o chamado interrompido

1407 Palavras
Eu estava a poucos passos da floresta. Tão perto que conseguia sentir o ar mudar — mais frio, mais denso… como se cada respiração carregasse algo antigo, algo vivo. “Venha…” O sussurro estava mais claro agora. Quase uma voz. — SINA! A mão do meu pai agarrou meu braço com força, me puxando para trás. O mundo voltou de uma vez. O som da estrada. O vento. A respiração ofegante da minha mãe. Pisquei e eu já não estava mais avançando. Estava sendo puxada. — O que você estava fazendo?! — Henrique perguntou, claramente assustado, segurando meus ombros. — Você ficou maluca? Eu pisquei várias vezes, tentando entender. Tentando… lembrar. — Eu… — minha voz falhou. — Eu só… Mas eu não sabia terminar a frase. Porque a sensação ainda estava ali. Chamando. Puxando. Implorando. Olhei por cima do ombro do meu pai. Para a floresta. Para as sombras entre as árvores. E, por um segundo… eu juro… que algo se moveu como se tivesse dado um passo na minha direção. — Sina, olha pra mim — minha mãe disse, segurando meu rosto com as mãos. — O que aconteceu? Olhei para os olhos dela. preocupados. Reais. Humanos. E aquilo me trouxe de volta. — Eu achei que… tinha ouvido alguma coisa — menti, ou talvez não completamente. Henrique soltou um suspiro pesado, passando a mão no cabelo. — Você não pode sair assim do nada, ainda mais aqui. Isso não é brincadeira. Assenti, mesmo sabendo que ele não entendia. Porque não era só “alguma coisa”. Era algo. E ainda estava ali. Observando. — Entra no carro — ele disse, mais calmo agora, mas firme. Obedeci. As pernas ainda estavam meio fracas enquanto voltava para o banco de trás. Minha mãe entrou logo depois, fechando a porta com mais força do que o normal. Por alguns segundos, ninguém falou nada. Só o som da respiração. Do coração acelerado. Do silêncio pesado entre nós. Henrique voltou para o banco do motorista e tentou ligar o carro novamente. Dessa vez… funcionou. O motor voltou à vida como se nada tivesse acontecido. Como se nunca tivesse parado. Como se aquilo tudo tivesse sido só coincidência. O carro começou a se mover, se afastando da estrada escura, da floresta… daquele lugar. Mas eu não consegui evitar. Olhei pela janela. Para trás. Para onde eu quase fui. E lá. Entre as árvores… uma forma escura permanecia parada. Imóvel. Mas presente. Me observando partir. Meu coração apertou, Como se algo tivesse sido interrompido. Como se eu tivesse deixado algo importante para trás. Ou pior… Como se aquilo não tivesse terminado comigo. Desviei o olhar rapidamente, abraçando a mim mesma. — Você tá bem? — minha mãe perguntou, mais suave agora. — Tô. Mas minha voz não soou convincente. Porque, no fundo… eu sabia que aquilo não tinha acabado. Só foi adiado. O salão estava iluminado por dezenas de lustres dourados, refletindo nas paredes espelhadas e criando uma atmosfera quase mágica. A música alta vibrava no chão, misturada às risadas e conversas animadas. Sina parou na entrada por um instante. Seu vestido parecia captar a luz de um jeito único, e por um segundo, todos ao redor pareceram desacelerar. Mas não era só isso… havia aquela sensação de novo. Como se alguém estivesse observando. Ela engoliu seco. — Para com isso… — sussurrou para si mesma. — SINAAA! A voz animada quebrou completamente o clima. Beyle praticamente surgiu voando, puxando Sina pelo braço, com um sorriso enorme. — Você tá LINDA! — disse, girando a amiga. — Tipo… inacreditável! Sina riu de leve, tentando se distrair. — Você também tá incrível, Beyle. Beyle abriu um sorriso ainda maior e olhou por cima do ombro, orgulhosa. — E não é só isso… — ela baixou a voz, mas claramente querendo que todo mundo soubesse. — Eu vim com o Erick Duarte. Sina arqueou a sobrancelha, surpresa. — O Erick Duarte? — O próprio! — Beyle praticamente brilhava. — O mais popular do colégio. Ele que me chamou, acredita? — Acredito… você merece — Sina respondeu, sincera. Nesse momento, Liah se aproximou mais devagar. Diferente de Beyle, ela parecia inquieta, mexendo nas próprias mãos. — Oi, Sina… — Oi, Liah. Você tá bem? Liah forçou um sorriso, mas logo desviou o olhar, procurando alguém no salão. — Eu… não sei. Beyle revirou os olhos, ainda sorrindo. — Lá vem drama… — Não é drama! — Liah respondeu, um pouco nervosa. — É que… eu não sei se a Tayla gosta de mim. Sina inclinou a cabeça, prestando atenção. — Vocês já conversaram hoje? — Não direito… ela tá ali — Liah apontou discretamente. — E eu não sei se vou ou se espero… ou se ela nem quer que eu vá. Beyle cruzou os braços, decidida: — Você VAI. Agora. — Beyle! — Liah arregalou os olhos. Sina deu um pequeno sorriso. — Ela tá certa… às vezes a gente só precisa dar o primeiro passo. Liah respirou fundo, claramente lutando contra o próprio nervosismo. — E se ela me rejeitar? Sina hesitou por um segundo… aquela sensação voltou, como um arrepio subindo pela nuca. Ela olhou ao redor rapidamente, como se esperasse ver alguém específico. Nada. — Então pelo menos você vai saber — disse, voltando a encarar Liah. — E parar de sofrer sem resposta. Liah ficou em silêncio por alguns segundos… então assentiu devagar. — Tá… eu vou tentar. Beyle sorriu, satisfeita. — É assim que se fala! Enquanto as duas continuavam conversando, Sina se distraiu por um instante… seu olhar vagou pelo salão novamente. E então— Por um segundo. Ela teve a nítida sensação de ver alguém parado na parte mais escura do salão… olhando diretamente para ela. Quando piscou… Não havia mais ninguém. O sorriso em seu rosto desapareceu. E o baile, de repente, já não parecia tão seguro assim. — que bom que veio! — disse Beyle. — Você me obrigou — respondi, tentando sorrir. — E ainda bem. — Ela me analisou de cima a baixo. — Tá linda, inclusive. Se o Adriel não te chamar pra dançar, eu mesma faço isso por ele. Revirei os olhos, mas senti meu coração acelerar. Adriel Jacob. Por muito tempo… eu gostei dele. De longe. Como todo mundo. Ele era o tipo de garoto que parecia inalcançável. Perfeito demais para olhar duas vezes pra alguém como eu. — Relaxa — Beyle sussurrou, com um sorriso malicioso. — Ele já te viu. — Para… — murmurei, ficando sem graça. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa… A música mudou. Ficou mais lenta. Mais suave. E então… Ele apareceu. Adriel Jacob. Cabelos loiros perfeitamente alinhados, sorriso fácil, postura confiante. Tudo nele gritava popularidade. Facilidade. Normalidade. Ele parou na minha frente. E por um segundo eu congelei. — Sina, né? — ele disse, com um sorriso leve. Assenti, tentando não parecer completamente travada. — É… — Quer dançar? Direto. Simples. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Meu coração disparou. Por um instante, tudo aquilo parecia um sonho antigo se tornando real. O garoto que eu sempre gostei… Me chamando pra dançar. Mas então… Uma imagem atravessou minha mente. Olhos escuros. Tristes. Profundos. Eu pisquei. Confusa. Dividida. — Sina? — Adriel inclinou a cabeça, esperando. — Claro… Deixei ele me guiar até o meio do salão. As luzes pareciam mais fortes ali. A música mais alta. As pessoas ao redor desapareceram aos poucos. A mão dele tocou a minha cintura. Quente. Real. Segura. E ainda assim… Algo dentro de mim hesitou. — Você tá diferente hoje — Adriel comentou, enquanto começávamos a dançar. — Diferente como? — perguntei, tentando focar nele. — Não sei… — ele deu de ombros. — Mais… distante. Soltei uma pequena risada. — Talvez eu esteja nervosa. — Comigo? — Talvez… Ele sorriu, claramente satisfeito com a resposta. E por um momento… Funcionou. Eu quase esqueci. As sombras. As vozes. A estrada. Ele. Mas foi só por um momento. Porque então eu percebi. O cheiro. Frio. Sutil. Familiar. Meu corpo inteiro arrepiou. — Você sentiu isso? — perguntei, olhando ao redor. — Sentir o quê? — Adriel franziu a testa. eu fiquei em silêncio, tentando voltar a normalidade. _ nada. eu só estou um pouco nervosa. _ quer beber alguma coisa? _ pergunta Adriel Jacob. _ você parece bem. _ eu tô bem. é sério. _ responde sina, tentando soar convincente.
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