"Mentira é a pura vaidade de quem precisa se esconder"
Harry Pov
E no minuto seguinte o chão estava normal, e ele não estava mais ali.
Pansy ainda me tinha em seus braços desde que me puxou para trás quando o portal se abriu, me segurando firme com uma força e ternura avassaladora. Essa com certeza foi uma ação meio inusitada vindo dela, mas que me ajudou muito, pois eu literalmente não sentia minhas pernas.
Foi tudo tão rápido, tão... me peguei beliscando minha pele pra ter certeza que não é mais um dos meus pesadelos. Vai que né... mas não.
E só depois que o impacto bateu, e eu percebi que tudo isso é verdade, a minha indubitável vida verídica e megera... que a ficha caiu.
Na verdade, ela me atropelou me deixando só o caco.
Me dei tempo para raciocinar, tentar pensar nas probabilidades e nas chances que tínhamos de tudo isso ser apenas um erro de interpretação... o fato é que cheguei a uma porcentagem boa de chance de tudo isso ser um equívoco, mesmo que no final de merda de outro jeito.
Sempre dá merda, mas talvez não essa calamidade toda eminente.
E esse pensamento teoricamente otimista serviu o suficiente para me deixar minimamente são. Me agarrei as chances, e no que elas representavam:
Esperança. Nem que seja pra nós morremos mais tarde, desde que não signifique agora.
- Você está bem? - Pansy perguntou soando mais séria do que o normal.
Pansy não é do estilo que chora pelos amigos, ela está mais para a que mantem as rédeas e faz todo mundo continuar lutando.
- Não estou, mas vou superar - disse a verdade, me desvencilhando de seu abraço mesmo sobre protesto dela.
Dei um beijo em sua bochecha antes de me direcionar para sair da sala em uma vagareza excessiva. Minha mente ainda era um nevoeiro me deixando atônito, mas eu estava são o suficiente pra saber o que eu precisava fazer para não surtar em níveis extraordinários de descontrole mágico.
O que fazemos para uma panela de pressão não explodir? Liberamos um pouco o ar, o suficiente para a pressão diminuir por um tempo.
- Onde você vai? - A menina perguntou preocupada.
- Extravasar. Só preciso de um tempo para liberar a pressão.... - E sem mais explicações sai da sala e deixei a memória muscular dos meus pés me levar até o tatame de treino.
Hogwarts é bem equipada, e usamos a sala que estou agora para treinar lutas corporais e combates a curta distância. Meus pés nem sentiram a diferença entre o chão gelado de mármore e o tatame azul fofinho depois que tirei o sapato. Na verdade eu não sentia quase nada.
As vezes não sentir é pior do que sentir tudo...
Mesmo estando de saia e moletom, comecei a bater naquele saco de pancadas pendurado pelo teto. Não tive o trabalho de colocar luvas ou enfaixar as minhas mãos, não, apenas bati com toda a força que eu tinha (talvez mais força do que um humano deveria ter), dando chutes, golpes e socos que o próprio Draco me ensinou.
Sei que lágrimas embasavam a minha visão, mas não perdi a determinação e a convicção que é melhor fazer isso e colocar tudo para fora, do que tentar guardar tudo e sofrer mais tarde.
Guardar é ter a eminencia de explodir.
As vezes a gente só precisa sentir, viver na hora para que no futuro não vire uma avalanche que te enterre vivo.
Apenas o barulho das minhas lágrimas e dos meus ossos se batendo contra o couro era ouvido na sala. E de vez em quando um pouco de areia que escorria para o chão por algum furo ocasional que eu tenha feito no saco de pancadas. Em um certo momento, filetes de sangue começaram a contornar os meus dedos também. Tudo ardia pra c*****o a cada contato com o couro, mesmo assim não ousei parar.
Estava descontando não somente a partida do Draco, mas isso dos meus pesadelos, o fato do meu pai ser um grifinório, isso de eu virar um espião, a p***a do apocalipse... Ah, e não vamos esquecer morte dos meus colegas de faculdade naquele m******e, o fato de não termos decifrado o selo a tempo de ajudar a Dora, sobre o tempo em que sofri sem os meus padrinhos, por estar longe dos meus amigos mesmo eu sabendo que eles são babacas, por eles serem babacas e não agirem como os amigos devem agir...
Soquei por não ter respostas do que sou, pela hipótese de perder tudo logo agora que encontrei motivos para ganhar, por estar nessa bagunça toda de sobrenatural antes mesmo de saber a verdade, pelo menininho que achava que era louco e que sofreu por ser incompreendido, pelas memórias que apaguei da minha infância e que poderiam significar algo... e por estar com muito medo de onde tudo isso vai dar.
De como a história termina...
Só sei que devo ter desmaiado em algum momento devido a dor ou pelo próprio acesso de raiva, pois acordei em um dos quartos do castelo com minha irmã enfaixando a minhas mãos (que estavam piores do que eu imaginava) de maneira cuidadosa e calma.
Não apenas elas, mas o meu corpo todo estava com hematomas horríveis.
Agradeci por Luara não ter feito perguntas, na verdade ela apenas fez o melhor com os meus machucados e depois se deitou do meu lado sendo a conchinha maior, cantarolando músicas de p*****a como se fossem cantigas de ninar.
E eu me peguei rindo disso. Me sentindo leve, quase que flutuante... como se tivesse tirado um peso do meu peito, da minha alma...
No dia seguinte eu me sentia como se estivesse passado por uma sessão e tanto de b**m sem a parte do prazer, mesmo assim estava me sentindo melhor por dentro. Minha mente estava mais calma e focada, pronta para encarar o que viesse pela frente.
O círculo íntimo da máfia teve uma reunião para tomar as próximas medidas já que o Draco deve demorar a voltar. Foi estranho o modo como sempre eles olhavam ou me perguntavam antes de realmente tomar uma decisão, como se eu realmente importasse...
Isso me fez muito bem.
Os dias começaram a se passar chatos pra c****e, cada um parecendo durar uma eternidade devido a minha ansiedade. A cada minuto eu olhava para a porta da cobertura na esperança de ver aqueles olhos azuis e a cabeleira platinada. O mesmo se dava em Hogwarts. Sempre que eu sumia por algum tempo o pessoal já ia me procurar na sala do portal, pois sabiam que eu estaria lá, sentado no canto da parede, escrevendo no meu caderno de contos e esperando ele voltar.
Mas isso não estava acontecendo.
E eu percebi que não estava em pânico ou algo assim, estava apenas preocupado e com saudades...
A faculdade voltou e disso eu não senti saudades mesmo, mas eu me enfiei nos estudos. E olha que eu já era um excelente aluno antes.
Nos primeiros dias fiquei meio receoso de voltar a conversar com a Hermione, mas aos poucos ela foi me provando que melhorou. Agora a castanha não fica mais fazendo piadinhas com as coisas, ou falando a cada minuto que sou doido... na verdade, pelo contrário.
Ela vem se mostrado ser, ou pelo menos tentar, uma boa amiga. No entanto, mesmo estando próximos agora, sinto que aquela dependência da amizade dela não existe mais. Eu tenho outras pessoas que querem ser minhas amigas, uma família de sonserinos disfuncional e completamente aleatória, mas que me apoia e me deixar tomar a frente das coisas, confiando em mim... não preciso ser dependente de ninguém, pois eu sou mais.
Meu brilho e meu charme é maior e melhor do que a Sininho.
E com a Mione sabendo disso, e eu sabendo disso, acho que as coisas estão caminhando bem. Mas só com ela, pois ainda não tive coragem de nem sequer olhar para o Ronald.
Tudo tem limites.
Minha irmã esta acabando o Ensino Médio aqui, enquanto se prepara para entrar na faculdade. E posso dizer que, estar com ela tem sido uma aventura. Pra falar a verdade, morar na imensa cobertura do Dray com as meninas, sendo que a gente pode fazer qualquer coisa lá... está sendo uma aventura.
Elas se revezam pra ficar comigo a noite por causa dos pesadelos e dos poderes (os quais vem ficando mais frequentes), mas sem ser isso nos divertimos bastante explorando as coisas e lugares que com certeza o Draco iria surtar se soubesse que estamos futicando.
O tal evento que meu pai queria minha presença na Gryffindor foi adiado por duas semanas, e a princípio isso me deixou contente.
Talvez o Draco voltasse antes desse dia, talvez ele estivesse lá pra ficar de olho e me proteger que nem todas as vezes que ele bancou o maria fifi e me seguiu pensando que eu não estava vendo.... só talvez essa esperança me desse calma e confiança para entrar no meu papel de espião.
Mas de novo me decepcionei. Fevereiro chegou, e nada do meu capetinha sexy.
E agora, aqui estou eu, no carro do meu pai com o motorista nos levando em um lugar que desconheço. Contudo, James parece mais afoito que o normal, e isso me deixa cagando de medo.
Pra onde estamos indo? Que merda vai acontecer? Será que isso tem haver com o apocalipse? A Slytherin tem trabalhado para localizar todos os demônios maiores que estão na terra para assegurar se eles estão seguros (isso enquanto tenta manter a ordem em NY, o que eu descobri dar trabalho pra c*****o), mas até agora nada.
Semanas dessa tensão de saber qual é o selo, mas não poder fazer nada para impedi-lo além de esperar o Draco ou a Gryffindor agir, o que nos deixa com a boca seca, paranoias na cabeça e pesadelos a noite.
É como se estivéssemos prendendo o ar, nos preparando para o pior, o inevitável... odeio isso.
E aqui estou com uma roupa que parece estranha em mim. Não que eu não goste de homens com terno e gravata, mas... prefiro ser fodido por eles e não ser o cara que se veste assim.
Além das escutas mágicas invisíveis (que coçam pra c*****o) que as bruxas da máfia fizeram para que eu possa ouvir o que a equipe de vigilância quer que eu faça, e para que eles escutem tudo o que está acontecendo sem que mais ninguém perceba.
Uma bela farsa... e se der errado, sem Draco como plano B.
James não fez questão de conversar comigo no caminho, e fiquei contente em retribuir o favor. Quando o carro parou percebi que ainda estamos no condado de Nova York, mas com certeza no interior.
Saímos e fui anotando mentalmente a placa de todos os carros que estavam naquele estacionamento deserto. Talvez se eu me esforçar, consigo guardar alguma placa pra passar pra máfia antes de meu cérebro esquecer como faz com as matérias da facu.
Segui em silêncio meu progenitor por um corredor m*l iluminado em uma estrutura que parecia um armazém ou um celeiro. Todos ficaram em silêncio quando adentramos a câmara maior, onde umas trinta pessoas estavam espalhadas.
Tentei não encarar ninguém, mas reconheci alguns filhos de senadores, alguns deputados, um ou outro bandido conhecido por já ter passagem na polícia, uns três policiais e mais um bocado de gente que não conheço.
Todos homens, ricos, brancos, nitidamente héteros... Que belo lugar pra se estar.
- James, estávamos te esperando - Um cara alto e forte falou. O avaliei criticamente tentando deduzir qualquer detalhe que me diga algo sobre ele.
E obviamente ele não é um dos outros lideres. Minha hipótese é que eles não são nenhum desses aqui. Trazer mais de um líder em um mesmo lugar é um descuido nisso de máfia.
Mesmo assim analisei uma a uma daquelas pessoas. Sempre conheça o seu campo de batalha.
- Heitor, bom vê-lo. Bem, aqui estamos. Vamos começar - James falava frases curtas e grossas, se adiantando até o centro, fazendo com que todos se afastassem e eu finalmente pudesse ver o que eles estavam tampando a visão.
Uma mulher, loira, meia idade, amarrada a uma cadeira...
Tive que cerrar os pulsos pra não ter reação. Pois era literalmente o demônio que eu havia sonhado, que agonizava me pedindo ajuda todas as noites me fazendo acordar com o coração disparado.
- O que o seu filho faz aqui? - Um outro homem no canto disse, e eu me recompus notando que estavam todos a me olhar.
Perderam alguma coisa queridos? Ah é, o senso.
- O meu filho vai entrar pra Gryffindor. Chega de ser um mariquinha - James falou com tanto nojo "meu filho" que tive que me esforçar pra manter minha máscara de profunda indiferença.
Certamente palavras doem mais do que armas de fogo.
- Duvido que ele aguente o que verá hoje por muito tempo - Um cara loiro disse dessa vez.
Não liguei, me adiantei até o centro para junto do meu pai, enquanto todos a nossa volta faziam uma espécie de círculo em volta da cadeira.
Meu coração estava disparado com a possibilidade de ser a mãe do Draco. Minha talvez futura sogra... O que eu faria se fosse ela? Não posso quebrar o meu disfarce logo agora que entrei, mas também não posso vê-la sendo torturada...
Na verdade, me dei conta que não importa quem ela seja, não vou aguentar vê-la ser torturada. Pelos meus sonhos, isso vai ser intenso de mais, dolorido de mais... e eu vou sentir tudo por ser uma espécie de empata sensitivo.
Aquele cara deve estar certo, eu sou fraco, não vou conseguir, não vou...
Minha respiração começou a ficar desregulada, e o pensamento de ser um inútil que não consegue ficar sem surtar nem a primeira missão de espião, me fazia surtar mais ainda.
Tudo internamente, pois no lado de fora eu estava impessoal, imparcial e imóvel.
- Bem, essa demônio v***a servirá ao se destino hoje. Filha de um dos príncipes daquele putrefato Inferno, será abençoada com a cura para que possamos continuar com o apocalipse - James fazia seu discurso sobre urros de comemoração dos outros.
POR QUE MANO? Tudo o que eu queria era gritar: Por que trazer o apocalipse? O que vocês tem na cabeça? Titica de Galinha? Se querem morrer é só se matar, pra quer levar a humanidade junto?
Pelo menos ela não é Lilith... não que isso me conforte.
"Merda, eles vão realmente quebrar o selo" - Blaise disse aflito pela escuta.
"Pelo menos não é a mãe do Draco" - A vez de Sirius junto com um barulho de plástico que imagino ser um pacote de salgadinhos.
"Isso não é um alívio seu i****a. Lilith talvez seria forte o bastante pra fugir sozinha, mas essa demônio? Não sabemos, mas se for quem eu estou pensando... com certeza não" - A voz de Pansy estava sanguinária mesmo pela escuta.
Na minha frente James havia acabado de falar mais algumas coisas, e nos afastamos. Um cara mais baixo foi a frente segurando um livro empoeirado, alguns entalhes estavam em sua lombada, fazendo uma parte minha acionar dizendo que esse livro é importante.
Na primeira palavra que o cara disse em uma língua que não entendi bulufas, a mulher amarrada acordou do desmaio, olhando fixamente para frente.
Para mim.
Ela deve ter sentido que sou diferente ou sei lá, pois não parava de me encarar fixamente. Senti meu estomago se afundar uma tonelada e em choque notei: Meu sonho vai virar realidade, só que dessa vez eu estarei realmente aqui, não podendo fazer nada.
Não sei se posso suportar, não...
Como que se para responder a minha pergunta mental, Snape disse pela escuta de modo gélido e puramente calculista. Me obrigando a pensar como o espião que ele treinou:
"Potter, me ouve bem. Estala a língua se você acha que tem como salva-la sem expor sua identidade"
Não ousei mexer a minha língua, pois no fundo eu sabia que não teria como.
Se a Slytherin invadisse agora para impedir o selo, todos sacariam que o único novato do grupo foi quem os traiu e entregou essa localização. E eu não apenas morreria, mas comigo a chance de sabermos quem são os outros dois líderes, finalmente acabar com essa p***a de hidra e com isso impedir o apocalipse.
Quando se estar lutando uma guerra você tem que ser esperto e frio o suficiente para saber quais batalhas ganhar e quais perder. Como Draco costuma dizer: Toda vida importa. Mas Draco não está aqui para dar uma ideia mirabolante e ousada para salvar o dia. Draco não está aqui para tomar a decisão entre a vida de um demônio e uma futura jogada para salvar a todos, e assim carregar o fardo da escolha por todos.
Mas eu estava.
No entanto, a dúvida me consumia. E se eu estiver errado? E se esse selo quebrar só para salvar a minha atual posição como espião, e isso não acabar servindo de nada? E se for em vão?
Vale uma vida?
Não estalar a língua agora, vai dar uma ordem para que todos continuem onde estão, e a mulher vai morrer. E eu vou ter matado mais uma pessoa. Pode não ser a minha bala que nem quando eu matei o cara no segundo selo, mas certamente vou estar dando a sentença de morte dela.
Quem eu sou pra decidir se alguém vive ou morre? Pra decidir quem merece mais viver?
Mas eu acho que alguém teria que tomar a decisão. E melhor eu sofrer com a consciência pesada, do que os outros.
Não ousei mexer a língua, mesmo que isso me partisse por dentro e fizesse o meu coração apertar.
"Você é a pessoa que melhor pode analisar a situação pois está vivendo-a. Quando eu disse que ser espião te quebraria por dentro e desapareceria com uma parte da sua alma, eu estava falando disso. Escolhas, boas ou ruins trazem consequências, então Potter, arque com as consequências. Cumpra essa e todas as missões em honra a todos que vão morrer por isso" - Snape disse e eu tive que morder as bochechas até senti o gosto metálico de sangue para impedir o choro.
Ninguém vence uma guerra, os dois lados sempre perdem.
O primeiro grito da demônio deu a******a para diversos outros, todos ainda mais angustiantes que os nos pesadelos.
Os grifinório continuavam alheios a tortura, convictos que era o certo a se fazer. Bárbaros, desumanos, filhos da puta...
Lágrimas escorriam pelo rosto da demônio, que tentava usar de seus poderes para se soltar, mas eles devem ter feito algo para impedir isso. Runas antigas talvez. Mas quem liga pra esses detalhes quando cada pedido de ajuda proferido pela mulher tocava minha alma e me deixavam tontos.
Até mesmo os meninos na escuta se mantinham em um silêncio macabro. Isso até que Luna disse quase em um sussurro:
"Harry, e se você usar os seus poderes para amenizar a dor? Talvez não possamos salva-la mas você pode ajudar a ser menos doloroso esse processo... para ela partir em paz"
Luna podia estar certa, mas a questão era como convocar os meus poderes sem que ninguém visse, ainda mais que meu pai estava particularmente focado nas minhas reações. Me observando como uma presa observa a caça, a procura de qualquer deslize que provasse para ele que eu sou o fraco que ele acha.
Mesmo assim, eu tinha que tentar.
Fiz que nem como no treinamento com o Dray, controlei a respiração e foquei em sentir as emoções exteriores reprimindo as minhas próximas.
Draco gosta de brincar falando que eu posso ser um espelho (refletir as outras emoções), um diapasão (aumentar as sensações que eu quero, como a paz), um forno (e criar as emoções), ou eu posso ser um receptor delas.
E nesse momento eu tentava receber tudo aquilo que era de mais para o demônio que eu nem sabia o nome.
Era como se eu conseguisse sentir as ondas de eletricidade da dor dela, e as captasse trazendo para mim. Um imã, um para raio...
Coloquei a mão no bolso pra parecer a todos que eu estava entediado, mas na verdade era para esconder o azul e roxo que contornava e subia por ela. Agradeci por estar de terno, e camadas de tecido sofisticado tampassem a verdadeira obra de arte que se passava por ele.
Era difícil não gritar com a descarga de dor que me consumia, mas eu tinha que aguentar, eu tinha que ser forte...
Isso durou quase uma hora de pura tortura, e eu finalmente entendi os meus pesadelos nesse meio tempo. Neles tudo o que a demônio sentia, eu também sentia, e é exatamente isso que está acontecendo agora.
Queria tanto que eu estivesse errado...
O ritual continuava, e cada grito que ecoava pelo ressinto era mais baixo, mas exausto, mais contido... ela estava morrendo. A cada folha do livro que era virada, eu sentia isso. Estávamos próximos.
E eu me sentia um monstro sem empatia por deixar isso acontecer. Mas ai eu olhava para meu pai, e via o sorriso ladino e involuntário que se formava no canto de seus lábios. Nada nele exalava arrependimento, solidariedade...
Ele é que é o monstro.
Antes que a última linha do ritual fosse pronunciada, algo irrompeu pela parede de madeira, esculpindo um círculo perfeito nela com magia.
Os grifinórios se desesperaram e tentaram se esconder em cantos escuros do armazém. Mas a figura que adentrava era impassível e matou dois que estavam mais perto dela antes de sequer a poeira abaixar.
Minha vontade era de jogar o meu pai a seus pés e pedir para mata-lo, mesmo sem saber quem ela era. Mas segui o traste para trás de umas caixas que estavam no canto esquerdo, grandes o suficiente para nos esconder da vista, isso enquanto o outro lado da escuta se enxia de vozes e pessoas me perguntando o que estava acontecendo.
Como se eles não soubessem que eu não podia falar.
Agora com a visibilidade melhor, consegui ver seu longo vestido vermelho vivo decotado, no estilo sofisticado. Seus cabelos metade platinados metade castanho escuro presos em uma trança, e um andar tão confiante e divino que só vi em em uma pessoa...
Essa deve ser Lilith, a mãe do Draco.
- Alguns lacaios de merda de vocês interromperam as minhas férias tentando me capturar. Coitados. Os deixei escapar só para segui-los, e aqui estou. Exijo saber quem são vocês e o que pensam que estão fazendo aqui com uma das minhas criaturas - Sua voz era exatamente como eu imaginava, firme e empoderada, mas sedutora como a do Draco.
"WOW!!! É A MÃE DO DRACO GALERA. ELA VAI BOTAR PRA FUDER" - Nunca gostei dos gritos de Bellatrix, ainda mais quando eles ocorrem do nada no meu ouvido.
As coisas que ocorreram a seguir foram tão rápidas que eu m*l consegui processar.
Um grifinório i****a correu até o centro (onde o livro estava caído), o pegou, leu a última frase no mesmo instante que Lilith o fez desmembrar até que um bolo de tripas se aglomerasse no chão.
Mas o que estava feito estava feito.
Tentei segurar na ligação que tinha entre eu e a demônio amarrada, mas a linha não existia mais. Sua cabeça caiu para trás, com manchas pretas onde era para estar seus olhos, ao mesmo tempo que sangue vermelho começou a fluir pelos machucados abertos, pingando lentamente no chão.
Ela havia sido curada... e estava morta. O quarto selo estava quebrado.
Lilith deve ter se dado conta do que eles tinham feito, pois praticamente urrou de raiva e começou a caçar os grifinórios do celeiro, matando cada um brutalmente. Sem perder a pose, obvio.
Tive ganas de ficar para assistir o espetáculo, mas imagina se ela me mata pensando que sou um deles? Sou gostoso de mais pra isso.
Corri para o carro tendo James logo atrás. Não sei quando se formou, mas uma tempestade horrenda estava a cair me deixando todo ensopado. Entrei no banco do motorista mesmo, já manobrando para sair as pressas, amando a adrenalina de poder ter uma direção tão furtiva assim.
Meu pai liberava um dicionário inteiro de palavrões ao meu lado, abalado como o pinguim no deserto do Saara que ele é.
O povo, pela escuta, me dizia para eu sair dali que eles iriam conversar com Lilith e tirar o corpo da demônio morta para dar um enterro digno dos rituais deles e essas coisas. Assim que eu pudesse eu iria para Hogwarts, até lá eu tinha que continuar com a minha farsa.
- Até que você aguentou bem hoje. E é um bom piloto de fuga, pelo menos o dinheiro que gastei te dando automóveis de presente não foram atoa - E isso era um elogio vindo de James.
Mas eu não me sentia nem um pouco merecedor de qualquer elogio... eu me sentia sujo de algum jeito.
E só queria que Draco estivesse aqui.