Adrian
Luna Vargas. Nunca a vi, nem ouvi falar, mas essa garota chegou em minha vida para mudar o rumo das coisas. Bem em um momento complicado, no qual tenho que abdicar de tudo o que mais gosto.
Meu caso com a professora de química não é romântico. Nunca me envolvo com alguém, esperando despertar sentimentos. É apenas uma diversão, pois as garotas da minha idade não fazem ideia de como satisfazer um cara.
Ser pego por Luna, no mesmo dia em que tivemos uma briga acalorada, na frente do colégio todo, foi uma péssima surpresa. Ela claramente me odeia, mesmo sentindo uma atração, que devo confessar que me impressiona, e se essa história chegar aos ouvidos, muito bem apurados, do meu pai, as coisas podem piorar, para o meu lado.
Meu pai não é um cara r**m, ele só é muito exigente, controlador, e odeia ser contrariado. Coisa que adoro fazer. Contudo, ser o líder da alcateia significa muito, muitas responsabilidades, e se eu pisar fora da linha, ele, com certeza, irá me punir.
Não já basta o jogo de lacrosse, no qual tive que abdicar, meu pai, claramente, me tiraria até a liberdade de fazer outras coisas que adoro.
Ele me colocou em um treinamento intensivo e cansativo, para que eu aprenda a me controlar, usar minha força da forma certa, para que eu não machuque alguém, algo que não quero.
Alguns de nós, ao se transformar, sua forma de lobo toma conta da razão, os fazendo se tornar apenas fera, e, descontroladamente, ferir pessoas. Alguns deles, passam meses como lobo, sem voltar a forma humana, e, nesse sentido, meu pai está certo.
Ele tem o dever de proteger nós, a alcateia, e os humanos, que não fazem ideia da nossa existência.
Bem, alguns deles sabem. Caçadores. Grupos, movidos pelo ódio, ou medo, que nos caçam, com o propósito de nos m***r. O que essas pessoas sentem por nós, não é nada benevolente. Eles nos odeiam, e não param para perguntar se é algo intuitivo ou moral.
Mesmo que saibamos que, sim, há lobos que comentem erros gravíssimos, contra a vida dos humanos, nem todos, ou a maioria, age de tal forma.
Quem faz parte da alcateia, segue as regras, caçam em bandos, se protegem, e são punidos, caso aja uma infração como essa. Meu pai tem grandes responsabilidades, e nesse sentido, eu o respeito.
O problema no qual venho me preocupando é: ele quer que eu o siga. Quer que eu herde a empresa e sua posição de líder, no futuro.
Não sei se isso será capaz. Não tenho o mínimo interesse por isso, nem mesmo tenho a habilidade de liderança.
Eu me vejo lá, no meio da floresta escura, os olhos brilhando com a intensidade da lua, que permite que eu veja o que há em minha frente, apesar de que meu instinto lobo também me guie.
À minha frente, estão meus dois amigos, que me guiam no treinamento. Seus olhares sérios denunciando a seriedade do treinamento que está prestes a começar.
Eles sempre dizem: nada de nervosismo. Não pode pensar em nada a não ser nos batimentos cardíacos, no olfato, nas vibrações. O problema é que não consigo, simplesmente desligar a minha mente.
O ar está carregado, os observo atentamente, pois se tirar os olhos deles, podem me derrubar com facilidade. Lentamente, respiro fundo, me concentro, e ouço seus batimentos. Tenho que ficar atento, pois qualquer mudança, significa que vão me atacar, e é exatamente isso que acontece.
Desvio dos seus golpes, um a um, mas falho no fim, pois são bem mais ágeis e com menos preocupações do que eu.
- Vamos garoto, você consegue. – Um deles rosna. – O que está acontecendo com você, hoje.
- Não é como se eu não tivesse problemas juvenis. – Ironizo.
- Problemas juvenis? – O outro ri. – Quer que acariciemos a sua barriguinha?
Mordo a mandíbula, sabendo que é mais uma provocação. Eles são bons nisso.
- Vamos fazer o seguinte, - Jacob diz. – Você termina o treino e levamos você para um passeio. Só precisamos da sua coleira.
- Acha que é uma piada? – Eu não sou bom com provocações. Isso desperta a raiva, no qual não sei controlar, dentro de mim. – Sou uma piada para vocês?
- Adrian – Jacob se aproxima, aparentemente, deixou para trás a sua face de provocador. – Isso é um treino. Se concentre. Deixe essas merdas para outra hora. – Aperto os meus dedos. Meu coração começa a acelerar. A vista escurece, deixando-me apenas uma visão turva, avermelhada. – Tem que controlar a sua transformação.
Meu corpo se transformava, como se uma força primordial tomasse o controle. Minhas unhas se alongavam em garras afiadas, meus músculos se expandiam, os ossos se rearranjavam sob a pele, sem dor, apenas uma sensação estranha de metamorfose.
A consciência se dissolvia enquanto o instinto tomava o comando. Olhei para meus amigos, agora vendo-os como presas em potencial. Um desejo primal de dominação e poder pulsava dentro de mim, obscurecendo qualquer pensamento racional.
Eles recuaram, o medo evidente em seus olhares, sem entender completamente a transformação que eu estava passando. Para eles, eu era apenas um jovem lobo, mas agora, diante deles, eu era algo mais, algo selvagem e indomável.
- Adrian se controle! – Um deles disse, mas naquele momento, eu não podia.
- SAI DA MINHA FRENTE! – Berrei. Minha voz parecia mais grossa ecoava entre as arvores, causando um burburinho entre os animais que estava ali.
Algo me chamava. Olhei para o lado, sem saber para onde ia. Corri, sem saber para onde, e não sabia se fazia isso em pé ou como um quadrúpede. Sentia um cheio. Uma coisa única, na qual me lembrava algo, ou alguém, e foi isso que me guiou.
Atrás de mim, quando olhei, os dois, em sua forma de lobo, corria atrás de mim, e foi aí que percebi que estava usando uma velocidade fora do comum para um humano.
Os olhos amarelos, intensos, se destacavam na escuridão. Voltei a me concentrar no caminho e só parei quando cheguei perto de uma casa. Na verdade, uma mansão.
Ainda entre as arvores, me pus de pé, agarrando a um tronco. Olhando pela janela, um rosto conhecido. Era tão bonita, a luz do luar, que iluminava a sua pele pálida. Luna.
Foi aí que me dei conta do que estava fazendo. Como se um passe de mágica me despertasse, ou talvez fosse os olhos dela, que vieram em minha direção, e naquele momento eu não sabia se ela tinha me visto. Afastei-me, escondendo-me entre a escuridão, sentindo meu corpo voltar ao normal.
- O que estou fazendo? – Perguntei a mim mesmo, assustado. – Por que vim até aqui?
- Adrian! – Ouvi a voz de Jacob, agora, humano. – O que está fazendo?
O encarei, mesmo que com pouca luz, assustado.
- Não sei. – Confessei. – Não sei o que aconteceu.
Ele se aproximou, com cautela.
- Temos que sair daqui.
- Não diga a ele. – Pedi. Jacob sabia do que estava falando. – Não diga que isso aconteceu.
- Você tem que aprender a se controlar, ou vai ferir pessoas. – Alertou.
Olhei em direção a mansão, pensando em Luna, e de alguma forma, eu temia machuca-la. Eu nem a conhecia direito.
- Prometo que vou me esforçar mais.
- A lua cheia está chegando. – Avisou. – É quando tudo se forma ainda pior.
Para os mais novos que eu, essa era a noite que mais temíamos. Quando o instinto é mais forte que a razão humana.