01.Pesadelo soteropolitano

1492 Palavras
Nunca entendi por que as pessoas preferem ser feitas de capacho das outras. — É sério! — Não consigo compreender o fascínio do ser humano em apegar-se a aquilo que o machuca. É um masoquismo infernal. Você nasce sem saber que ia nascer, cresce e estuda sem querer estudar, enquadra-se no sistema de trabalho, sem querer trabalhar, por mais doloroso que ele seja, e se regozija ao ganhar um chocolate barato de seu patrão. Assim nos tornamos pessoas, vivendo em um planeta lotado de caixas vazias de sonhos, porém cheias de ilusão. A meu ver, ninguém é de fato feliz, alguém sempre reclamará de algo. Eu mesmo assumo meu luxo de reclamar da vida, é única maneira que dá para aguentar a vivê-la de verdade. Vivo na infelicidade, ou pelo menos tentando buscar todos os dias um motivo para continuar me interessando pela vida. Me admiro mesmo pelas pessoas que se dizem felizes e em paz. — Afinal, sou feito do caos. — Não dá para ser 100% feliz, é utopia demais pensar dessa forma. A vida faz mais sentido se a gente sofre, senão que graça haveria em viver com tudo ao nosso alcance? Alguém sempre tem que sofrer. No meu caso, eu estive sofrendo por muito tempo. Comecei a namorar uma menina de Vera Cruz, se chamava Catarina. Conheci ela na praia, em um daqueles dias que Salvador acorda instável. Ela carregava entre os dados um cigarro, aquele que era o meu favorito. Ao me ver com calça e camisa social não desejou tirar os olhos de mim. — Dia difícil? — Perguntou, a espuma branca das ondas revoltas já molhava nossas canelas. — Difícil? Não. Terrível! — levei as mãos para os bolsos da calça, virei levemente o corpo na esperança de encará-la melhor. — Acabei de ser demitido. — Acabei de descobrir que meu noivo anda me traindo com o pastor dele. Tentei não arregalar os olhos ao receber aquela informação. Fora inútil. — Realmente, um dia terrível! — Estendi a mão aproximando-me dela. Encarei-a com receio de que me olhasse de volta. Não pude evitar em ser fisgado por aquela garota de coração fervente. — Não vai rir, não é? — perguntou esbanjando um olhar revolto e envolvido em tristeza. Protestava contra minha singela vontade de rir daquela situação. — Não é? — Eu bem que poderia! Ela me encarou levantando uma de suas sobrancelhas, levou um dos dedos até aos lábio, veio caminhando lentamente por entre as espumas de verão. — Sabe. Você me é familiar... te conheço de algum lugar. Engoli em seco, tirando as mãos de meus bolsos e levando um cigarro, agarrando-o com os lábios. — Posso dividi-lo com você, se quiser. Podemos comemorar nosso miserável dia. — Estendi a mão para cumprimentá-la, já a puxando para fora do mar. Pensei que minha tarde havia sido rodeada de desgraças, mas ela me arrebatou para tornar meu dia divino. — Otto Dutra. — Catarina. — Trouxe para o rosto uma felicidade genuína. Era como se nunca houvesse tristeza em si. Levei-a até as pedras, havia uma rampa para descermos, e por entre a estreita tira de madeira passava a tubulação de um esgoto levando a água suja até o mar. Havia um banco de pedra cheio de areia ali, ali me sentei, com Catarina ao meu lado. Conversamos como se aquele dia nunca fosse terminar, eu gostava de ouvi-la falar, ficava extasiado em ouvir seus dizeres. Depois a levei para minha casa e trepamos no sofá, aquela mulher tinha um fogo insaciável no meio das pernas e gostava de ficar por cima, o que não era um problema, ela era como uma amazona desgovernada, cavalgando ferozmente em mim. Sentia-me cativo em seu corpo, nos seus entoados rebolar, exuberante como uma deusa deve ser, e eu me fiz de seu mísero humano, insaciável por seu corpo. Ao terminarmos, me deitei no sofá e olhei a moça observar minhas pinturas, ela estava nua e a luz do pôr do sol iluminava as suas curvas, a vi brilhar feito ouro, eu tinha fodido a mulher mais esplêndida da cidade. – O que faz da vida além de pintar? — Disse se levantando para analisar um quadro inacabado no meio da sala. Não se importou em estar sem suas roupas. – Estudo. – O que estuda? – Artes. – Então você só pinta! Como diabos sustenta um apartamento desses? – Vendendo o que p***o. Ela sorriu e deitou-se em cima de mim. O cheiro dos seus cabelos me fez desejar que aquele momento nunca passasse. Namoramos um mês e sem ter muita novidade, mas foi justamente próximo do segundo mês que as coisas começaram a desandar. Naquela noite eu sabia que estava chateada comigo, eu não havia contado sobre Su, nem sobre o bebê. Então fora uma surpresa enorme parra ela ver a minha ex-gravida se mudando para o meu apartamento A levei para dançar, ela parecia estar feliz dançava enquanto bebia, depois bebia mais um pouco se jogava na dança novamente em seguida procurava outra coisa para beber. De repente a chamei de canto, estava preocupado. – Acho melhor eu levar você para casa. — Acho que sei o meu horário certo de ir embora. — Nina... — Era como eu lhe chamava. — Que diabos eu fiz? Seu olhar para mim fora flamejante com as labaredas do inferno. Levou uma das mãos até a cintura, caminhou lentamente em minha direção, batendo os pés no chão com força. — Quando ia me contar que vai ser pai? Ah! Então era realmente isso. — Pensei. — Eu não sabia como contar..., mas eu não traí você com ela, engravidei ela antes de começarmos a namorar... Sua mão quente e esguia estapeou meu rosto antes que eu terminasse minhas justificações. Ela soltou uma série de palavrões que parecia interminável. Virou-se de costas para mim, escondendo seu rosto, protestou feito uma criança emburrada. Um garçom passou por nós, carregando uma bandeja com doses de cachaça, ela o fez parar apenas para tomar quatro doses de uma única vez. A bebida a fez mudar de aparência, engoliu o choro com amargura e avançou para cima de mim, com beijos que mais se assemelhavam a facadas. Por que doía tanto beijá-la naquele estado? Tinha sido os tantos drinks que tomei? Ou a vontade persistente de tirá-la daquele lugar. — Chega! Vamos para casa! — Quero ir para sua casa, Otto! Não para minha! — Okay! Podemos ir para minha casa. Mas antes precisamos resolver o assunto que não lhe contei. — Faltou-lhe sinceridade! Seu canalha! Estava me enganando esse tempo todo! Mas minha maldita raça desconfiada me fez investigar aquilo que tanto escondia! Sei que está vivendo com a mulher que engravidou! Sua voz se posicionava com a altura maior do que de costume. Senti que todos os olhos da festa se focavam em nós dois. — Caty... — Sibilei. — Vai te f***r, Otto! Você é uma sedutora perda de tempo. Estapeou uma de minhas mãos que tentava segurá-la. Avançou para a parte de dentro da casa, onde a música tocava alta, a bebida era servida aos montes, ela queria dançar. Decidi deixá-la sozinha por um tempo, fui até as cadeiras da piscina, poucas pessoas estavam ali, tateei em busca do cigarro, me lembrando do primeiro dia em que conheci Catarina. Um... Dois... Três... Quatro cigarros. Um atrás do outro, como uma chaminé em pleno o inverno. Mesmo não existindo chaminés em Salvador, sentia como se os meus pulmões ardessem como brasas. Estava com raiva de mim mesmo, de minha inaptidão em não ter me aberto com ela antes. — Otto! — Uma voz familiar me chamou, mas tudo que reconheci foram as palavras que a pessoa me dirigia. — Acho que sua namorada está ficando com outro cara na sala de jantar. Fiquei cego de raiva. Explosivo. Há tempos não ficava desse jeito, vou colocar a culpa na bebida como todo bom canalha faz. Não me lembro da caminhada da área da piscina até a sala de jantar, mas lembro-me do rosto do infeliz. Era calvo, muito mais velho do que eu, consequentemente mais velho do que Catarina. Estava com ela disposta na mesa, passando a mão por seu corpo, suspendendo sua saia por inteira, atracavam-se num genuíno beijo. Não pensei duas vezes quando o puxei de cima dela para socá-lo no centro do rosto. O joguei por cima de uma cristaleira caríssima, toda a coleção de whisky quebrou-se com o tombo. Não reparei que havia cortado minha mão esquerda, achei que o sangue que descia vinha do rosto quebrado daquele desconhecido. Tudo estava tão silencioso, me disseram que os gritos naquela noite foram quase intermináveis, e que havia mais pessoas interessadas em gravar a cena do que nos separar. Terminei a noite preso a um banco na delegacia, com os cabelos desgrenhados, os dedos encharcados de sangue e o bom e velho cigarro se fazendo presente em meus lábios.
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