Prólogo. A solidão da morte esquecida.

1554 Palavras
Às vezes, desejar sumir de minha humilde e miserável vida é um pensamento recorrente dentro dos meus devaneios. Sei que a graça da vida é justamente a sua imperfeição, criando sempre caminhos bifurcados por onde passa. Descobri isso um pouco cedo, é claro que de maneira bruta. Minha vivência tornou-se fria desde o meu nascimento, mas endureceu-se quando o caixão de minha mãe desceu a sua sepultura. Depois disso passei a flertar constantemente com a morte. A ideia de deixar de existir crescia fortemente dentro de mim. Até o dia em que conheci aquela maldita garota. Suzana, ou melhor, Su, era uma garota maravilhosa. Tinha a pele marrom claro, cabelos ondulados e longos, os seus olhos eram grandes e cheios de energia. Mas o melhor de sua personalidade era ser tão problemática quanto eu. Morava na graça com os avós paternos, a mãe vivia no interior, o pai morava em São Paulo. Lembro que quando nos conhecemos foi ela quem fez o primeiro contato. Era uma madrugada de junho, mais precisamente, São João, Salvador inteira estava enfeitada de bandeirolas, a festa estava longe de terminar, assim como as brasas dentro da fogueira. Eu estava sentado no meio fio, olhando para o mar do rio vermelho, o meu cigarro favorito estava nos meus lábios, uma garrafa de licor repousava em minhas mãos, impedindo que o meu copo se encontrasse vazio. Ela aproximou-se em silêncio, os seus sapatos velhos e surrados foram a primeira coisa que reparei em si, a segunda fora a sua beleza. — A festa ainda não acabou, sabia? Disse se sentando ao meu lado, agindo como se já me conhecesse. — Minha bateria social descarregou. — Ergui a garrafa. — Estou recarregando. Mas e você? O que faz aqui fora? — Se me der um desses cigarros eu te conto. Ofereci o maço a ela, acendi o seu cigarro com o isqueiro que guardava no bolso da calça. Ela tragou repousando o queixo na mão que segurava o cigarro, os seus olhos grandes e amendoados encaravam-me como se vissem minha alma nua. Su sempre teve um olhar penetrante. — Meus olhos estiveram em você a noite toda. Soltei um leve riso pelas narinas. — Acho que não sou a melhor pessoa da festa para se admirar. — Denis me disse a mesma coisa. Mas acho que posso descobrir sozinha se vale ou não a pena. Espero que valha, Otto Dutra. — Então é amiga de meu irmão? Perdeu alguns pontos comigo. — Garanto que nem se lembrara desses pontos depois que eu te beijar. Atirou o corpo para frente, beijando-me intensamente. Su é o tipo de mulher que gosta de agir, seu lugar costuma ser aquele que ela mesma escolhe. Não sei ao certo o que ela viu em mim. Éramos dois jovens de 21 anos, os erros de nossa juventude pintavam-se de acertos. É claro que a inconsequência de um amor nascido no meio fio de uma rua qualquer do Rio Vermelho, levaria-lhe mais dores do que amores. Mas com certeza Su ainda me ama. Assim passaram-se 2 anos, entre o caos que era o sentimento que corria entre nós ... A primeira coisa que sempre esqueço de fazer quando levanto, ou pelo menos prefiro não fazer, é arrumar a minha cama. Pergunto-me o motivo pelo qual tenho que arrumá-la, vou me deitar nela novamente e ela vai voltar a ficar desarrumada. Acho que a pessoa responsável por criar essa mania de arrumar cama é a mesma que criou a mania de dobrar roupa. E tenho certeza de que é pelo mesmo motivo. Para incomodar a vida alheia. É maravilhoso de verdade incomodar a vida de alguém? Talvez sim. Depende de quem seja. Todo mundo que é meio fodido gostaria de torturar alguém, não pensei que fosse confessar algo tão pesado assim. Não sou a favor de tortura, mas algumas pessoas merecem. Não que eu tenha moral o suficiente para poder julgar o merecimento de alguém que deva ou não ser torturado. Mas tenho certeza de que você, a pessoa que lê essas míseras folhas de bobagem, pensou em uma ou duas pessoas que merecem tal punição. Mas o que posso fazer? As pessoas não são perfeitas, todo mundo é meio cuzão. O difícil é conseguir perceber que você também é. Acordei naquele dia com a campainha de meu apartamento tocando desesperadamente. — Eu morava na Lapa, em um prédio antigo, mas ainda em boas condições de funcionamento. — Estava de ressaca, como quase todos os dias naquele ano. Levantei um pouco tonto, a garganta estava seca, os olhos m*l conseguiam se abrir, demorei um tempo para andar do quarto até a sala. Abri a porta encarando Su com os braços cruzados, sua feição raivosa veio para cima de mim com a fúria de mil leões. Foi adentrando sem que eu a convidasse, tínhamos rompido a alguns meses, mas tivemos muitas recaídas nesse meio tempo. — Eu não acredito que você esqueceu do seu compromisso, Otto! Ainda estava tentando compreender do que ela falava. Fechei a porta e girei nos calcanhares a procura do meu maço de cigarros. — Bom dia, Su... — Bom dia? Você por acaso sabe que dia é hoje? Seu pai está furioso! Tinha que ver a cara da obstetra quando eu disse que não esperaria por você. Franzi o cenho, jogando meu corpo no sofá. — Obstetra? Achei que fosse apenas no dia 15. — Hoje é 15! Esfreguei os dedos nos olhos, havia me perdido completamente no tempo. — Se não fosse o Denis... — Ela continuou. Mas conteve seu comentário em seguida, sabia que minha relação com o Denis era complicada. — Eu sei que tem sido difícil para você desde a morte de sua mãe..., mas eu não tenho culpa disso! Sua filha não tem culpa disso. É, ela estava gravida. Uma das consequências de nossas recaídas. — Me desculpe, Su... eu bebi muito ontem à noite. — Você bebe muito todos os dias, Otto! — Não deveria ter falado com meu pai. — Eu não falei. Foi o Denis! Estou cansada! Cansada de você ser um irresponsável! Seu problema é gostar de estar na merda! — Caminhou em direção à janela. — Por Deus! O que eu tinha na cabeça quando inventei de engravidar de você? A verdade é que meu relacionamento com Su nunca fora dos mais saudáveis, eu era problemático demais, até mesmo para garotas feito ela. Afinal, eu era um bosta! Mas ainda não é hora de falar sobre isso. — Não deveria confiar no Denis. — Soltei a frase me levantando. Não queria vê-la chateada comigo. No fundo tinha medo de perdê-la para meu irmão. — Pior do que você ele não vai ser. Bati a mão na mesa enquanto procurava meu maço de cigarros. Os encontrei no chão, sem saber como havia ido parar ali. — Pelo amor de deus, Su! Eu sei do que estou falando. Ele foi criado tendo tudo do bom e do melhor, cresceu em fazenda... Ele não consegue ser mais merda porque é um só. — Está julgando-o por ter dinheiro? Você também tem dinheiro. — Meu pai, tem dinheiro, eu não! Minha mãe precisou dele por anos, ela ficou doente, eu precisava de dinheiro para o mínimo! E onde ele estava? Comendo p**a! Cheirando pó! Escondendo da esposa que tinha tido um filho com a amante! Eu sou um merda Suzana, eu assumo isso, mas prefiro ser um merda, me f***r arranjando bico, do que tocar no dinheiro dele! — Otto, você não pode culpar seu pai por sua mãe ter morrido. — Mas posso culpar ele por ela ter tido uma vida horrível! — O seu pai conversou comigo. Ele quer vender suas obras, isso te pouparia de muitas dores de cabeça. p***a! A gente vai ter um filho! Pensa um pouco com a cabeça de cima! A vida é muito mais do que se embriagar e viver como se não houvesse um amanhã, porque pode não haver para você, mas vai haver para mim e para nosso filho! Ela nunca me perguntou se eu estava preparado para ser pai. Na verdade, eu não me sentia preparado para nada. Olhei para ela me segurando para não chorar, eu odiava chorar sob a luz radiante do sol recém amanhecido. — Foi isso que conversou com ele? Sabe o que ele quer fazer? Lavar dinheiro usando meu trabalho! Eu não quero ser um vendido! As coisas vão melhorar, vamos mudar para um apartamento de dois quartos, eu quero tentar ser útil para você de alguma forma. — Então você vai ter que se mexer, Otto! O mundo não se passa dentro de um apartamento! Caminhei para perto dela, encarei seu doloroso olhar melancólico. Nunca os compreendi, parecia ter ódio e amor caminhando por dentro de suas retinas. Sei que em minha vida nunca uma pessoa olharia para mim daquela forma, e eu seria castigado pelo resto dos meus dias por tê-la feito sofrer. Era digno tal pagamento, era lúcido seu descontentamento. Sempre fui um cara difícil demais de lidar. Mas ainda não está na hora de revelar tudo que minha miserável vida esteve a oferecer. — Está bem! Eu estou dentro. Foi tudo o que eu lhe disse, sentindo um gosto amargo no fundo de minha garganta. Eu havia me vendido.
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