Abandono

2716 Palavras
 O som da ambulância latejava na cabeça de Do-Yun toda vez que caia em sono profundo, as memórias marcadas desde o acidente penetravam em sua essência. Em meio aos despertares noturno, o garoto lidava com a imagem a sua frente de Ana Luiza em coma sobre a cama. Era para ser um dia feliz, mas seu amor havia parado no tempo. O responsável pela batida não havia sido encontrado, pistas inconclusivas levavam ao pressuposto de um acidente planejado; as câmeras em frente a pista estavam desligadas no tempo da batida, nenhuma placa anotada. Três dias haviam se passado desde o acontecido, e a garota continuava em estudo vegetativo por uma contusão cerebral. Ana não respondia, apenas lutava pela vida em silêncio, e Yun não a deixava sozinha. − Yun, você deveria dormir um pouco. – Aconselhou Adrielly com sua chegada na manhã. − Está tudo bem. Não quero sair de perto dela. − É sério, ou vamos pedir para tirar você dos autorizados a vir vê-la. − Volto em pouco tempo. – Levantou revoltado e saiu repetindo o aviso. Fabíola, agora com seus longos cabelos loiros amarrados em um coque, sentava-se no antigo assento de Do-Yun. As olheiras ao redor dos olhos vidrados na amiga, eram consequência dos últimos dificultados pela preocupação com Ana; a loira não suportava vê-la assim. − Acho melhor você acompanha-lo, Adrielly. – Fabíola gesticulou concentrada. − Por quê? – A morena perguntou curiosa. − Ele não dorme a três dias, vai acabar desmaiando na rua antes de chegar em casa. − Você tem razão. – Adrielly refletiu por alguns segundo, e levantando o dedo indicador, correu atrás do amigo. A sala ficou silenciosa. Os aparelhos apitavam frequentemente monitorando a frequência cardíaca; palavras não saiam de nenhuma boca naquele lugar frio e solitário. Fabíola aproximou sua mão a da paciente, e a segurou fortemente. − Você vai passar por isso, Ana. Tudo vai ficar bem, prometo. – Desabou aos prantos. Corrente, a água do chuveiro exalava calor pelo banheiro por completo enquanto Do se preparava para tomar banho. Preocupado, executava todos os gestos com lentidão e desconexidade. Seus pensamentos giravam em torno da obsessão de voltar para o hospital. − Vai logo para o banho, eu preparo suas roupas na mochila. – Disse a morena pegando as roupas da mão do garoto. O asiático não respondeu, apenas andou até o banheiro e fechou a porta. Adrielly aprontou a mochila do garoto em pouco tempo, e ficou curiosa por achar uma foto revelada dos dois dentro de um dos bolsos do casaco. Eles são muito apegados, pensou consigo mesma. Era evidente que não estava feliz com a situação da amiga, mas apesar disso, precisava ser forte. Tentava ser positiva e pensar que sua Ana não pioraria, uma tarefa difícil. As atividades acadêmicas haviam piorado a situação, embora houvesse ocorrido o acidente, nenhuma das outras intercambistas foi liberada para uma pausa no processo de pesquisa. Segundo eles, a vida de muitas dependeria da ida ao exército. Ou seja, a equipe seguiria incompleta. Aproveitando a saída do garoto já vestido e mais desperto, a morena aproveitaria para contar sobre os planos dos superiores. As palavras adiam em sua garganta. − Do-Yun, preciso contar uma coisa. − Diga. – Olhou para a mochila, na procura de algo. − Fabíola e eu vamos para uma base em Jeju amanhã. Disseram que precisaremos dar continuidade a pesquisa, mas ficarão responsáveis pela Ana. − Responsáveis? Vão mesmo aceitar isso? – O garoto virou o rosto para a garota, perplexo. − Precisamos, não estamos no Brasil, Yun. − Não acha estranho? Eles nem ao menos avisaram os pais dela. − Eu não sei o que responder, Yun. – Disse a morena. − E não venha me dizer que preciso dar mais atenção a ela, porque também estou sofrendo! E não diga que eu deveria fazer algo quando não posso. – Continuou ela. − Eu já esperava isso. – O asiático respondeu pelas costas. − O que? Que nós faríamos isso? − Não, que eles fariam. − Como assim? − Tem algo errado nesse intercâmbio, Adrielly. − Está acusando a organização do intercâmbio por ter feito isso? − Estava pensando que poderia haver com o Hiroki, mas você abriu uma possibilidade. – Yun levou a mão ao queixo. − A Ana me contou que a algum tempo encontrou o Hiro, eles caminharam juntos. Por quê pensou no intercâmbio? – Perguntou ele. − Você me fez pensar nisso. − Vamos lá, Adrielly. Acho que suspeita de algo. − A nossa professora, ela estava estressada mais cedo. Luh fez uma pergunta, mas ela respondeu com raiva. − Quando foi avisado sobre o acidente, Haram levou como algo técnico. E avisou logo de cara que teríamos que continuar a pesquisa. − Espere. – Pediu o garoto. Do-Yun correu até sua mesa e pegou seu celular, vasculhou a galeria e apontou a tela para a garota. A foto de um homem estava a mostra, com roupas pretas e um boné. − O conhece? – Pergunto ele. − Sim, foi o motorista que nos levou até o apartamento no dia em que chegamos na cidade. – Adrielly respondeu. − Não posso voltar mais ao hospital. – Disse assustado. − Como assim? Você estava dizendo agora pouco que não queria sair de lá. − Ele n******e me ver lá. – Yun começava a ficar ansioso, a paranoia subia-lhe a cabeça. − Do-Yun, calma. O que está acontecendo, o que o John fez? − Uma vez vi o Hiroki falando com uma mulher no telefone, e depois disso esse cara apareceu. Disse-me que era um investigador. − Ontem eu o vi conversando com pessoas da recepção no hospital. Por isso não queria sair de perto dela. – O asiático deu fim a sua explicação. − Talvez ele estivesse procurando pistas do Hiroki. O próprio Hiro pode ter causado o acidente. – A morena procurava por novas explicações. − Não consigo acreditar nisso, para min tem algo faltante, Adrielly. − E o que você vai fazer? Deixar a Ana? − Não, mas ela ficará sob supervisão daquele cara. Vocês vão para Jeju, certo? − Sim, por quê? − Espere e não faça nada. Não podemos dizer que sabemos de algo, eu vou dar um jeito de descobrir o que está acontecendo. − Isso é ridículo, Yun. Não estamos em um filme. − Filmes são baseados na vida real, Adrielly. A morena voltou caminhando para o hospital, sozinha. Yun pediu para que a mesma tomasse cuidado com qualquer decisão que tivesse, muitas coisas poderiam estar em jogo. Ao abrir a porta do quarto, Adrielly se deparou com Ana novamente em seu leito, respirando graças a aparelho, e Fabíola ao seu lado. Além dos demais, havia mais alguém: Um homem alto e conhecido que fez seu coração disparar em desespero. John, o motorista estava ali, com roupas discretas e casuais, colocando seus documentos e autorizações de responsabilidade amostra para a loira. A recém chegada sorriu e fez reverência em resposta ao cumprimento do mais velho. − Ele vai ficar responsável pela Ana. Disse que foi mandado pela equipe dos superiores. – Informou Fabíola. − Eu me lembro sobre terem falado sobre. Você é o John, certo? − Sim, fiquei responsável por busca-las no aeroporto, se lembra? – O homem dizia simpático. − Como se fosse ontem. – A morena sorriu falso, queria mata-lo. E odiava aceitar a hipótese de Do-Yun. − John estava me explicando o motivo de não chamarem os responsáveis da Ana. – Fabíola se envolveu na conversa novamente. − Ela já é maior de idade, e preferimos esperar um prazo de melhora para informa-los. Os médicos nos informaram que ela possui 80% de chances a curto prazo. – Disse o asiático. − Entendi. Enfim, tem alguma noticia do intercâmbio? – Naquele momento, todas as características de compaixão e paciência sumiram da essência de Adrielly. O único sentimento vivo ainda, era o ódio. − Vocês partirão amanhã pelo trem. Serão recebidas e instruídas logo após. – O homem responde. − E sentimos muito pelo que aconteceu, daremos apoio ao máximo para ela. Ana não ficará sozinha. − Continuou ele. − Tenho certeza que não. Após algumas horas com a amiga, as duas garotas saíram do hospital juntas. Estavam exaustam e ainda teriam de terminar de aprontar todas os pertences para viagem. A ida para Jeju não possuía o mesmo sentido de antes. − Onde foi o Do-Yun? – Perguntou Fabíola. − Pedi que ele descansasse mais em casa, estava muito cansado. − Estranho ele aceitar isso, estava super preocupado quando saiu do hospital. – A loira pensou alto. − Fabí, não acha estranho tudo isso ter acontecido? A Haram responder a Ana daquela maneira, e o acidente depois? − Não sei, não quero pensar nisso. A Luh precisa ficar bem, única coisa que podemos fazer é esperar pelo melhor, Adrielly. – A morena parou por um instante ao dizer aquelas palavras. – Por favor, não me deixe ver que é pior do que já é. As duas garotas chegaram em casa depois de algum tempo de caminhada. Entraram no apartamento e fizeram o possível para organizar os quartos, tudo estava um caos. Panelas sujas pela cozinha, cobertores pela sala, e muitos lenços; O pequeno animal recebeu as garotas, aos pulos. − Teco! Quem é o fofucho da mamãe? – Fabíola pegou o cachorro no colo, enquanto lhe dava carinho em sua cabeça. Teco latiu e a lambeu. − Precisamos ver onde vamos deixar esse pestinha. – Adrielly passou a mão no animal − Falei com a Bae, ela me disse que podemos deixa-lo lá; − Ela não vai se importar? Foi de ultima hora. − Eu vou deixar dinheiro para os cuidados dele, não se preocupa. − Bom, se está tudo certo. Vamos arrumar as coisas que pediram e da Ana. – A morena sorriu. Enquanto isso, no quartel; o treinamento matinal ocorria conforme o planejado. Soldados corriam pelo campo em hino patriota, ordenados por seus superiores. Hoseok gesticulava de forma a liderar a grande fila humana que seguia com velocidade; Yoongi preparava mais uma das tropas para os exercícios primários. − Soldado Mi-suk, mais rápido! Eun-ji, postura! – O moreno gritava. Todos acatavam as ordens com respeito. Ao fim do treino, os novatos se dirigiram para os banheiros, enquanto os coordenadores pararam para tomar sol e beber café. − Me deve um novo celular. – Disse Jung. − Eu estava bêbado. – Yoongi respondeu. − Queria que eu te deixa-se cair na água? − Não seria uma má ideia. − Você desceu do carro em movimento e caiu no lago dizendo que havia visto a Sophia, está maluco? – Hoseok fitou o amigo com um olhar psicopata. − Era insuportável ficar dentro do carro com a sua amiga. – O loiro travava nas respostas. − Ela riu da sua cara. Sorte que não se lembra por causa da embriaguez. – O moreno se virou para olhar o sol. A luz batia contra seu rosto, o deixando como um ser extremamente formoso. − Soube que as garotas vêm amanhã. – Vendo que estava fazendo papel de bobo, mudou de assunto. − Onde tirou essa informação? − Tenho meus contatos, tudo que envolver a Haram e o Wonsu, faço questão de saber. − Ainda quer se vingar? − Como se você não soubesse disso. − Se continuar pensando na Sophia, não vai conseguir continuar vivendo. E ela não era uma pessoa tão boa. − Não é por ela, é por min. A conversa durou por mais tempo, até chegar ao banheiro para o banho. Todos os outros soldados haviam terminado, o local estava fazia. O loiro ligou o chuveiro e a água corrente começou a cair sobre seu corpo; o amigo fez o mesmo. A fumaça corria pela grande sala, ninguém merecia tomar banho na água fria. − Como suas garotas são? – Min estava curioso. − Adryelly é ruiva, é uma pessoa divertida. O Hiroki me apresentou a Ana, é a mais nova e baixa; vocês seriam bons amigos. − E a Fabíola? − Você não esqueceu. – Hoseok sorriu de cabeça baixa. – Não consigo descreve-la, mas gosto dela. − Wo há quanto tempo não vejo você assim? Quando você se fuder, pode contar comigo. − Obrigado pelo incentivo. − Pelo menos tem bom gosto. Não há nada como brasileiras, um dia ainda quero ir no Brasil. Os homens terminaram de se vestir e seguiram para um compromisso com o Wonsu em uma cidade próxima. Apesar do grande respeito que o marechal possuía, não era de agrado para muitos. Com suas regras rígidas e humor peculiar, irritava a maioria de seus convidados em suas reuniões. Era um desafio manter a conduta, mas se mantinha necessário. Yoongi e Hoseok chegaram ao restaurante na cidade de Jochon- eup um pouco atrasados. Foram recebidos por uma mesa lotada de comandantes, junto a Duck-Young começando seu discurso. Sentaram-se um ao lado do outro, na parte da mesa próxima a saída, longe do marechal. − Como dizia, precisamos mapear as zonas de risco. O governo americano espera que sairemos bem nessa missão. – Disse o Wonsu. − Jung Hoseok e Min Yoongi serão o segundo comando para a ação. O Dawi ficará responsável por passar minhas instruções a você. Os dois balançaram a cabeça. − O objetivo dessa etapa é chegar até a base principal iraniana, sem prejuízos para nós. − Senhor, se me permite dizer. Não acha que os Estados Unidos está nos usando? Iremos em uma área de risco, e é quase impossível que não perderemos homens. – Jung-Hoseok falou com total respeito. − Sem perdas, não teremos progressos. – O Wonsu levantou-se com a uma taça de vinho na mão. – Não se esqueçam que nosso exército ainda possui muito potencial, é os outros países são meros desafios. − Cão que ladra, não morde. E nós, somos o lobo que caça com inteligência. – Por fim finalizou seu discurso propondo um brinde. Ao fim da reunião, os dois juntaram-se ao amigo recém chegado. Hiroki parecia atordoado, Hoseok preocupou-se com o amigo e logo perguntou, enquanto Yoongi preferia o silêncio a discutir. − Pensei que o processo de seleção da Haram iria demorar um pouco mais. Você está bem? − Oh, sim. Apenas um pouco preocupado, fui transferido para uma base em Hallasan. – Hiro respondeu. − Aconteceu algo com a Ana? − É isso que não sei. – Disse cabisbaixo, suas mãos estavam trêmulas. − Você e a Haram brigaram? – Yoongi se intrometeu, rindo de toda a situação. − Resolvi terminar, e estou com medo de que ela vá atrás da Ana, Hoseok. Me sinto incapaz de tudo. − Yah, por que não pede demissão? Aqui não é seu lugar, deveria procurar outro lugar para se dar bem com um rosto bonito. – O loiro falava sem pensar. Logo Jung segurou seu braço. − Chega, Min Yoongi. – Disse Hoseok. − O que? Ele quer se dar bem mesmo sabendo que é culpado? – Yoongi perguntou. − Você sabe? Hoseok, pedi para manter em segredo! – Hiroki estava assustado. − Não acho que a Haram foi capaz de fazer algo, ou de mesmo descobrir. O John não deixaria isso acontecer, sabe disso. – Hoseok explicou. − Tem razão, vou manter um pensamento positivo. − Bom, preciso ir. Tenho deveres na nova cidade. Boa sorte para a missão de vocês, e não se esqueçam de beber antes de morrer! – Hiro despediu-se acenando com um sorriso f*****o. De volta ao quartel, os dois terminaram de preencher formulários tarde da noite. Apesar da pressão para a viagem à noite, Hoseok mantinha seus pensamentos em Fabíola, queria ter certeza que seria ela a garota que viria para a base militar no outro dia. − Yoongi, você sabe como serão as meninas que virão? – Perguntou despertando o amigo do sono profundo. − Não, não soube de nada. Elas chegam amanhã as quatro da tarde. − d***a, não tem como vê-las antes de voltar. Estaremos ocupados com a checagem dos soldados. − Seo-Yun ficou responsável por busca-las, dois garotos também virão. Peço para ele nos avisar sobre elas antes que entremos no avião. − Certo. − Agora me deixe dormir, ou conto para essa Fabíola que você dorme com cueca do Anpaman. 
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