O som da ambulância latejava na cabeça de Do-Yun toda vez que caia em sono profundo, as memórias marcadas desde o acidente penetravam em sua essência. Em meio aos despertares noturno, o garoto lidava com a imagem a sua frente de Ana Luiza em coma sobre a cama.
Era para ser um dia feliz, mas seu amor havia parado no tempo.
O responsável pela batida não havia sido encontrado, pistas inconclusivas levavam ao pressuposto de um acidente planejado; as câmeras em frente a pista estavam desligadas no tempo da batida, nenhuma placa anotada.
Três dias haviam se passado desde o acontecido, e a garota continuava em estudo vegetativo por uma contusão cerebral. Ana não respondia, apenas lutava pela vida em silêncio, e Yun não a deixava sozinha.
− Yun, você deveria dormir um pouco. – Aconselhou Adrielly com sua chegada na manhã.
− Está tudo bem. Não quero sair de perto dela.
− É sério, ou vamos pedir para tirar você dos autorizados a vir vê-la.
− Volto em pouco tempo. – Levantou revoltado e saiu repetindo o aviso.
Fabíola, agora com seus longos cabelos loiros amarrados em um coque, sentava-se no antigo assento de Do-Yun. As olheiras ao redor dos olhos vidrados na amiga, eram consequência dos últimos dificultados pela preocupação com Ana; a loira não suportava vê-la assim.
− Acho melhor você acompanha-lo, Adrielly. – Fabíola gesticulou concentrada.
− Por quê? – A morena perguntou curiosa.
− Ele não dorme a três dias, vai acabar desmaiando na rua antes de chegar em casa.
− Você tem razão. – Adrielly refletiu por alguns segundo, e levantando o dedo indicador, correu atrás do amigo.
A sala ficou silenciosa. Os aparelhos apitavam frequentemente monitorando a frequência cardíaca; palavras não saiam de nenhuma boca naquele lugar frio e solitário. Fabíola aproximou sua mão a da paciente, e a segurou fortemente.
− Você vai passar por isso, Ana. Tudo vai ficar bem, prometo. – Desabou aos prantos.
Corrente, a água do chuveiro exalava calor pelo banheiro por completo enquanto Do se preparava para tomar banho. Preocupado, executava todos os gestos com lentidão e desconexidade. Seus pensamentos giravam em torno da obsessão de voltar para o hospital.
− Vai logo para o banho, eu preparo suas roupas na mochila. – Disse a morena pegando as roupas da mão do garoto.
O asiático não respondeu, apenas andou até o banheiro e fechou a porta.
Adrielly aprontou a mochila do garoto em pouco tempo, e ficou curiosa por achar uma foto revelada dos dois dentro de um dos bolsos do casaco. Eles são muito apegados, pensou consigo mesma.
Era evidente que não estava feliz com a situação da amiga, mas apesar disso, precisava ser forte. Tentava ser positiva e pensar que sua Ana não pioraria, uma tarefa difícil.
As atividades acadêmicas haviam piorado a situação, embora houvesse ocorrido o acidente, nenhuma das outras intercambistas foi liberada para uma pausa no processo de pesquisa. Segundo eles, a vida de muitas dependeria da ida ao exército. Ou seja, a equipe seguiria incompleta.
Aproveitando a saída do garoto já vestido e mais desperto, a morena aproveitaria para contar sobre os planos dos superiores. As palavras adiam em sua garganta.
− Do-Yun, preciso contar uma coisa.
− Diga. – Olhou para a mochila, na procura de algo.
− Fabíola e eu vamos para uma base em Jeju amanhã. Disseram que precisaremos dar continuidade a pesquisa, mas ficarão responsáveis pela Ana.
− Responsáveis? Vão mesmo aceitar isso? – O garoto virou o rosto para a garota, perplexo.
− Precisamos, não estamos no Brasil, Yun.
− Não acha estranho? Eles nem ao menos avisaram os pais dela.
− Eu não sei o que responder, Yun. – Disse a morena.
− E não venha me dizer que preciso dar mais atenção a ela, porque também estou sofrendo! E não diga que eu deveria fazer algo quando não posso. – Continuou ela.
− Eu já esperava isso. – O asiático respondeu pelas costas.
− O que? Que nós faríamos isso?
− Não, que eles fariam.
− Como assim?
− Tem algo errado nesse intercâmbio, Adrielly.
− Está acusando a organização do intercâmbio por ter feito isso?
− Estava pensando que poderia haver com o Hiroki, mas você abriu uma possibilidade. – Yun levou a mão ao queixo.
− A Ana me contou que a algum tempo encontrou o Hiro, eles caminharam juntos. Por quê pensou no intercâmbio? – Perguntou ele.
− Você me fez pensar nisso.
− Vamos lá, Adrielly. Acho que suspeita de algo.
− A nossa professora, ela estava estressada mais cedo. Luh fez uma pergunta, mas ela respondeu com raiva.
− Quando foi avisado sobre o acidente, Haram levou como algo técnico. E avisou logo de cara que teríamos que continuar a pesquisa.
− Espere. – Pediu o garoto.
Do-Yun correu até sua mesa e pegou seu celular, vasculhou a galeria e apontou a tela para a garota. A foto de um homem estava a mostra, com roupas pretas e um boné.
− O conhece? – Pergunto ele.
− Sim, foi o motorista que nos levou até o apartamento no dia em que chegamos na cidade. – Adrielly respondeu.
− Não posso voltar mais ao hospital. – Disse assustado.
− Como assim? Você estava dizendo agora pouco que não queria sair de lá.
− Ele n******e me ver lá. – Yun começava a ficar ansioso, a paranoia subia-lhe a cabeça.
− Do-Yun, calma. O que está acontecendo, o que o John fez?
− Uma vez vi o Hiroki falando com uma mulher no telefone, e depois disso esse cara apareceu. Disse-me que era um investigador.
− Ontem eu o vi conversando com pessoas da recepção no hospital. Por isso não queria sair de perto dela. – O asiático deu fim a sua explicação.
− Talvez ele estivesse procurando pistas do Hiroki. O próprio Hiro pode ter causado o acidente. – A morena procurava por novas explicações.
− Não consigo acreditar nisso, para min tem algo faltante, Adrielly.
− E o que você vai fazer? Deixar a Ana?
− Não, mas ela ficará sob supervisão daquele cara. Vocês vão para Jeju, certo?
− Sim, por quê?
− Espere e não faça nada. Não podemos dizer que sabemos de algo, eu vou dar um jeito de descobrir o que está acontecendo.
− Isso é ridículo, Yun. Não estamos em um filme.
− Filmes são baseados na vida real, Adrielly.
A morena voltou caminhando para o hospital, sozinha. Yun pediu para que a mesma tomasse cuidado com qualquer decisão que tivesse, muitas coisas poderiam estar em jogo.
Ao abrir a porta do quarto, Adrielly se deparou com Ana novamente em seu leito, respirando graças a aparelho, e Fabíola ao seu lado. Além dos demais, havia mais alguém: Um homem alto e conhecido que fez seu coração disparar em desespero.
John, o motorista estava ali, com roupas discretas e casuais, colocando seus documentos e autorizações de responsabilidade amostra para a loira. A recém chegada sorriu e fez reverência em resposta ao cumprimento do mais velho.
− Ele vai ficar responsável pela Ana. Disse que foi mandado pela equipe dos superiores. – Informou Fabíola.
− Eu me lembro sobre terem falado sobre. Você é o John, certo?
− Sim, fiquei responsável por busca-las no aeroporto, se lembra? – O homem dizia simpático.
− Como se fosse ontem. – A morena sorriu falso, queria mata-lo. E odiava aceitar a hipótese de Do-Yun.
− John estava me explicando o motivo de não chamarem os responsáveis da Ana. – Fabíola se envolveu na conversa novamente.
− Ela já é maior de idade, e preferimos esperar um prazo de melhora para informa-los. Os médicos nos informaram que ela possui 80% de chances a curto prazo. – Disse o asiático.
− Entendi. Enfim, tem alguma noticia do intercâmbio? – Naquele momento, todas as características de compaixão e paciência sumiram da essência de Adrielly. O único sentimento vivo ainda, era o ódio.
− Vocês partirão amanhã pelo trem. Serão recebidas e instruídas logo após. – O homem responde.
− E sentimos muito pelo que aconteceu, daremos apoio ao máximo para ela. Ana não ficará sozinha. − Continuou ele.
− Tenho certeza que não.
Após algumas horas com a amiga, as duas garotas saíram do hospital juntas. Estavam exaustam e ainda teriam de terminar de aprontar todas os pertences para viagem. A ida para Jeju não possuía o mesmo sentido de antes.
− Onde foi o Do-Yun? – Perguntou Fabíola.
− Pedi que ele descansasse mais em casa, estava muito cansado.
− Estranho ele aceitar isso, estava super preocupado quando saiu do hospital. – A loira pensou alto.
− Fabí, não acha estranho tudo isso ter acontecido? A Haram responder a Ana daquela maneira, e o acidente depois?
− Não sei, não quero pensar nisso. A Luh precisa ficar bem, única coisa que podemos fazer é esperar pelo melhor, Adrielly. – A morena parou por um instante ao dizer aquelas palavras. – Por favor, não me deixe ver que é pior do que já é.
As duas garotas chegaram em casa depois de algum tempo de caminhada. Entraram no apartamento e fizeram o possível para organizar os quartos, tudo estava um caos. Panelas sujas pela cozinha, cobertores pela sala, e muitos lenços;
O pequeno animal recebeu as garotas, aos pulos.
− Teco! Quem é o fofucho da mamãe? – Fabíola pegou o cachorro no colo, enquanto lhe dava carinho em sua cabeça.
Teco latiu e a lambeu.
− Precisamos ver onde vamos deixar esse pestinha. – Adrielly passou a mão no animal
− Falei com a Bae, ela me disse que podemos deixa-lo lá;
− Ela não vai se importar? Foi de ultima hora.
− Eu vou deixar dinheiro para os cuidados dele, não se preocupa.
− Bom, se está tudo certo. Vamos arrumar as coisas que pediram e da Ana. – A morena sorriu.
Enquanto isso, no quartel; o treinamento matinal ocorria conforme o planejado. Soldados corriam pelo campo em hino patriota, ordenados por seus superiores. Hoseok gesticulava de forma a liderar a grande fila humana que seguia com velocidade; Yoongi preparava mais uma das tropas para os exercícios primários.
− Soldado Mi-suk, mais rápido! Eun-ji, postura! – O moreno gritava.
Todos acatavam as ordens com respeito. Ao fim do treino, os novatos se dirigiram para os banheiros, enquanto os coordenadores pararam para tomar sol e beber café.
− Me deve um novo celular. – Disse Jung.
− Eu estava bêbado. – Yoongi respondeu.
− Queria que eu te deixa-se cair na água?
− Não seria uma má ideia.
− Você desceu do carro em movimento e caiu no lago dizendo que havia visto a Sophia, está maluco? – Hoseok fitou o amigo com um olhar psicopata.
− Era insuportável ficar dentro do carro com a sua amiga. – O loiro travava nas respostas.
− Ela riu da sua cara. Sorte que não se lembra por causa da embriaguez. – O moreno se virou para olhar o sol. A luz batia contra seu rosto, o deixando como um ser extremamente formoso.
− Soube que as garotas vêm amanhã. – Vendo que estava fazendo papel de bobo, mudou de assunto.
− Onde tirou essa informação?
− Tenho meus contatos, tudo que envolver a Haram e o Wonsu, faço questão de saber.
− Ainda quer se vingar?
− Como se você não soubesse disso.
− Se continuar pensando na Sophia, não vai conseguir continuar vivendo. E ela não era uma pessoa tão boa.
− Não é por ela, é por min.
A conversa durou por mais tempo, até chegar ao banheiro para o banho. Todos os outros soldados haviam terminado, o local estava fazia.
O loiro ligou o chuveiro e a água corrente começou a cair sobre seu corpo; o amigo fez o mesmo. A fumaça corria pela grande sala, ninguém merecia tomar banho na água fria.
− Como suas garotas são? – Min estava curioso.
− Adryelly é ruiva, é uma pessoa divertida. O Hiroki me apresentou a Ana, é a mais nova e baixa; vocês seriam bons amigos.
− E a Fabíola?
− Você não esqueceu. – Hoseok sorriu de cabeça baixa. – Não consigo descreve-la, mas gosto dela.
− Wo há quanto tempo não vejo você assim? Quando você se fuder, pode contar comigo.
− Obrigado pelo incentivo.
− Pelo menos tem bom gosto. Não há nada como brasileiras, um dia ainda quero ir no Brasil.
Os homens terminaram de se vestir e seguiram para um compromisso com o Wonsu em uma cidade próxima. Apesar do grande respeito que o marechal possuía, não era de agrado para muitos. Com suas regras rígidas e humor peculiar, irritava a maioria de seus convidados em suas reuniões. Era um desafio manter a conduta, mas se mantinha necessário.
Yoongi e Hoseok chegaram ao restaurante na cidade de Jochon- eup um pouco atrasados. Foram recebidos por uma mesa lotada de comandantes, junto a Duck-Young começando seu discurso. Sentaram-se um ao lado do outro, na parte da mesa próxima a saída, longe do marechal.
− Como dizia, precisamos mapear as zonas de risco. O governo americano espera que sairemos bem nessa missão. – Disse o Wonsu.
− Jung Hoseok e Min Yoongi serão o segundo comando para a ação. O Dawi ficará responsável por passar minhas instruções a você.
Os dois balançaram a cabeça.
− O objetivo dessa etapa é chegar até a base principal iraniana, sem prejuízos para nós.
− Senhor, se me permite dizer. Não acha que os Estados Unidos está nos usando? Iremos em uma área de risco, e é quase impossível que não perderemos homens. – Jung-Hoseok falou com total respeito.
− Sem perdas, não teremos progressos. – O Wonsu levantou-se com a uma taça de vinho na mão. – Não se esqueçam que nosso exército ainda possui muito potencial, é os outros países são meros desafios.
− Cão que ladra, não morde. E nós, somos o lobo que caça com inteligência. – Por fim finalizou seu discurso propondo um brinde.
Ao fim da reunião, os dois juntaram-se ao amigo recém chegado. Hiroki parecia atordoado, Hoseok preocupou-se com o amigo e logo perguntou, enquanto Yoongi preferia o silêncio a discutir.
− Pensei que o processo de seleção da Haram iria demorar um pouco mais. Você está bem?
− Oh, sim. Apenas um pouco preocupado, fui transferido para uma base em Hallasan. – Hiro respondeu.
− Aconteceu algo com a Ana?
− É isso que não sei. – Disse cabisbaixo, suas mãos estavam trêmulas.
− Você e a Haram brigaram? – Yoongi se intrometeu, rindo de toda a situação.
− Resolvi terminar, e estou com medo de que ela vá atrás da Ana, Hoseok. Me sinto incapaz de tudo.
− Yah, por que não pede demissão? Aqui não é seu lugar, deveria procurar outro lugar para se dar bem com um rosto bonito. – O loiro falava sem pensar. Logo Jung segurou seu braço.
− Chega, Min Yoongi. – Disse Hoseok.
− O que? Ele quer se dar bem mesmo sabendo que é culpado? – Yoongi perguntou.
− Você sabe? Hoseok, pedi para manter em segredo! – Hiroki estava assustado.
− Não acho que a Haram foi capaz de fazer algo, ou de mesmo descobrir. O John não deixaria isso acontecer, sabe disso. – Hoseok explicou.
− Tem razão, vou manter um pensamento positivo.
− Bom, preciso ir. Tenho deveres na nova cidade. Boa sorte para a missão de vocês, e não se esqueçam de beber antes de morrer! – Hiro despediu-se acenando com um sorriso f*****o.
De volta ao quartel, os dois terminaram de preencher formulários tarde da noite. Apesar da pressão para a viagem à noite, Hoseok mantinha seus pensamentos em Fabíola, queria ter certeza que seria ela a garota que viria para a base militar no outro dia.
− Yoongi, você sabe como serão as meninas que virão? – Perguntou despertando o amigo do sono profundo.
− Não, não soube de nada. Elas chegam amanhã as quatro da tarde.
− d***a, não tem como vê-las antes de voltar. Estaremos ocupados com a checagem dos soldados.
− Seo-Yun ficou responsável por busca-las, dois garotos também virão. Peço para ele nos avisar sobre elas antes que entremos no avião.
− Certo.
− Agora me deixe dormir, ou conto para essa Fabíola que você dorme com cueca do Anpaman.