Agora estou de volta.
De volta à minha vida “normal”.
Sentada na sala de aula, ouvindo o professor falar sobre algo que eu não consigo prestar atenção.
Porque aquela sensação… voltou.
Mais forte.
Mais próxima.
Eu olho pela janela da escola.
E vejo.
Por um segundo… apenas um segundo…
Uma sombra parada entre as árvores do outro lado da rua.
Observando.
Observando a mim.
Meu coração acelera.
E, dessa vez, eu sei.
Não é imaginação. Algo veio comigo da floresta. E seja lá o que for…está me chamando novamente.
O pátio da escola de Vale Sereno sempre foi igual. Barulhento, mas vazio.
As pessoas conversam, riem, vivem pequenas vidas dentro de círculos que nunca mudam… e, ainda assim, parece que nada de verdade acontece ali.
Eu estava encostada perto da grade, olhando para as árvores do outro lado do muro.
Não eram diferentes das outras árvores da cidade.
Mas, desde que voltei das férias… eu não consigo parar de olhar para elas.
O vento soprou leve, fazendo as folhas se moverem.
E, por um instante…
Eu tive certeza de que algo se movia junto com elas.
Algo que não era só sombra.
— Uau… — uma voz interrompeu meus pensamentos. — Tá tentando hipnotizar uma árvore ou ela te deve dinheiro?
Fechei os olhos por um segundo, já sabendo quem era.
Beyle West.
Abri devagar e virei o rosto, encontrando aquele sorriso debochado de sempre. Ela estava impecável, como sempre — cabelo perfeito, postura perfeita… filha perfeita do prefeito perfeito de uma cidade perfeitamente sem graça.
Ao lado dela, Liah Shannon segurava o riso, claramente se divertindo.
— Talvez ela esteja esperando a árvore responder — Lia completou, inclinando a cabeça, me observando com curiosidade genuína. — Vai que acontece, né?
Revirei os olhos, cruzando os braços.
— Vocês duas não têm nada melhor pra fazer?
— Não — Beyle respondeu imediatamente. — E você claramente também não, já que tá aí encarando o nada com tanta intensidade.
— Não é “nada” — deixei escapar, antes de conseguir me segurar.
As duas trocaram um olhar rápido.
Ótimo.
Agora eu parecia oficialmente estranha.
— Então o que é? — Lia perguntou, dando um passo mais perto. O tom dela não era de deboche… era diferente. Mais suave. Mais atento.
Hesitei.
Porque eu não sabia responder.
Ou pior…
Talvez soubesse, mas não queria dizer em voz alta.
— Esquece — murmurei, desviando o olhar de volta para o pátio.
Beyle soltou uma risadinha.
— Ah, claro. A Sina misteriosa ataca novamente.
— Para, Beyle — Lia cutucou ela de leve. — Você sabe que ela sempre foi assim.
“Assim.”
A palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Diferente.
Deslocada.
Errada.
Antes que eu pudesse responder, senti.
De novo.
Mais forte.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
O ar pareceu ficar mais frio, mais pesado…
E, sem pensar, meus olhos voltaram para as árvores.
Dessa vez, eu vi.
Por um segundo rápido demais para ser real…
Uma sombra mais escura que as outras.
Parada.
Me observando.
Meu coração disparou.
— Sina? — Liah chamou, preocupada. — Você ficou pálida.
pisquei, e não havia mais nada lá.
Só árvores, vento e Vale Sereno sendo… normal.
Mas eu tinha visto algo.
— Eu tô bem — respondi rápido demais, me afastando da grade. — Só… só tô cansada.
O caminho da escola até nossas casas é sempre o mesmo.
A mesma calçada rachada, as mesmas árvores alinhadas como soldados cansados, as mesmas casas silenciosas observando tudo como se guardassem segredos que ninguém nunca conta.
Mas, naquele fim de tarde… tinha algo diferente.
Ou talvez fosse só a conversa.
— Eu ainda não acredito que finalmente chegou o dia — Beyle disse, praticamente saltando ao meu lado. — Tipo, esse baile tem tudo pra ser o evento do ano em Vale Sereno. O que, convenhamos, não é difícil.
Revirei os olhos, mas um pequeno sorriso escapou.
— Nossa, que expectativa alta.
— Ah, por favor, Sina — ela jogou o cabelo para trás com um ar dramático. — Eu vou com o Erick Duarte. Isso automaticamente torna a noite histórica.
— Histórica ou previsível? — murmurei.
Liah soltou uma risada ao meu lado.
— Ela tem um ponto.
Beyle fingiu estar ofendida, colocando a mão no peito.
— Vocês são invejosas, isso sim. Nem todo mundo pode ser convidada pelo garoto mais popular da escola.
— Eu nem queria — respondi, dando de ombros.
— Claro que não queria — Beyle rebateu, estreitando os olhos. — Você nem gosta dessas coisas.
E ela estava certa.
Eu não gostava.
Multidões, música alta, gente demais… e aquela sensação constante de não pertencer.
Mas, dessa vez…
Eu não sabia exatamente o porquê, mas uma parte de mim estava inquieta.
Como se aquele baile fosse… importante.
— E você, Liah? — Beyle mudou de assunto rapidamente, com um sorriso malicioso surgindo. — Vai ou não vai resolver sua vida amorosa hoje?
Liah travou na hora.
— Eu… não sei do que você tá falando.
— Ah, por favor — Beyle riu. — Todo mundo já percebeu.
— Não, não percebeu! — Liah respondeu rápido demais, ficando levemente vermelha.
Olhei para ela, arqueando uma sobrancelha.
— Percebeu o quê?
Ela me encarou por um segundo, como se estivesse decidindo se confiava ou não em mim com aquilo.
Então suspirou.
— Tá… tem uma garota.
— Tem uma garota — Beyle repetiu, com um sorriso enorme. — Finalmente!
— E qual o problema? — perguntei.
Liah chutou de leve uma pedrinha no caminho, evitando nosso olhar.
— Eu não sei se ela gosta de mim.
— Clássico — Beyle disse, cruzando os braços. — Já tentou… sei lá… falar com ela?
— Não é tão simples — Liah respondeu, mais quieta agora. — E se eu estragar tudo? E se ela não sentir o mesmo e depois ficar estranho?
Fiquei em silêncio por um momento.
Porque eu entendia aquilo Mais do que gostaria.
— Às vezes… — comecei, escolhendo as palavras com cuidado — não fazer nada estraga mais do que tentar.
— Uau — Beyle comentou. — De onde veio isso?
— Só… faz sentido.
Liah ficou pensativa por alguns segundos, depois soltou um pequeno sorriso.
— Talvez você esteja certa.
— Claro que ela tá — Beyle disse, animada de novo. — E hoje é a noite perfeita. Luz baixa, música romântica, clima… você só precisa ir lá e—
Ela parou de falar.
Bruscamente.
— O que foi? — perguntei.
Beyle estava olhando para frente, mas não parecia focada em nada específico.
— Vocês sentiram isso? — ela perguntou, mais séria.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
Liah franziu a testa.
— Sentir o quê?
O vento passou por nós naquele exato momento, Mais frio do que deveria.
Olhei para as árvores ao longo da rua.
As sombras… estavam mais escuras.
Mais densas.
Como se estivessem… se juntando.
— Nada — Beyle respondeu depois de um segundo, forçando um sorriso. — Deve ser coisa da minha cabeça.
Mas eu sabia.
Não era.
Porque eu também senti.
E, dessa vez… Não fui a única.
Continuamos andando, mas a conversa já não era a mesma.
O baile ainda estava nos planos. As risadas ainda estavam ali. Mas, por baixo de tudo…
Algo tinha mudado.
E eu tinha a sensação de que, quando a noite chegasse… Vale Sereno deixaria de ser tão calma quanto sempre foi.
Eu não sei exatamente quando isso começou.
Talvez tenha sido na floresta.
Talvez sempre tenha estado aqui… e eu só não conseguia perceber antes.
Mas agora eu sinto.
O tempo todo.
É como se houvesse olhos em mim, mesmo quando estou sozinha. Não importa onde eu esteja — no meu quarto, na escola, andando pela rua… até agora, enquanto escrevo isso.
Tem algo errado.
E não é só uma sensação comum, como quando você acha que esqueceu algo ou que alguém te chamou pelo nome. É diferente.
Hoje, no caminho de volta pra casa, eu senti de novo. E o pior é que Beyle também percebeu alguma coisa. Ela tentou disfarçar, mas eu vi no rosto dela.
Isso significa que não sou só eu.
Não pode ser só coisa da minha cabeça… pode?
Eu queria acreditar que sim.
Seria mais fácil.
Às vezes eu olho para as sombras e tenho a impressão de que elas estão… erradas. Como se não estivessem apenas seguindo a luz, mas vivendo por conta própria.
E tem mais.
Eu continuo ouvindo aquilo. Não é uma voz clara. Não são palavras completas.
Mas é como um sussurro preso entre o silêncio, tentando me alcançar.
Como se estivesse esperando que eu entendesse. Ou que eu respondesse.
E isso é o que mais me assusta.
Porque uma parte de mim… quer responder.
Eu não contei isso para ninguém.
Nem para a Elise. Nem para os meus pais.
Nem para a Liah… e ela provavelmente entenderia melhor do que qualquer um.
Mas se eu disser em voz alta… isso se torna real.
E eu ainda não sei se estou pronta pra isso.
Hoje tem o baile. Era pra eu estar pensando em roupas, música, em tentar agir como uma pessoa normal por algumas horas.
Mas, em vez disso, eu estou aqui…
tentando ignorar a sensação de que tem algo no escuro do meu quarto.
Observando.
Eu não tenho provas. não tenho explicação.
Mas eu tenho certeza de uma coisa:
Seja lá o que for…
não me perdeu de vista desde a floresta.
E eu tenho medo de que, quando eu finalmente olhar direto para isso…
ele esteja olhando de volta.