antes do baile

1549 Palavras
O baile da escola deveria ser só… um baile. Vestido bonito. Música alta. Pessoas tentando parecer mais interessantes do que realmente são. Nada sobrenatural. Nada assustador. Nada… como ele. Eu estava sentada na cama, encarando meu reflexo no espelho, com o vestido ainda jogado ao lado. Não conseguia decidir se queria ir. Desde aquele dia na estrada, tudo dentro de mim parecia… desalinhado. Como se uma parte de mim tivesse sido puxada para um lugar que eu não conseguia alcançar. E ele estava lá. Sempre lá. Na minha cabeça. Nos meus pensamentos. Meu celular vibrou. Beyle. Respirei fundo antes de atender. — Fala, drama queen — tentei soar normal. — DRAMA QUEEN É VOCÊ! — ela praticamente gritou do outro lado. — Você já tá pronta? Porque eu tenho uma informação muito importante. Revirei os olhos, mesmo sabendo que ela não podia ver. — Isso nunca é bom… — É ótimo, na verdade. — ela fez uma pausa dramática. — O Adriel Jacob tá afim de você. Silêncio. Eu pisquei. — O quê? — Você ouviu! — Beyle riu. — Adriel Jacob. O garoto mais popular da escola. Capitão do time. Lindo, rico, padrão… esse Adriel. Eu devia ter reagido. Devia ter ficado surpresa. Ou animada. Ou qualquer coisa. Mas tudo o que veio… foi uma imagem. Cabelo loiro. Olhos escuros. Tristes. Profundos. — Sina? Você morreu? — Não… — murmurei, ainda olhando para o espelho. — Tô aqui. — Então reage! Isso é um evento histórico! — Beyle continuou, empolgada. — Ele nunca se interessa por ninguém de verdade. E agora… você. Eu soltei uma risada fraca. — Talvez ele só esteja entediado. — Ou talvez você seja interessante. Já pensou nisso? Interessante. A palavra ecoou na minha cabeça. Mas não foi Adriel que apareceu nos meus pensamentos. Foi ele. O garoto da estrada. O garoto que caiu no para-brisa… e simplesmente desapareceu. — Sina, você tá estranha — Beyle disse, desconfiada. — Eu só… — parei, sem saber como explicar. — Não tô muito no clima hoje. — Ah, não começa. Você vai. Eu não vou deixar você faltar por causa de um “não tô no clima”. Suspirei. — Não é só isso… Quase falei. Quase contei tudo. Sobre as vozes. As sombras. O acidente. Ele. Mas algo dentro de mim travou. Como se… eu não pudesse. — Sina… — a voz de Beyle suavizou. — Você tá bem mesmo? Olhei para o colar no meu pescoço. Ele parecia… mais escuro. Ou talvez fosse só impressão. — Tô — menti. — Só cansada. — Então vai pro baile e esquece tudo por algumas horas. — ela tentou animar de novo. — E de quebra ainda vê o Adriel te olhando igual um i****a apaixonado. Soltei uma pequena risada. — Você não desiste, né? — Nunca. Agora levanta, se arruma e me manda foto. Eu quero aprovar o look. — Sim, senhora. Ela desligou rindo. O quarto ficou em silêncio. Mas não aquele silêncio pesado de antes. Era um silêncio… expectante. Como se algo estivesse prestes a acontecer. Levantei devagar e peguei o vestido. Passei os dedos pelo tecido, tentando focar em algo normal. Algo real. Mas minha mente… Minha mente estava em outro lugar. Na estrada. Naquele momento. Naqueles olhos. Eu fiquei parada em frente ao espelho por mais tempo do que deveria. Não porque estivesse indecisa. Mas porque… não parecia eu. O vestido caía perfeitamente no meu corpo, em um tom escuro que mudava conforme a luz — ora parecia azul profundo, ora quase preto. Meu cabelo estava solto, levemente ondulado, e, pela primeira vez, eu realmente tentei me arrumar. Talvez eu estivesse tentando provar alguma coisa. Para eles. Para mim. Ou talvez… para aquilo que me observava. Respirei fundo, pegando minha pequena bolsa, e abri a porta do quarto. — Mãe? Pai? Já tô pronta— Eu parei. Os dois estavam na sala. E os dois ficaram em silêncio. Me olhando, Por um segundo longo demais. — Uau… — minha mãe, Laura, foi a primeira a falar, levando a mão até a boca com um sorriso emocionado. — Sina… Meu pai, Henrique, balançou a cabeça lentamente, como se estivesse tentando processar o que estava vendo. — Essa… é a minha filha mesmo? — ele brincou, mas dava pra ver o orgulho nos olhos dele. Revirei os olhos, meio sem graça. — Vocês estão exagerando. — Não estamos, não — Laura disse, se aproximando de mim. — Você está… linda. Linda. A palavra ficou estranha dentro de mim. Mas, ao mesmo tempo… não soou errada. Ela ajeitou uma mecha do meu cabelo com carinho, os olhos brilhando daquele jeito que sempre me faz sentir… pertencente. — Parece até que cresceu de um dia pro outro — ela completou. — Eu cresci faz tempo — respondi, mas minha voz saiu mais suave do que eu pretendia. Henrique deu um pequeno sorriso. — Mas hoje… é diferente. Olhei para ele, franzindo levemente a testa. — Diferente como? Ele hesitou por um segundo. Como se não soubesse explicar. — Não sei — disse por fim. — Você só… parece mais você. Meu coração apertou. Porque eu não tinha certeza se isso era algo bom. Laura percebeu a mudança no meu rosto e segurou minhas mãos. — Ei — ela disse com carinho. — Aproveita essa noite, tá? Você merece. Para de pensar tanto e só… vive um pouco. Viver. Parecia simples quando ela dizia assim. Mas, dentro de mim… nada estava simples. Mesmo ali, com a luz da sala, com o cheiro familiar da casa, com o calor dos meus pais ao meu redor… eu ainda sentia. Aquela presença. Silenciosa. Pacientemente esperando. Sorri, mesmo assim. — Eu vou tentar. Meu pai pegou as chaves do carro, animado. — Então vamos antes que eu tenha que expulsar pretendentes da porta. — Pai! — reclamei, envergonhada. Eles riram. E, por um momento… tudo parecia normal. Como se eu fosse só uma garota indo para um baile qualquer, em uma cidade qualquer. Mas, quando passei pela porta… um arrepio percorreu minha espinha. Instintivamente, olhei para trás. Para dentro da casa. Para o corredor escuro que levava ao meu quarto. Nada. Só sombras. Só silêncio. Só imaginação. Engoli seco e fechei a porta. Mas a sensação não foi embora. Porque, pela primeira vez… eu tive a impressão de que aquilo não estava mais só me observando de longe. Estava mais perto. Muito mais perto. A estrada para a escola passava por uma parte mais afastada de Vale Sereno. Pouca iluminação. Poucas casas. E, em certos trechos… só árvores. Eu estava olhando pela janela do carro, acompanhando o reflexo das luzes passando pelo vidro, quando senti. De novo. Aquela presença. Mais próxima do que nunca. Como se estivesse… esperando. — Falta muito? — perguntei, mais para distrair minha própria mente do que por impaciência. — Cinco minutos — meu pai respondeu, mantendo os olhos na estrada. — Já já você chega no seu grande evento. — “Grande evento” — repeti em tom baixo. Minha mãe riu de leve. — Deixa ele, Sina. Ele tá mais animado que você. Antes que eu pudesse responder— O carro fez um barulho estranho. Um estalo seco. E então… Silêncio. O motor morreu. — O que foi isso? — Laura perguntou, se endireitando no banco. Henrique franziu a testa, tentando ligar o carro novamente. Nada. — Droga… — ele murmurou, desligando tudo. — Espera aqui, vou ver o que aconteceu. — Tem certeza? — minha mãe perguntou. — Aqui tá muito escuro… — Eu só vou dar uma olhada rápida. Ele abriu a porta, e o som da noite entrou no carro. Frio. Denso. Diferente. Observei enquanto ele caminhava até a frente, abrindo o capô. A luz fraca do carro m*l iluminava o que estava ao redor. E além daquela luz… só havia escuridão. Floresta. Sem perceber, prendi a respiração. Porque eu sentia. Mais forte. Muito mais forte. Então ouvi. Um rangido. Lento. Arrastado. Vindo de dentro da floresta. Meu corpo inteiro ficou imóvel. — Você ouviu isso? — minha mãe perguntou, olhando ao redor. Mas eu não respondi. Porque eu não conseguia. Meus olhos estavam fixos nas árvores. Algo se moveu. Entre os troncos. Sutil. Mas impossível de ignorar. O rangido veio de novo. Como madeira sendo torcida… ou algo antigo despertando. E, antes que eu percebesse… eu já estava abrindo a porta do carro. — Sina? — minha mãe chamou, confusa. — Aonde você vai? Mas a voz dela parecia distante. Abafada. Irreal. Meus pés tocaram o chão frio da estrada, mas eu m*l senti. Era como se algo estivesse puxando. Chamando. Guiando. Dei um passo. Depois outro. Os sons da noite desapareceram, substituídos por um silêncio pesado… e aquele sussurro familiar. Mais claro agora. Mais próximo. “Venha…” Meu coração batia rápido, mas não de medo. Era outra coisa. Reconhecimento. Necessidade. Eu precisava ir. As árvores pareciam se abrir à minha frente, como se estivessem esperando por mim. O rangido ecoou novamente. E, dessa vez… soou como um convite. — Sina! — a voz do meu pai veio de longe, urgente. — Volta aqui! Mas eu não consegui parar. Porque, no fundo… uma parte de mim já tinha ido antes. E agora… só estava voltando para onde realmente pertencia.
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