Cassandra
Ao acordar, tive uma crise de riso por conta do sonho que tive.
Um . Sonho. Muito . Louco !
Sonhei que finalmente tinha me livrado do Teobaldo, mas, acabei pegando carona com uma caravana de andarilhos e ....
O riso virou choro quando percebi que aquilo tudo não passou de um sonho, chorei muito mais quando puxei o lençol branco e frio que escondia meu corpo .
A minha perna esquerda está engessada do joelho para baixo, não sei se choro por conta da minha perna _ quebrada _ ou pela dor aguda que estou sentindo .
Eu sempre soube que tenho alguns parafusos a menos , mas acabei de comprovar isso quando aceitei carona de um andarilho e pulei de cima de um cavalo em movimento, culpo essa segunda parte aos filmes faroeste que adoro ver .
No filme parece ser tão fácil quando o personagem pula do cavalo galopando, eu sei, fui ingênua tentar imitar uma cena cinematográfica.
Agora não adianta ficar me remoendo, o que está feito está feito!
Apesar de tudo estou feliz por ter me livrado do Teobaldo.
Meu estômago está doendo de fome, meu bumbum doi, minha perna arde como se estivesse em chamas e para completar a sinto a cabeça pesada como se em cada fio dos meus cabelos estivessem com pesos .
A quarto é branco e sem graça, a cama que estou deitada fica no meio do conbado ao lado da máquina que monitora os meus batimentos cardíacos.
Odeio hospital, me sinto claustrofóbica .
Preciso sair daqui ! Com a mão esquerda tiro a agulha fina que passa o soro para a minha veia, o processo de tentar sair da cama foi mais difícil e muito mais muito doloroso , dobrei a perna esquerda para trás e comecei a pular como a Saci Pererê até a porta, a cada pulo o meu cérebro chacoalhava como se estivesse solto .
Quando ia levar a mão na maçaneta da porta a mesma se abriu com um rompante, chocando contra mim e me desiquilibrando .
_ Mas ... que ... p***a ... é ...essa ? _ estava preocupada demais tentando não cair ou apoiar a perna esquerda no chão que nem olhei pra pessoa que xinga a todo vapor .
_ Você é maluca por acaso , garota?! _ fui erguida do chão por braços fortes e bronzeados, levantei o rosto para olhar esse corajoso que me chamou de louca, já tinha uma resposta na ponta da língua, mas, me esqueci assim que dei de cara com um par de olhos castanhos claros que emanava irritação .
Não sei quanto tempo fiquei encarado aqueles par de olhos, mas foi o suficiente pra minhas bochechas corarem e minha garganta ficar seca .
_ Jerônimo? Coloca a minha amiga devolta na cama, seu louco . _ Uma voz feminina fala atrás da gente .
Ele é o primeiro a quebrar o contato visual e começa a caminhar, enquanto analiso o rosto do indivíduo, o queixo quadrado coberto por uma barba rala e crescida, o rosto bronzeado , sobrancelha grossa e quadrada os cabelos ondulados castanhos claros bagunçados pelo vento .
É um homem lindo, pena que não fui com a cara dele _ isso sempre acontece quando me chamam de louca _ .
_ A sua amiga, não estava na cama quando eu entrei . _ Ele fala revirando os olhos.
Sinto o colchão macio nas minhas costas, o tal Jerônimo me coloca sentada por incrível pareça faz isso com delicadeza .
Estava prestando tanta atenção no cara que até me esqueci de mencionar que não tenho amigas .
_ Acho que vochês estão enghanadlos, euh não tenhoo amigasss _ minha voz saiu baixa e estrangulada, não era só a minha cabeça que estava pesada , minha língua também .
Uma mulher baixinha saiu de trás da parede de músculos, ela é jovem e veste roupas chamativas o vestido é verde florescente cheio de pedras e lantejoulas .
_ Haa querida, não se preocupe mais com isso ._ ela fala fazendo um biquinho engraçado e segura a minha mão entre as suas. _A partir de hoje serei a sua melhor amiga!
A minha cabeça parece que vai explodir e com essa moça tagalerando sem parar não está ajudando com nada .
_ Dandara ! Isso lá é hora pra bater papo!? Vá procurar a médico ou uma enfermeira, tá vendo como a garota está ficando branca feito papel novamente _ Jerônimo ralha com ela .
Tento sorri mais o meu sorriso acabou virando uma careta .
A cabeleira dela forma uma áurea quando a mesma vira rapidamente para a porta .
A dor me incomoda tanto que nem me importei com o jeito brucutu do Jerônimo .
_ Quem me trouxe pro Hospital? Afinal, em qual hospital estou ? _ pergunto olhando para o homem parado visivelmente desconcertado aos pés da cama.
Ele apenas dá de ombros e coloca as mãos no bolso da frente da calsa jeans desgastada .
_ Quando você fez aquela acrobacia ridícula e apagou, foi obrigação minha trazer você pro Hospital, tiveram que fazer uma cirurgia pra voltar o osso da sua perna ao ... _ Eu já não estava ouvindo o que ele explicava .
Minha mente ficava repetindo a palavra "cirurgia " várias vezes .
Um detalhe que só uma pessoa sabia sobre mim , é que me morro de medo desse tipo de coisa . Só de imaginar que debaixo desse gesso tem um corte, meu estômago embrulha e tudo ao meu redor fica turvo .
_ Ei! O que foi agora , garota ? _ ouço a voz rouca e potente do homem andarilho como se ele estivesse à vários metros de distância.
_ Você disse cirurgia ? _ minha voz sai baixa e esganiçada.
Com a visão turva vejo as sonbracelhas escuras arquearem ao dizer :
_ Acho melhor esperarmos o médico chegar .
Jerônimo
Saio do quarto tampando as minhas orelhas , Cassandra teve um surto quando o médico confirmou da cirurgia e tirou o gesso revelando o corte com pontos .
O grito dela é estridente, quase me deixou surdo, sinceramente não sei como a Dandara e a equipe de médicos e enfermeiros ainda não saíram de lá com os ouvidos sangrando.
Não é exagero da minha parte, realmente a garota não é tão boa no timbre.
Tudo o que eu queria agora é voltar pra minha barraca e tirar um cochilo, estamos aqui desde de ontem na sala de espera, Dandara insistiu que não deveríamos deixar a sua nova "amiga " sozinha.
Sei que uma hora dessas as coisas por lá já está organizado, nós ciganos, temos um dom de montar um acampamento rapidamente e na mesma velocidade desmontar e dar no pé.
Numa hora dessas as coisas lá no acampamento deve estar muito boas, concerteza está rolando uns churrasco do bom e tequila pra dar e vender, moda de viola pra acompanhar e as canções ciganas que são a nossa marca registrada.
Gosto da vida que tenho, gosto muito, nessa vida não existe a tristeza muito menos desanimação, todos são felizes e animados, somos livres, livres como passarinho fora da gaiola.
Voltei por terra quando Dandara sai do quarto, esbaforada como sempre.
_ Tadinha da Cass _ murmura fazendo uns sons de descontentamento.
Minha irmã está levando essa amizade um pouco séria demais, vê se pode, já até deu um apelido à garota.
A encarei com a sonbracelha arqueada , até que ela começa a falar :
_ Ela não gosta muito bem de cortes, parece que é um tipo de trauma .
Tento controlar o tremor que percorreu pelo meu corpo, o corredor parece te ficado apertado e sem oxigênio.
_ Exatamente que horas ela vai ter alta ? _ pergunto mudando de assunto.
_ É isso que vim dizer, vou precisar sair pra comprar umas coisas, me dê o cartão de emergências. _ Ela estende a mão e coloca a outra na cintura, se fosse em outra situação teria rido, porque o João sempre fala que ela parece uma xícara quando faz essa pose .
_ Pra que o cartão de emergências? _ pergunto, confuso.
_ Não é óbvio? Vou precisar de dinheiro pra comprar os medicamentos que o médico receitou, roupas pra Cass sair do hospital. _ fala enumerando nos dedos .
Suspiro e a entrego o cartão de crédito, que usamos só pra emergências extremas .
_ Enquanto eu estiver fora, faça compania a Cass e se você for não educado com ela, vendo a sua coleção de canivetes _ a baixinha mandona sai machando como um general, botando terror em quem se meter em seu caminho .
Nem a p*u que vou ficar aqui, espero mais algum tempo e começo a andar em direção à saída daquela lugar sufocante mas paro quando me lembro da ameaça de Dandara, sei perfeitamente que ela é bem capaz de compri-la .
_ Diacho! _ xingo assustando uma enfermeira e volto a refazer o caminho, respirando uma , duas, três vezes antes de entrar no quarto.