"Pessoas perfeitas
não mentem, não bebem,
não brigam, não erram
e não existem."
Paulo Coelho
Alerta de gatilho
Ginny Pov
"Always and Forever"
Esse é o lema da família que eu mais amo nas séries. Os originais, apenar de todas as diferenças e tempo, sempre se mantiveram unidos, se amando e se aceitando.
Infelizmente não posso dizer o mesmo da minha família de sangue.
Psicologicamente falando, meus pais, Moly e Arthur Weasley, são hiper conservadores e obcecados por controlar os filhos devido aos traumas que tiveram por ter um filho na adolescência e depois perde-lo. Percy nasceu quando eles tinham 15 anos, o que levou aos nossos avós os expulsarem de casa, obrigando os meus pais a se virarem sozinhos.
Já quando Percy tinha quinze anos, ele fugiu a noite, bebeu com alguns amigos e dirigiram... todos morreram e isso abalou de mais meus pais.
O luto foi difícil para eles na época e criou um trauma o qual nunca foram dispostos a resolver. E o real problema é Moly e Arthur acabaram culpando a "malandragem" do meu irmão, que segundo eles, "tirou nosso pequeno do caminho certo".
E foi aí que eles começaram a ser cristãos obcecados e extremistas, sendo contra qualquer coisa que lembre minimamente as que "fizeram" Percy morrer.
E sobrou para nós, seus próximos filhos, termos que aguentar toda a paranoia e controle deles devido a falta óbvia de terapia. Por isso sou psicóloga e tão adepta a qualquer tratamento psicológico, pois cresci em um ambiente que me mostrou a necessidade de tratar isso.
As pessoas precisam entender que nossa mente pode se machucar até mais do que o nosso corpo, e do mesmo modo que vamos ao médio pra curar um osso quebrado ou uma gripe, temos que procurar ajuda para tratar os nossos problemas mentais antes que eles acabem dominando nossa vida.
Por falar em perder o controle da própria vida, eu tenho tantos irmãos pois meus pais acreditam que métodos contraceptivos são do demônio... Real, nem sei como eu consegui ser normal sendo criada por eles.
Voltaire disse que preconceito é opinião sem conhecimento, e isso é verdade. Não jugo a religião dos meus pais, mas o fato deles usarem isso como desculpa para as ações preconceituosas deles é problemático. Eu tenho a minha fé, e a minha religião, e isso não impede eu de ser uma boa pessoa, e ter o mínimo de senso.
Mas enfim, eu cresci fugindo a noite para sair com os meus amigos e aprendendo a esconder as coisas dos meus pais. Sempre parecendo ser a única filha mulher perfeita que eles queriam... mas a verdade era bem diferente disso.
Quando eu finalmente declarei que faria psicologia, isso foi uma ofensa para as ideias conservadoras deles a quais incluíam eu completar o ensino médio e arrumar um homem para me casar e construir uma linda família devota...
Credo, não preciso de homem pra nada não meus amores, e não quero ter um bebê chorando nos meus ouvidos vinte quatro horas por dia. No máximo posso ser a madrinha ou a tia maneira, nunca a mãe...
E como diz o ditado, não é porque eu as vezes gosto de uma linguiça que eu preciso levar o porco pra casa.
Foi aí que resolvi seguir o meu caminho, e como uma boa irmã mais velha, ajudei Fred e Jorge seguirem os deles também, quando chegaram na adolescência. Os gêmeos nunca foram bons em esconder esse lado deles que nossos pais repudiam, e na real, ninguém tem que ser obrigado a esconder quem é por tanto tempo só pra agradar os outros.
Voltando a mim, finalmente tive minha liberdade, me formei e virei uma das melhores psicólogas de NY, atendendo até o filho do capeta...
Quem diria. Se meus pais soubessem...
Mas devido a confidencialidade médico paciente, não posso contar nem para vocês o que conversamos em nossas seções exatamente. Mas o que eu posso contar é o quão p**a eu fiquei quando Ron me ligou em plena 6h da matina de uma segunda feira poucos dias antes do ação de graças:
Ron: "Ginerva Weasley. Como assim nossos irmãos pecadores Fred e Jorge fazem parte de uma máfia?"
"Oxe, e eu com isso? A vida é deles. E sério que você está me ligando a f**k 6 da matina pra isso?"
A voz de Ron era descontrolada. E eu até perguntaria se ele estava bem ou tendo um ataque de pânico... mas era 6h da manhã, meu cérebro m*l funcionava, e ele odeia quando "dou uma de terapeuta" para cima dele. Então só segui o diálogo, tentando com afinco não dormir no meio da ligação.
Ron: "Isso é errado em tantos níveis... papai e mamãe vão surtar quando souberem. Uma coisa é sumir de casa, mas outra é ser uma vergonha pra família que nem eles estão sendo..."
"Obvio que você seria um pé no cu pra contar né. E eu acho que eles lutaram muito pra ter um cargo. Até ontem ninguém dos Weasleys falavam deles, e hoje eles vão ser a alguma coisa... eles devem estar orgulhosos de si mesmo"
Ron: "Credo Ginny, você é muito estranha...
Um silêncio pairou no ar. Eu ainda conseguia ouvir a respiração dele, e quase imaginar os seus neurônios se ligando tentando entender tudo isso, e criar uma opinião a respeito dos nossos irmãos.
E uns cinco minutos devem ter transcorrido assim. Quando eu estava quase pegando no sono, ele fez a última pergunta:
Ron: "Mas aqui, vc vai no ação de graças desse ano né?"
"yep"
Desliguei na cara dele sem dó e voltei a dormir.
Bom, no dia seguinte Draco chegou correndo em meu escritório, expulsou o paciente que eu estava atendendo e ficou mais de uma hora me contando a quebra do segundo selo e tudo o que ele estava sentindo por isso.
Aí eu entendi que fudeo. Ron agora sabe do sobrenatural e da máfia, e por isso me ligou... Ele deve estar realmente surtando.
Acho que vou levar os gêmeos pro ação de graças então... o que é um peido pra quem já está cagado.
Teoricamente eu sou obrigada a estar no jantar de ação de graças que o dono do Draco, quer dizer, o Harry vai dar, então que bom que o encontro na Toca vai ser na hora do almoço.
Por isso, aqui estou, 13h (era pra chegar as 11h, mas nunca consigo ser pontual) com Fred e Jorge ao meu lado no batente da porta da nossa antiga casa.
- E se der merda? - Fred perguntou entusiasmado.
- E se não der? - Jorge perguntou fingindo tristeza.
- Mas e se der? - Fred voltou a perguntar com um sorriso diabólico no rosto.
Tive que rir dessa cena. Como eu amo o meu Tico e Teco.
Bati na porta e segundos depois ela se abriu, revelando um ruivo mais velho, beirando aos seus trinta anos, mas ainda muito sarado e em forma. Ele segurava a minha sobrinha nos braços, a qual estava vestida que nem bonequinha, ao ponto deu ter pena dela pela falta de senso de moda dos pais...
- Oi Gui. Oi Aurora, meu anjinho - Cumprimentei o bebê com uma voz bem estranha, mas que chamou a atenção dela, que logo estendeu os bracinhos gorduchos pedindo meu colo. Mas Gui, não permitiu, fazendo-a ficar meio chorona.
- Olá Ginerva. Não sabia que você traria esses pecadores com você... - A cara de Gui era de profundo nojo e repúdio.
Eu não podia me importar menos.
- Da um tempo Gui, nem começa - O cortei entrando na casa e pegando minha sobrinha a força, mesmo sobre protestos do meu irmão.
Aurora é tão parecida comigo quando bebê pelas fotos que vi... os mesmos cabelinhos ruivos, sardinhas no nariz e sorriso sapeca.
- Mãe, pai, os gêmeos estão aqui - Gui gritou fazendo vários paços ecoarem pela Toca, simbolizando que a cambada de ruivos se aproximava.
Me afastei com a neném um pouco pois sabia que daria merda.
- Oi - Fred e Jorge disseram juntos com a maior cara de inocentes do mundo assim que mamãe papai e o resto da linhada chegaram na sala.
- Seus moleques idiotas. Vocês aparecem aqui depois de anos e dizem "oi"? - O patriarca da família questionou indignado.
Os gêmeos olharam um para o outro fingindo confusão antes de dizerem juntos:
- Sim?!
- Pois saibam que vocês não são bem vindos aqui. Foram corrompidos pelo diabo... o seu irmão nos contou. Envolvidos com máfia e demônios?! Sabia que Ron poderia ter sido morto naquele sacrifício do satã?! E vocês estavam lá, armados! Vocês não são meus filhos - Moly disse e até eu senti um gosto r**m na boca.
Nenhum filho deveria ouvir isso dos pais...
- Mãe, pai. Fred e Jorge podem não ser perfeitos, ou do jeito que vocês queriam... mas eles ainda são seus filhos, e ainda estão vivos - Sei que minhas palavras lembraram a eles sobre Percy, pois está estampado nos seus olhos a tristeza e o luto não vivido.
Sempre fui boa de cutucar a ferida. Afinal, sou terapeuta.
Eles culpam o mundo e o d***o pelo que aconteceu com o ruivo mais velho... em vez de aceitar que coisas assim acontecem. Adolescentes bebem e fazem besteiras, e por isso precisam do amor, compreensão e atenção dos pais. Eles deveriam dar mais valor aos filhos que tem, em vez de ficar vinte e quatro horas por dia com medo de perde-los, ao ponto de afasta-los que nem fizeram com os gêmeos só pra não sofrerem de novo...
Isso é egotista e um péssimo jeito de exercer a paternidade e maternidade.
- Não venha nos falar o que é certo ou errado Ginerva. Sabemos como criar nossos filhos, mas acho que, que nem os gêmeos, você só está nos decepcionando. Até agora não se casou, fica aí morando em um apartamento sozinha e trabalhando em vez de criar uma família, ter um marido para te bancar... - Meu pai voltou a falar parecendo os sermões dele, e eu juro que só não taquei algo na cabeça dele pois estou com Aurora nos braços, e seria injusto com ela taca-la em um machista de merda como Arthur.
- O que vocês chamam de decepção, eu chamo de vida própria, felicidade, independência e sucesso profissional. Acorda gente! não vivemos mais na idade média. Mulheres trabalham, se sustentam e não precisam de homem para nada, nem para ter filho, muito menos pra ter um orgasmo de qualidade. Não culpe eu ou os gêmeos por não seguirmos os caminhos de Gui, Carlinhos ou até mesmo Ron... cada pessoa é diferente, e não é porque fomos criados por machistas, homofóbicos, e extremistas religiosos de merda, que nem vocês, que temos que ser assim também. E parem de criticar os diferentes! Entendam de uma vez por todas: Mulher não foi feita pra estar na cozinha, preto na senzala e o gay no armário só porque vocês querem! - Finalmente explodi.
Devo estar mais vermelha que o normal, e minha respiração esta descompassada, mas sinto que tirei um peso do meu peito.
Como psicóloga sei que explosões como essa nem sempre são o melhor caminho, mas as vezes são necessárias para abrir os olhos das pessoas ou simplesmente deixar nossos sentimentos transbordarem um pouco antes que explodamos (seja por dores psicossomáticas, autoflagelação ou outros males) por reprimi-los tanto.
Todos pareciam estáticos com o que eu falei, menos Fred e Jorge que gargalhavam felizes concordando com tudo.
Ron parecia meio perdido, transparecendo realmente pensar nas minhas palavras, apesar de disfarçar muito bem essa confusão mental. Sei que de todos os Weasleys (sem ser eu e os gêmeos) Ronald é o que tem maior possibilidade de enxergar a verdade e não ser mais um completo i****a. Ele inda é novo, ainda consegue se redimir e aprender a ser melhor...
Não posso dizer o mesmo de Gui e Carlinhos, muito menos dos senhores de sessenta e poucos anos na minha frente. Mente fechada de mais...
Carlinhos caminhou até mim saindo se seu torpor, e ousou levantar a mão como se fosse me bater. Tenho certeza que ele faz isso com Marry, que é a noiva dele, e por mais que eu já tenha tentado denunciar, sem que Marry confirme que é agredida, ou eu consiga provas, não há muita coisa que a polícia possa fazer além de ficar de olho.
Mas pessoa nenhuma, muito menos homem, encosta um dedo em mim sem que eu queira.
Segurei firme a mão de Carlinhos no ar com uma das minhas enquanto segurava Aurora contra o meu peita na outra. Ele pareceu surpreso por eu reagir, mas você não vira terapeuta do capeta sem ser obrigada a fazer algumas aulas de defesa pessoal com a Slytherin.
Logo em seguida Fred e Jorge caíram em cima do meu irmão, o tirando de perto de mim e indo ao chão. Não acho injusto ser dois contra um, na verdade acho bem merecido.
Fred deu um belo jab bem no nariz de Carlinhos o que fez um filete de sangue escorrer, enquanto Jorge mantinha o mesmo no chão. Todos na casa gritavam, principalmente Moly e Arthur que pareciam estar orando alto ou algo que, pra mim, parecia muito engraçado dado a situação que se passava.
Ron estava meio perdido no meio disso tudo, ainda mais quando um dos socos do Fred pegou nele sem querer, o que fez o caçula ir ao chão e desaparecer atrás do sofá.
Gui entrou na briga também, mas os gêmeos são treinados pela máfia, e mesmo eu sabendo que eles só estavam descontando a raiva, era divertido ver os meus dois irmãos mais velhos tentarem não levar uma surra bem dada dos mais novos.
Nessa bagunça metade da sala foi destruída. Fleur (minha cunhada) é mãe da Aurora, e parecia se segurar para não rir enquanto se escondia atrás da porta aberta da cozinha. Não sei onde Marry está, mas não importa quanto tempo dure, eu vou ajudar essas duas mulheres incríveis se verem longe dos trastes dos meus irmãos.
Temos que estar aqui uma pelas outras. E não é por que os Weasleys são bonitos, que todos servem para se relacionar saudavelmente.
Já eu, me contive em pegar a pipoca que estava sobre a mesa de centro (a qual agora já está quebrada pela luta), e ficar comendo ela junto com a Aurora, enquanto dávamos boas risadas da confusão, por mais que a bebê deva nem saber o que se passa exatamente.
- CHEGA! DEEM O FORA DA MINHA CASA E NUNCA MAIS VOLTEM! - Meu pai explodiu. Ele parecia um pimentão de tão vermelho.
- Com maior prazer coroa - Jorge brincou, e Fred só deu mais um soco no Carlinhos antes de o seguir para fora.
- Você também Ginerva. Você conseguiu arruinar com o ação de graças e ainda com o resto de dignidade que essa família tinha - Minha mãe me disse chorosa.
- No meu ponto de vista mamãe, esse foi o melhor ação de graças que já tivemos - Disse indo até Fleur e entregando Aurora, além de um papelzinho despercebidamente com um número de emergência caso elas precisassem... O número de segurança da Slytherin, o qual Draco dá para qualquer um de Nova York em situação de risco, para terem um canal a quem recorrer.
- Ron nos contou do d***o e os demônios.. seus irmãos e Potter já estão na perdição do pecado. Não faça o mesmo filha. Você ainda pode ir para o céu, seja uma boa menina... - Meu pai disse.
- Bem, sinto lhes informar que eu sou Bissexual o que para pessoas como vocês é sinônimo de uma pena perpétua no inferno. Além de ser melhor amiga de um monte de demônio, acho que já até trepei com um... pode tentar parar de salvar minha alma pai - E simplesmente assim, eu saí do armário.
Até que não foi tão ruim...
Saí da Toca entrando no Camaro laranja dos gêmeos, que eu sempre achei chamativo de mais.
- É isso aí maninha. Estamos orgulhosos de você - Fred, que estava dirigindo, disse para mim e Jorge concordou, mas eu nem estava prestando atenção.
Minha mente estava focada no vento que entrava as pressas pelos vidros abertos, que adentrava pelas minhas narinas e ia até os meus pulmões. Sabe quando a gente realmente nota que respiramos e como isso é automático?
As pessoas pensam que nós psicólogos temos a vida toda organizada... isso é uma p**a mentira. A gente entende os problemas as nossa volta e nossos próprios sentimentos, mas ainda temos medos e dificuldades de lidar com eles...
E esse ação de graças fez muito bem para meu psicológico, me sinto tão livre...
Eu sempre vou amar minha família, mas me amo a cima de tudo. E no momento que eles foram contra mim, e conta o que é nitidamente correto e inclusivo... eles já não merecem minha dedicação.
Uma dica para quem esta lendo isso da tia psicóloga Gi aqui: família é quem você escolhe, o que nem sempre significa sangue do seu sangue. E quem você decide para amar e ser amado, quem te protege e te coloca como prioridade. É quem te liga perguntando se chegou bem ou se quer companhia, e são as pessoas que você se sente a vontade para ser quem você é, e desabafar o que quiser sem ter medo de parecer ridículo. São as quais você quer proteger e estar ao lado em cada dia chuvoso ou a cada vitória e conquista...
Fred, Jorge, Aurora, Draco, Pansy, Dora, Harry, minha amiga Mya e os outros sonserinos... eles sim são minha família, pois fazem jus ao "Always and forever", e eu não me contento com nada a baixo disso.
- Que saco, nem conseguimos fazer uma boquinha... Nossa mãe pode ser horrível, mas cozinha bem - Fred resmungou me fazendo rir. Ele dirigia avidamente pela estrada que parecia não ter fim, e como Jorge, ele ignorava completamente o sangue nas mãos pelos socos, ou as linhas do fluido vermelho que escorriam de algum machucado no rosto.
Estávamos bem, estávamos juntos, e indo de encontro ao nosso próprio futuro e escolhas.