Capítulo 15

1395 Palavras
Conrado Eu deveria ter aceitado o café. Foi o primeiro pensamento i****a que tive quando entrei no carro. O segundo foi ainda pior. Eu realmente tinha dito "outro dia". Apoiei as mãos no volante e olhei para a casa de Eva pelo para-brisa. Outro dia. Como se eu pretendesse voltar. Como se fosse perfeitamente normal o delegado responsável por investigar Caio Borges dormir no sofá da irmã dele e, na manhã seguinte, praticamente marcar um café da manhã com a avó da mulher. — Parabéns, Conrado — murmurei. Liguei o carro. Precisava voltar para a delegacia. Precisava descobrir quem eram aqueles homens. Precisava entender como haviam entrado no baile sem chamar atenção e, principalmente, quem tinha cortado a energia. Era nisso que eu deveria estar pensando. Não no cheiro de café vindo da cozinha de Eva. Nem no cabelo dela completamente bagunçado quando saiu do quarto. Muito menos no sorriso que tentou esconder quando a avó começou a me interrogar sem precisar fazer uma única pergunta direta. Coloquei o carro em movimento. Trabalho. Era disso que eu precisava. --- Henrique estava sentado na borda da minha mesa quando cheguei. Olhou para mim. Depois para o relógio. Então novamente para mim. — Bom dia. — Bom dia. Passei por ele. — Dormiu bem? Parei. Lentamente, virei o rosto. Ele estava sorrindo. — O que você quer? — Nada. — Henrique. — Só perguntei se dormiu bem. Joguei a chave sobre a mesa. — No sofá. O sorriso dele aumentou. — Eu não perguntei onde. Droga. — O que temos sobre ontem? A mudança de assunto funcionou. Parcialmente. Henrique ainda parecia se divertir, mas abriu uma pasta. — As câmeras da quadra pegaram dois dos suspeitos antes da energia cair. Colocou algumas fotografias sobre a mesa. Reconheci imediatamente um deles. Boné preto. O mesmo homem que aparecera perto da padaria. — E os outros? — Nada ainda. Peguei a fotografia. — Identificação? — Estamos cruzando. — O carro? — Encontramos abandonado três quilômetros depois. — Impressões digitais? — Equipe técnica ainda está trabalhando. Sentei. — E a energia? A expressão de Henrique mudou. — Isso é interessante. Levantei os olhos. — Fala. — Não foi pane. — Eu sei. — Alguém entrou na área de manutenção e desligou manualmente o disjuntor principal. Meu maxilar se contraiu. — Câmera? — Não existe naquele corredor. Claro. Tudo planejado. Olhei novamente para as fotografias. Eles sabiam onde Eva estaria. Sabiam como entrar. Sabiam como criar confusão. E sabiam exatamente onde cortar a energia. Não estavam improvisando. — Tinha alguém ajudando por dentro — concluí. Henrique assentiu. — É uma possibilidade. Não. Era mais do que isso. Era a explicação mais lógica. --- Passei duas horas analisando imagens. Foi cansativo. Mas valeu a pena. Às onze e vinte, encontramos alguma coisa. — Volta. O agente retrocedeu o vídeo. — Mais. A imagem parou. Um homem aparecia perto da lateral da quadra aproximadamente quarenta minutos antes de Eva chegar. Usava boné claro. Camiseta cinza. Olhou diretamente para uma das câmeras antes de virar o rosto. — Aproxima. A imagem perdeu qualidade. Mesmo assim, dava para ver parte do rosto. — Roda no reconhecimento. O agente começou a trabalhar. Cinco minutos. Dez. Quinze. Então o sistema encontrou uma correspondência parcial. Nome. Marcelo Viana. Trinta e quatro anos. Passagens por porte ilegal de arma, roubo e associação criminosa. Abri o histórico. Uma informação chamou minha atenção. — Henrique. Ele se aproximou. Apontei para a tela. — Olha isso. Marcelo tinha sido preso quatro anos antes em uma operação contra uma organização do Morro do Cruzeiro. Henrique assobiou baixo. — Então os boatos estavam certos. Cruzei os braços. Talvez. Ainda faltava provar. Mas agora tínhamos um fio. E fios podiam derrubar estruturas inteiras quando puxados corretamente. — Quero tudo sobre ele. Endereço. Família. Telefone. Contatos recentes. — Vou pedir. — E ninguém toca nele ainda. Henrique franziu a testa. — Por quê? — Porque quero descobrir quem está dando as ordens. Prender um soldado seria fácil. Encontrar quem o enviara era outra história. --- Perto do meio-dia, meu celular vibrou. Número desconhecido. Abri a mensagem. Nenhuma palavra. Apenas uma fotografia. Meu sangue gelou. Eva. A imagem havia sido tirada naquela manhã. Ela estava diante da porta de casa, provavelmente poucos minutos depois que eu fui embora. Camiseta larga. Cabelo preso. Uma caneca nas mãos. A fotografia fora feita do outro lado da rua. Ampliei. Não havia como identificar o fotógrafo. Outra mensagem chegou. Dessa vez, texto. "Polícia não fica para sempre." Fiquei olhando para aquelas quatro palavras. A raiva veio antes do medo. Fria. Controlada. O tipo mais perigoso. Eles sabiam que eu dormira lá. Isso significava que alguém havia observado a casa durante a noite. Enquanto Eva dormia. Enquanto eu estava no sofá. Alguém permaneceu perto o suficiente para saber quando entrei e quando saí. Levantei tão rápido que a cadeira bateu na parede. Henrique olhou para mim. — O que aconteceu? Mostrei o celular. Ele leu. A expressão mudou. — Merda. Peguei minha arma e a chave do carro. — Vou até lá. Henrique segurou meu braço. — Espera. Olhei para a mão dele. Ele soltou imediatamente. — Pensa. — Já pensei. — Não. Você está reagindo exatamente como eles querem. Aquilo me fez parar. Henrique apontou para o telefone. — Eles mandaram isso para você. — Eu sei. — Então sabem quem você é. — Evidentemente. — E querem que você saiba que estão observando. Respirei fundo. Ele estava certo. A mensagem não era apenas uma ameaça contra Eva. Era para mim. Um aviso. Uma provocação. "Polícia não fica para sempre." Guardei o celular. — Coloca dois homens perto da casa. — Já temos gente monitorando a região. — Quero mais. Henrique me observou por alguns segundos. — Conrado... — O quê? — Cuidado. Franzi a testa. — Com o quê? Ele hesitou. — Com essa investigação. — Seja claro. Henrique soltou o ar. — Você está começando a tratar isso como se fosse pessoal. Minha resposta deveria ter sido imediata. Não foi. Olhei novamente para a fotografia no celular. Eva segurava a caneca com as duas mãos. Não sabia que estava sendo fotografada. Não sabia que alguém a observava. Provavelmente discutia com a avó naquele instante. Talvez estivesse tentando explicar por que um homem desconhecido tinha dormido no sofá. A lembrança deveria ser irrelevante. Não era. — Uma mulher está sendo perseguida porque alguém quer atingir o irmão dela — respondi. — Meu trabalho é impedir. — Eu sei. Henrique permaneceu parado. — Só não esquece que ela é irmã do homem que estamos tentando prender há cinco anos. Meu maxilar travou. — Eu não esqueci. — Tem certeza? Encarei-o. Ele não desviou. Henrique me conhecia havia tempo suficiente para perceber quando eu mentia. O problema era que, dessa vez, eu nem sabia se estava mentindo para ele. Ou para mim. --- Passei o restante da tarde trabalhando. Ou tentando. A fotografia permanecia na minha cabeça. Às quatro, liguei para a equipe de vigilância. Nada suspeito. Às cinco, liguei novamente. Tudo tranquilo. Às seis e quinze, recebi uma informação que me fez abandonar qualquer tentativa de permanecer na delegacia. Marcelo Viana tinha sido localizado. Não perto do Morro do Cruzeiro. Nem escondido em algum galpão. Ele estava dentro de um carro estacionado a poucas quadras da padaria onde Eva trabalhava. Peguei minha jaqueta. Henrique me encontrou no corredor. — Onde vai? — Resolver um problema. — Conrado. Continuei andando. — Não faça besteira. Parei diante do elevador. — Não vou prender ninguém sem provas. — Não foi isso que eu quis dizer. As portas se abriram. Entrei. Henrique permaneceu do lado de fora. — Então o que quis dizer? Ele me encarou. — Não deixa ninguém perceber que Eva virou seu ponto fraco. As portas começaram a fechar. Não respondi. Porque aquela afirmação era absurda. Eva não era meu ponto fraco. Era uma testemunha em potencial. Uma possível vítima. A irmã do homem que eu passara cinco anos tentando colocar atrás das grades. Nada além disso. As portas se fecharam. Olhei para meu reflexo distorcido no metal do elevador. E, pela primeira vez, percebi que talvez o maior problema daquela investigação já não fosse descobrir o que Eva Borges escondia. Era descobrir por que a ideia de alguma coisa acontecer com ela começava a me assustar muito mais do que deveria.
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