Eva
As luzes voltaram quase um minuto depois.
Foi tempo suficiente para transformar o baile em um caos.
Pessoas se empurravam em direção às saídas.
Crianças choravam.
Alguém gritava procurando o filho.
Outros tentavam entender o que havia acontecido.
Conrado manteve a mão firme em meu braço.
— Vamos.
Não discuti.
Pela primeira vez desde que o conheci, obedeci sem fazer perguntas.
Saímos pela lateral da quadra, evitando a multidão. Quando alcançamos a rua, ele olhou para os dois lados antes de me conduzir até a viatura descaracterizada estacionada alguns metros adiante.
Só depois que as portas se fecharam senti o ar voltar aos meus pulmões.
Conrado permaneceu em silêncio enquanto ligava o carro.
Eu também.
O motor ronronava baixo enquanto ele percorria as ruas da comunidade.
Nenhum de nós parecia disposto a quebrar aquele silêncio.
Foi ele quem falou primeiro.
— Você vai para casa.
Olhei para ele.
— Eu já ia.
— Hoje você não fica sozinha.
Franzi a testa.
— Eu sempre fico.
— Hoje não.
A firmeza em sua voz me fez cruzar os braços.
— Delegado...
— Conrado.
Revirei os olhos.
— Conrado, eu consigo cuidar de mim.
Ele não desviou os olhos da rua.
— Eu vi quatro homens cercando você.
Engoli em seco.
— Talvez eles nem...
— Eva.
Ele finalmente me olhou.
— Eles cortaram a energia da quadra.
Meu argumento morreu antes de nascer.
Aquela não tinha sido uma coincidência.
Nem uma impressão minha.
Era real.
Assustadoramente real.
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Quando o carro parou em frente à minha casa, procurei qualquer movimento estranho na rua.
Nada.
As janelas das casas vizinhas estavam apagadas.
Algumas televisões ainda iluminavam as salas.
Um cachorro latiu ao longe.
Tudo parecia tranquilo.
Tranquilo demais.
Desci da viatura.
Conrado fez o mesmo.
— Obrigada por me trazer.
Esperei que ele voltasse para o carro.
Ele não voltou.
Ficou parado diante do portão.
— O que foi?
— Vou passar a noite aqui.
Demorei alguns segundos para entender.
— O quê?
— Aqui.
Apontei para minha casa.
— Na minha casa?
— Sim.
Soltei uma risada incrédula.
— Você enlouqueceu.
— É possível.
— Isso é completamente inadequado.
— Concordo.
— Então?
— Continua sendo a decisão mais segura.
Balancei a cabeça.
— Não.
Ele permaneceu imóvel.
— Não vou entrar.
— Eu não preciso de um policial dormindo na minha sala.
— Não sou um policial agora.
Cruzei os braços.
— Continua sendo um delegado.
— E continua existindo gente querendo encontrar você.
Suspirei, irritada.
— Você acha que eu vou conseguir dormir sabendo que tem um homem praticamente desconhecido no meu sofá?
Ele respirou fundo.
— Provavelmente não.
— Então?
— Também acho que não vou dormir muito.
Apesar da situação, quase sorri.
Quase.
Passei a mão pelos cabelos.
Eu odiava admitir quando ele tinha razão.
Naquela noite...
Ele tinha.
Abri o portão.
— Só hoje.
Ele fez um leve aceno com a cabeça.
— Só hoje.
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Minha casa era pequena demais para visitas.
Sala.
Cozinha.
Dois quartos.
Um banheiro.
Conrado observou tudo discretamente, sem fazer comentários.
Apoiei a bolsa sobre a mesa.
— Não tenho quarto de hóspedes.
— O sofá está ótimo.
Olhei para o móvel.
Velho.
Pequeno.
Definitivamente desconfortável.
— Você vai acordar com dor nas costas.
Ele deu de ombros.
— Já aconteceu antes.
Entreguei um travesseiro e um cobertor.
— É o máximo que posso oferecer.
Ele aceitou.
— Está mais do que suficiente.
Fiquei alguns segundos parada.
Sem saber o que fazer.
Era estranho.
A casa sempre fora meu refúgio.
Agora havia um delegado dentro dela.
E, curiosamente, eu me sentia mais segura do que invadida.
— Boa noite, Conrado.
Ele levantou os olhos.
Pela primeira vez desde o baile, havia um pouco menos de tensão em sua expressão.
— Boa noite, Eva.
Apaguei a luz da sala e fui para o quarto.
Achei que demoraria horas para dormir.
Adormeci em poucos minutos.
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Acordei com o cheiro de café.
Estranhei.
Olhei o relógio.
Sete e vinte.
Levantei rapidamente.
Assim que abri a porta do quarto, encontrei uma cena tão inesperada que fiquei imóvel.
Minha avó estava parada no meio da sala.
Os braços cruzados.
Observando atentamente o sofá.
Segui seu olhar.
Conrado ainda dormia profundamente, coberto apenas até a cintura. O cobertor havia escorregado durante a noite.
Minha avó virou lentamente o rosto para mim.
Depois apontou discretamente para ele.
Ergueu uma sobrancelha.
Quem é?
Levei um dedo aos lábios, pedindo silêncio.
Ela estreitou os olhos.
Depois fez outro gesto, ainda mais curioso.
Namorado?
Meus olhos se arregalaram.
Balancei a cabeça com tanta força que quase perdi o equilíbrio.
Ela sorriu, claramente divertida.
Antes que eu pudesse explicar qualquer coisa, Conrado abriu os olhos.
Demorou alguns segundos para entender onde estava.
Sentou-se devagar no sofá.
Quando viu minha avó, levantou imediatamente.
— Bom dia.
Ela abriu um sorriso acolhedor.
— Bom dia, meu filho.
Conrado lançou um olhar discreto para mim, como se perguntasse quem era.
— Minha avó — respondi.
Ela estendeu a mão antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.
— Prazer. Sou Alzira.
Conrado apertou sua mão com educação.
— Conrado Almeida.
Ela o analisou da cabeça aos pés.
Não com desconfiança.
Com curiosidade.
— Dormiu nesse sofá?
— Sim, senhora.
Ela fez uma expressão de reprovação.
— Esse sofá acaba com a coluna de qualquer um.
Não consegui conter um sorriso.
Conrado também pareceu lutar contra o próprio.
— Sobrevivi.
— Então venha tomar café.
Ela já caminhava para a cozinha.
— Fiz pão na chapa, café fresco e cuscuz.
Conrado olhou para o relógio de pulso.
Depois para mim.
Por fim, voltou-se para minha avó.
— Agradeço muito o convite.
Ela esperou a resposta.
— Mas preciso ir para a delegacia.
Tenho algumas coisas urgentes para resolver.
Minha avó fez um muxoxo.
— Homem que sai sem tomar café trabalha de barriga vazia.
Ele sorriu, dessa vez sem esconder.
— Prometo compensar outro dia.
Percebi o que havia dito no mesmo instante em que ele pareceu perceber também.
Os dois ficamos em silêncio.
Minha avó sorriu de um jeito que não prometia nada de bom.
Conrado pigarreou discretamente.
— Com licença.
Pegou a jaqueta sobre o encosto do sofá e caminhou até a porta.
Antes de sair, seus olhos encontraram os meus.
— Tranque a porta quando eu for embora.
Assenti.
— Obrigada... por ontem.
Ele sustentou meu olhar por um instante.
— Eu faria de novo.
Abriu o portão e desapareceu rua afora.
Fechei a porta lentamente.
Quando me virei, encontrei minha avó parada no corredor, segurando duas canecas de café.
Ela tinha aquele sorriso tranquilo de quem já vivera o suficiente para enxergar o que os outros tentavam esconder.
— Então...
Ela me entregou uma das canecas.
— Você vai mesmo me dizer que esse rapaz passou a noite no seu sofá e eu não preciso saber de absolutamente nada?
Senti minhas bochechas esquentarem.
Pela primeira vez em dias, o perigo não era a conversa mais difícil que eu teria naquela manhã.