Pré-visualização gratuita ecos do verão
Eu não sei exatamente quando começou.
Talvez tenha sido no momento em que soprei as velas do meu bolo de dezessete anos. Ou talvez tenha sido antes, escondido em algum canto da minha vida, esperando apenas a hora certa para despertar.
Mas desde aquela noite… nada mais é normal.
Meu nome é Sina. E eu acho que tem algo muito errado comigo.
Ou pior… Com o mundo ao meu redor.
Na manhã seguinte ao meu aniversário, acordei com a sensação de que não estava sozinha.
Sabe quando você abre os olhos e ainda sente alguém te observando? Como se o ar estivesse mais pesado, mais… vivo?
Foi exatamente assim.
Fiquei imóvel na cama, encarando o teto do meu quarto, enquanto meu coração batia forte demais para alguém que acabou de acordar.
Silêncio.
Mas não um silêncio comum.
Era um silêncio cheio.
Carregado.
— Sina…
Eu congelei.
A voz foi baixa, quase um sussurro… mas estava ali. Eu tinha certeza.
Sentei na cama num pulo, olhando ao redor.
Nada.
Meu quarto estava exatamente como sempre: a cortina meio aberta deixando a luz da manhã entrar, meus livros espalhados pela escrivaninha, o espelho refletindo um pedaço da parede…
Tudo normal.
Exceto que não estava.
— Quem tá aí? — minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.
Nenhuma resposta.
Só o som do vento lá fora.
Respirei fundo, tentando rir de mim mesma.
— Ótimo, Sina… já começou a ouvir coisa — murmurei.
Mas aquilo não parecia imaginação.
Parecia… real demais.
Os dias seguintes foram piores.
Muito piores.
Primeiro vieram as sombras.
Eu via de canto de olho. Sempre.
Movimentos rápidos.
Como se algo estivesse passando atrás de mim… mas quando eu virava, não havia nada.
Na escola, aconteceu pela primeira vez.
Eu estava no corredor, conversando com a Liah, quando vi claramente uma sombra deslizando pela parede.
Ela não parecia… humana.
Era mais longa. Mais distorcida.
Como se estivesse viva.
— Você viu isso? — perguntei, interrompendo a frase no meio.
— Vi o quê? — Liah franziu a testa.
A sombra já tinha sumido.
— Nada… — respondi, tentando ignorar o arrepio que subia pela minha espinha.
Mas eu sabia o que tinha visto.
E aquilo não era normal.
Depois vieram as vozes.
Sempre baixas.
Sempre me chamando.
Às vezes eu não entendia o que diziam. Outras vezes… eu entendia perfeitamente.
— Não fuja…
— Já começou…
— Você é a chave…
A última frase me fez perder o sono.
“Você é a chave.”
Chave de quê?
Eu não queria ser chave de nada.
Eu só queria minha vida normal de volta.
Mas o pior de tudo…
Aconteceu no meu quarto.
Sozinha.
À noite.
Sempre à noite.
Eu estava sentada na cama, tentando estudar, mesmo com aquela sensação constante de que algo estava me observando.
O silêncio era sufocante.
Foi quando a caneta caiu da minha mão.
Sozinha.
Eu nem estava me mexendo.
— Tá… — respirei fundo. — Deve ter escorregado.
Me abaixei para pegar.
Foi quando o livro na mesa caiu também.
Fechou com um baque seco no chão.
Meu coração disparou.
— Não… não, não…
Me levantei devagar, encarando a escrivaninha.
E então…
A cadeira se arrastou.
Sozinha.
Um som lento, pesado, arranhando o chão.
Eu não consegui me mexer.
— Tem alguém aqui? — minha voz saiu trêmula.
Silêncio.
E então…
A janela bateu com força.
O vento invadiu o quarto, gelado demais para uma noite comum.
As cortinas começaram a se agitar…
E eu vi.
Refletido no espelho.
Uma sombra atrás de mim.
Alta.
Imóvel.
Observando.
Meu corpo travou.
Eu não conseguia nem respirar direito.
Fechei os olhos com força, contando mentalmente.
Um.
Dois.
Três.
Quando abri… Não havia mais nada.
Naquela noite, eu não dormi. Fiquei sentada na cama, abraçando meus joelhos, tentando encontrar alguma explicação lógica para tudo aquilo.
Ansiedade?
Estresse?
Alucinação?
Mas… e os objetos se movendo?
E o frio? E a sensação constante de que eu não estou sozinha?
Isso não pode ser só coisa da minha cabeça.
No dia seguinte, desci para o café da manhã como se nada tivesse acontecido.
Minha tia Betty estava na cozinha, como sempre, cantarolando enquanto preparava café.
— Dormiu bem? — ela perguntou, sorrindo.
Por um segundo, pensei em contar tudo.
Mas… como eu explicaria?
“Oi, tia, acho que tem sombras vivas me seguindo e vozes me chamando”?
Ela ia achar que eu enlouqueci.
— Dormi… — menti.
Ela me lançou um olhar rápido, como se não tivesse acreditado completamente.
Mas não insistiu. Melhor assim.
Mais tarde, no meu quarto, fiquei encarando o colar no meu pescoço. O único que eu tenho desde… sempre.
Eu nunca tirei. Nunca consegui.
Passei os dedos por ele, sentindo um arrepio estranho.
Foi quando ouvi novamente. Mais claro do que nunca. Mais perto.
— “As dezessete luas começarão em breve."
Meu corpo inteiro gelou.
— Quem tá falando comigo?! — gritei, girando no quarto.
Nada.
Mas dessa vez… Eu sabia.
Isso não ia parar.
Isso só estava começando.
E no fundo… Uma certeza começou a crescer dentro de mim.
Sombria.
Inevitável.
Eu não estou ficando louca.
Eu estou… Despertando.
então, começaram as férias. O verão sempre teve um gosto diferente para mim.
Enquanto outras pessoas falavam de liberdade, festas e risadas sem fim, o meu verão era silencioso… quase como um segredo guardado entre as árvores e o céu. Talvez porque, mesmo cercada por uma família que me amava, eu sempre tive a sensação de que havia algo em mim que não pertencia completamente àquele mundo.
Meu nome é Sina. E essa é a história de como tudo começou a mudar.
As férias daquele ano foram… perfeitas. Estranhamente perfeitas.
Meus pais — Laura e Henrique — decidiram alugar uma casa afastada da cidade, perto de uma floresta densa que parecia não ter fim. Eles sempre diziam que precisávamos de “tempo em família”, e, sinceramente, eu nunca reclamava. Eu os amo. Mesmo sabendo, no fundo, que não compartilho o sangue deles.
Fui adotada quando ainda era bebê. Nunca senti falta de algo específico… mas sempre senti falta de algo indefinido.
Minha irmã, Elise, é o oposto de mim. Ela é luz. Literalmente. Onde ela vai, tudo parece mais leve, mais fácil. As pessoas gostam dela instantaneamente. E eu? Bem… eu observo.
— Sina, você vem? — Elise gritou da varanda no primeiro dia, com aquele sorriso que parecia iluminar até o céu nublado.
Eu estava parada olhando para a linha da floresta. Havia algo ali. Não algo que eu pudesse ver… mas sentir.
— Já vou — respondi, desviando o olhar.
Mas a verdade é que, durante toda a viagem, aquela sensação nunca me deixou.
A casa era antiga, feita de madeira escura, com janelas grandes e um cheiro constante de terra molhada. À noite, o vento atravessava os corredores como um sussurro… e, às vezes, eu jurava ouvir algo mais.
Não contei isso a ninguém.
No segundo dia, saí sozinha para caminhar. Meus pais estavam preparando o almoço, e Elise estava ocupada tentando tirar fotos “perfeitas” para suas redes sociais.
A floresta me chamou.
Sim, chamou.
Cada passo que eu dava em direção às árvores parecia… inevitável. Como se eu já tivesse feito aquele caminho antes, mesmo sabendo que nunca estive ali.
As folhas secas estalavam sob meus pés, e o ar ficava mais frio à medida que eu avançava. Então eu parei.
Porque ouvi.
Uma voz? Não exatamente.
Era mais como um pensamento que não era meu.
“Você voltou…”
Meu coração disparou.
— Tem alguém aí? — perguntei, minha voz falhando no final.
Silêncio.
Mas não um silêncio comum. Era pesado. Vivo.
Eu devia ter voltado naquele momento.
Mas não voltei.
Dei mais alguns passos… até encontrar uma clareira.
E foi ali que senti pela primeira vez.
Algo dentro de mim respondeu àquele lugar.
Como se uma parte esquecida de quem eu sou tivesse despertado.
Senti um arrepio subir pela minha espinha, mas não era medo. Era… reconhecimento.
Então a sensação desapareceu.
Assim, de repente.
Voltei correndo para casa, tentando convencer a mim mesma de que era só imaginação.
E, durante o resto das férias, não toquei mais no assunto.
Mas as coisas começaram a mudar.
Pequenas coisas.
Sombras que pareciam se mover sozinhas.
Reflexos estranhos no espelho.
E sonhos…
Sonhos com olhos brilhando na escuridão.
—
O caminho de volta para casa deveria ser tranquilo. Depois de dias fora, tudo o que eu queria era voltar para o meu quarto, fingir que nada estava acontecendo… fingir que eu ainda era normal.
Mas, no fundo, eu já sabia. Nada mais seria como antes.
— Sina, para de olhar pra janela desse jeito, você tá me dando medo — Elise resmungou do meu lado, abraçada ao seu ursinho.
Forcei um sorriso.
— Tô só distraída.
Mas não era verdade.
Desde que entramos no carro, aquela sensação voltou.
Como se algo estivesse nos acompanhando.
Meu pai, Henrique, dirigia concentrado. Minha mãe, Laura, mexia no celular no banco da frente. Minha tia Betty conversava animadamente sobre as férias.
Tudo parecia normal.
Exceto o fato de que eu não conseguia parar de olhar para a estrada. Para as árvores passando rápidas demais…
Como se algo estivesse entre elas.
Observando.
Foi então que aconteceu. Tudo em segundos.
Um vulto.
Um impacto.
E um grito preso na minha garganta.
BAM!
Algo caiu com força no para-brisa.
Minha mãe gritou. Elise começou a chorar. Meu pai freou bruscamente, fazendo o carro derrapar levemente.
— O QUE FOI ISSO?! — Laura gritou, desesperada.
Meu coração disparou.
Mas eu… Eu não gritei.
Porque eu vi. Ele estava ali.
Sobre o capô do carro.
Imóvel por um segundo que pareceu uma eternidade.
Um garoto.
Não…
Algo além disso. Seu cabelo loiro estava bagunçado, quase brilhando sob a luz fraca da estrada. A pele era pálida demais. Irreal demais.
Mas o que me prendeu…
Foram os olhos.
Olhos escuros.
Profundos.
E… tristes.
Tão tristes que doía.
O mundo inteiro pareceu desaparecer.
Os gritos. O choro da Elise.
A voz desesperada da minha mãe.
Nada mais importava.
Só ele.
E aquele olhar fixo em mim Como se ele já me conhecesse.
Como se estivesse… me esperando.
E então… Ele piscou.
Devagar.
Como se estivesse tão surpreso quanto eu.
Meu coração bateu ainda mais forte.
E uma sensação estranha tomou conta de mim. Como se eu já tivesse visto aquele rosto antes. Como se ele fizesse parte de mim de alguma forma impossível.
— Sina… — a voz dele não saiu da boca.
Mas eu ouvi.
Dentro da minha cabeça.
Clara.
Suave.
Dolorosa.
Eu prendi a respiração.
— Você… — sussurrei, sem perceber.
E então, tão rápido quanto apareceu…
Ele desapareceu.
Saltou do carro com uma velocidade impossível, sumindo na escuridão da estrada.
Como uma sombra. Como algo que nunca deveria ter estado ali.
— Ele… ele tá bem? — minha mãe perguntou, tremendo.
— Eu nem vi direito! — meu pai respondeu, olhando pelo retrovisor.
— Era uma pessoa?! — Betty disse, assustada.
Eu não conseguia falar. Levei a mão até o meu colar, sentindo-o estranho contra minha pele, como se estivesse… quente.
Fechei os olhos por um instante, tentando recuperar o fôlego. Mas aquela imagem não saía da minha mente.
O cabelo loiro.
A pele pálida.
E aquele olhar…
Carregado de tristeza. Carregado de algo que eu não conseguia explicar.