distâncias. Pessoas ao redor. Meu telefone vibrou. Era um lembrete da faculdade sobre a entrega de um trabalho. Olhei para a tela por alguns segundos. Sorri sem humor. Até poucos dias atrás, aquilo seria minha maior preocupação. O ônibus finalmente chegou. Entrei e sentei perto da janela. Enquanto o veículo se afastava, observei a padaria ficando para trás. Uma pergunta insistia em voltar. Quanto tempo ainda levaria até que minha vida deixasse de ser apenas observada... e finalmente fosse invadida? Sem perceber, meus olhos procuraram um carro preto entre os veículos que vinham logo atrás do ônibus. Não encontrei nenhum. Mas isso não foi suficiente para me tranquilizar. Porque eu já havia aprendido uma coisa. O perigo nem sempre podia ser visto. Às vezes, ele apenas esperava o momento certo para aparecer.
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