Eva narrando.
Eu acordo devagar e meu corpo inteiro dói, mas não é a mesma dor de antes, é uma dor cansada, espalhada, como se estivesse saindo aos poucos, dessa vez minha punição foi muito pior, a Madre descontou todo meu pecado ainda em vida pelo jeito.
Abro os olhos com medo, achando por um breve momento que ainda estou no quartinho de pedra, abaixo da cozinha que eu não consigo nem esticar as pernas de tão pequeno, e meu coração dispara ao lembrar.
Retornando em minha mente o ar gelado, a umidade sempre presente ali, o frio que fazia nas madrugadas, a sensação de arranhar a parede de pedras e gritar até ficar sme oz, até o sangue sair de minhas unhas, eram noites sem fim.
Respiro pequeno, com cuidado, e agradeço a Deus em silêncio ao ver que não estou em um lugar como aquele, agradeço muitas vezes, peço perdão também, porque sempre peço, mesmo sem saber direito por quê, eu só sei que nasci filha do pecado, então eu sou o próprio pecado.
Mas eu estou longe de lá, eu e meu espiríto r**m estamos livres, tenho tanto medo de que isso seja castigo ou sonho e que eu acorde de novo no chão frio do convento.
As lembranças vêm sozinhas, como se estivessem esperando um momento para me mostrar quem sou, de onde vim.
Eu não fugi por maldade, eu fugi porque precisava viver, eu não aguentava mais tanta dor, tanta punição, muitas eu nunca entendi o motivo. No convento a gente aprende primeiro a obedecer, depois a existir.
Eu obedecia, sempre obedeci, nunca reclamei da comida pouca, das mãos ardendo de tanto trabalhar, do silêncio pesado. As outras meninas também sofriam, a vida lá nunca foi boa para ninguém, mas comigo era diferente, sempre foi, tanto que algumas moças conseguiam sair dali, ir trabalhar em casas de famílias, serem empregadas, foram salvas, mas eu nunca pude ser oferecida, a Madre sempre fez questão de dizer o quão r**m eu era.
E ela fez grudar em minha pele isso a última vez que a vi, foi ontem? Bem, não sei quanto tempo passou, mas foi na minha última noite no convento.
Era o dia do aniversário da nossa Madre Superiora, tinha um bolo lindo para ela. Lá não tinha muito luxo, nem para os alma pura e já salvas, mas a Madre merecia algo especial. Um bolo grande, bonito, cheiroso.
Eu ajudei a fazer, sei cada passo, cada medida, mas nunca provei bolo na vida, nem a massa crua, eu sabia que não era merecedora. Nunca fui.
Eu estava há dois dias sem comer, minha barriga doía tanto que parecia rasgar por dentro, mas me disseram que eu tinha que fazer jejum para clarear minha mente, e então obedeci, trabalhei aquele dia todinho, lavei chão, lavei roupa, torci, pendurei, fiz o bolo, recheios, coberturas, cortei, montei, estava a coisa mais linda.
Cantaram parabéns para ela, vi até ela sorrir agradecida, cortou o primeiro pedaço para si e me mandaram cortar o restante para todos.
E quando senti o cheiro do bolo prontinho, e tive acesso as fatias, algo aconteceu comigo, parece que Deus estava me testando. Eu peguei um pedaço pequeno, bem pequeno, do tamanho de uma colher de sopa, e comi.
Mas me arrependi na mesma hora que recobrei minha consciência.
Disseram que eu roubei, que fui gulosa, que obedeci o d***o que mora dentro de mim. A Madre então teve de me punir, me bateu com a colher de madeira, bateu muito, bateu sem parar até eu cair.
E então ela pegou o chicote que se usa em cavalos, leve, fino, mas que na minha pele foi horrível, doloroso, um pedaço de mim gritava a cada toque. Eu chorei, pedi perdão, disse que estava com fome, disse que Deus estava vendo minha mente, e que por Deus eu não iria mais fazer algo assim, prometi que nunca mais faria.
Mas ela não acreditou e não parou. Eu apanhei até não sentir mais nada e apagar.
Quando acordei estava no chão da cozinha, estava muito frio, meu corpo doendo, me deixaram desmaiada, as meninas dormiam no canto delas, coladas para se manterem aquecidas, e em solidariedade me deram uma manta, que me cobre, já suja de um sangue seco que me pertencia.
E nesse momento, me bateu uma consciência que nunca tive, eu entendi que se ficasse ali eu iria morrer em uma próxima punição. Não naquele dia talvez, mas logo. E morrer sem nunca ter vivido me deu mais medo do que fugir.
Então eu fugi, saí devagar abrindo a porta dos fundos, peguei um vestido no varal, já seco e gelado pela brisa da madrugada, mas era melhor do que eu estava usando, iria cobrir as feridas, e então eu corri, sem nem saber para onde, só corri.
Rezava enquanto corria por forças, meu corpo inteiro doendo à cada movimento e passo, mas eu não podia parar, não me permitiria parar.
Me movi pedindo perdão por fugir e conversando com Deus para não me deixar morrer, e nem voltar para lá, porque eu prefiro morrer agora mesmo, em céu aberto acima de mim, correndo o risco de ir ao inferno, do que no chão daquele lugar que me ensinava a salvação.
Eu fiz isso por muito tempo, o sol clareou, as aves cantavam, tudo começava no dia, parei em um momento perto de um rio, arriscando beber da água corrente, mesmo com bicho de barriga é melhor do que morrer sem ela. E continuei, sem saber para onde eu ia.
E então tudo mudou, eu escutei ele.
O moço mais lindo da minha vida. Ele estava em cima de um cavalo, grande, forte, como aqueles homens das histórias que a gente nunca acredita que existem.
Com os olhos escuros, cabelo também, chapéu na cabeça e o peito aparecendo brevemente na camisa, eu encontrei meu salvador.
Ele pareceu tão seguro, parecia como proteção. Foi a minha salvação, fiquei com medo de apenas estar vendo algo antes de morrer, talvez a visão de um anjo que veio me levar, Deus pode ter perdoado o que eu fiz, então eu pedi ajuda, só isso, e tudo ficou escuro enquanto a leveza tomava o meu corpo.
Agora, abrindo de verdade os olhos, eu sei que não foi sonho.
Ele está aqui.
Eu não sei onde estou, mas é aberto, claro, tem luz do sol, muitos móveis e coisas.
Meu salvador dorme sentado numa cadeira bem na minha frente. A cabeça caída de lado, o rosto cansado, mas calmo. Parece que ficou ali o tempo todo. Parece que não foi embora. Meu coração bate rápido, sinto medo de me mexer, medo de acordar ele, medo de estar onde não devo, medo de errar.
Ele é ainda mais lindo de perto, os lábios carnudas, as maçãs do rosto evidentes, as mechas de seu cabelo, ele é tão forte e grande, nunca vi um homem assim, realmente parece um anjo, o anjo que Deus me enviou.
Ele não desistiu de mim, sabe da minha verdade e ainda me tem como filha, não importa o que a Madre já me disse, Deus me ama, e eu sei disso porque colocou esse homem no meu caminho para me resgatar.
Agradeço a Deus de novo, bem baixinho, e peço para não ser mandada embora, que para onde quer que ele tenha me trago, que eu possa permanecer e pagar meu Salvador.
— Obrigada — eu sussurro, sem saber se falo com Deus ou com ele.
Fico quieta, só olhando, com cuidado até para respirar. Pela primeira vez na minha vida, a dor não é a coisa mais forte que sinto. O que sinto agora é diferente. É pequeno, mas existe.
É a sensação de que talvez eu ainda possa viver, graças à ele que me encontrou.