Gael narrando.
Eu acordo com a sensação de que estou sendo observado.
Abro os olhos devagar, ainda sentado na cadeira, o pescoço dolorido pela posição r**m da noite inteira. Por um segundo não lembro onde estou, até virar o rosto e encontrar dois olhos muito atentos me encarando.
Ela está acordada.
Os seus olhos são verdes. Não escuros. Não comuns. Verdes claros, quase puros, brilhando num rosto ainda pálido e machucado. Ela me olha como se eu fosse alguma coisa grande demais para estar ali, quase que admirada.
Endireito o corpo na cadeira.
— Ei… — minha voz sai mais rouca do que eu esperava. — Como você está?
Ela não responde de imediato. Parece avaliar se pode falar. Se deve falar. Então mexe os lábios devagar.
— Bem… senhor.
A voz dela é fraca, arranhando na garganta, seca.
Levanto na hora.
— Não tenta falar muito, vou pegar água para você. E pode ficar calma. Você agora está segura aqui.
Eu digo isso com firmeza, porque é verdade. Enquanto estiver debaixo do meu teto, ninguém encosta nela.
Ela continua me olhando. Não desvia. Não pisca muito. É um olhar limpo demais para alguém que veio do jeito que ela veio, puro demais para a violência marcada em seu corpo.
Pego o copo de água que deixei na mesa ao lado e me aproximo devagar.
— Água primeiro, beba devagar.
Ela tenta se erguer e é nesse momento que percebe o lençol. O movimento dela trava. O corpo fica rígido. Os dedos se apertam contra o tecido fino.
Eu entendo na mesma hora.
— Calma — digo antes que o medo cresça. — Suas roupas estavam destruídas com sangue e tampando machucados feios. Eu chamei um médico que confio, ele veio com a esposa dele e cuidaram de você enquanto estava apagada, voltaram para conferir você depois. Eles tiraram sua roupa para cuidar dos ferimentos e você ficou coberta o tempo todo.
Ela aperta o lençol contra o peito, como se aquilo fosse a única coisa entre ela e o mundo. Assente devagar.
— Eu… eu peço perdão pelo trabalho que causei
A frase me atinge estranho.
— Você não causou trabalho nenhum.
Ela parece não acreditar muito nisso.
Seguro o copo perto da boca dela.
— Devagar.
Ela leva as duas mãos ao copo, como se estivesse segurando algo precioso demais para cair. Bebe pequeno, mas quando a água toca a boca, os olhos fecham por um segundo. Parece que nunca sentiu algo tão simples com tanta intensidade.
Quando abre os olhos de novo, eles brilham ainda mais. Verdes claros, vivos, quase infantis.
O cabelo loiro está sujo, embolado, caindo pelos ombros de qualquer jeito. O rosto ainda tem marcas, mas é delicado demais para o mundo que eu imagino que ela tenha vindo.
Ela é uma bagunça.
E mesmo assim, chama atenção demais.
— Qual é o seu nome? — pergunto.
Ela hesita.
— Eva… senhor.
Só isso. Sem sobrenome. Sem nada.
— Eu sou Gael.
Ela engole em seco.
— Obrigada.
Franzo o cenho.
— Agradece pelo que?
— O senhor… me salvou.
Eu seguro a respiração por um segundo.
— Eu te encontrei na estrada. Só isso.
Ela balança a cabeça levemente, como se eu estivesse errado.
— Foi Deus que colocou o senhor lá, você é meu anjo salvador, quando achei que morreria, nosso pai Celestial trouxe o senhor.
Não respondo. Não entro nesse tipo de conversa. Nunca gostei de ser colocado em lugar que não me pertence.
Ela tenta se erguer de novo, mas faz uma careta pequena de dor.
— Ei, devagar.
Eu me aproximo por instinto, seguro o braço dela para ajudar a sentar. O contato é leve, mas sinto como ela é pequena. Os ossos parecem frágeis debaixo da pele fina.
Quando ela se senta, o lençol escorrega um pouco e ela puxa de volta imediatamente, segurando firme contra o peito.
— Ninguém aqui vai te machucar ou encostar em você se te fizer m*l — digo mais baixo dessa vez.
Ela me olha como se essa frase fosse grande demais para entender.
Fico alguns segundos em silêncio. Eu quero fazer perguntas. Muitas. Quem fez aquilo com ela. De onde veio. Se alguém está atrás dela. Se eu vou ter problema por causa disso.
Mas olhando para ela agora, fraca, recém acordada, eu engulo tudo.
— Eu tenho perguntas — admito. — Muitas. Mas primeiro você precisa tomar um banho, se vestir e comer alguma coisa.
Ela arregala levemente os olhos na palavra comer.
— Eu posso?
A pergunta me irrita mais do que deveria.
— Pode. Aqui você pode.
Ela baixa os olhos.
— Obrigada… senhor.
— Gael.
Ela hesita.
— Obrigada… Gael.
O jeito que ela diz meu nome é estranho. Como se estivesse segurando algo delicado.
— Vou chamar o médico de novo depois que você se arrumar — continuo. — Ele quer ver como você está acordada.
Ela assente rápido demais.
— Eu obedeço senhor.
Não gosto disso. Não gosto do tom. Parece medo, não respeito.
— Não precisa obedecer — digo, firme. — Só precisa melhorar.
Ela parece confusa com essa diferença.
Eu me levanto e estendo a mão.
— Consegue ficar de pé? Vou te mostrar o banheiro.
Ela olha para minha mão como se eu estivesse oferecendo algo proibido. Então coloca a dela na minha. É pequena, fria. Eu seguro com cuidado e ajudo a levantar.
Ela treme um pouco quando pisa no chão. Talvez seja o cansaço, os machucados, ou o tempo que dormiu, mais de dois dias se passaram, ela está frágil.
— Devagar Eva.
O lençol enrolado nela faz com que pareça ainda menor. Ela segura o tecido com uma das mãos, a outra ainda apoiada na minha. Quando tenta dar o primeiro passo, o joelho falha e eu a seguro pela cintura.
O corpo dela é leve demais.
Ela levanta o rosto para mim. Encantada. Não é exagero. Eu vejo isso claro demais nos olhos verdes, a admiração que está sentindo por mim nesse exato momento, o que é um erro.
Desvio o olhar primeiro.
— O banheiro é ali, vou te deixar na porta se quiser — digo, apontando pelo corredor. — Tem toalha limpa. A água esquenta rápido.
Ela olha para o corredor como se fosse outro mundo.
— Eu posso mesmo?
— Pode, agora vamos, se eu te machucar me avise que esperamos você andar no seu tempo.
Eu a ergo devagar, sem pegar no colo, tudo com receio demais, a coloco dentro do banheiro, ela dá dois passos e para, olhando para trás.
— Como uso essas coisas?
Eu decido apenas mostrar ligando o chuveiro.
— Os produtos de cabelo e sabão, qualquer coisa me grita, estarei ouvindo. — aponto eles e ela confirma com a cabeça enquanto saio do espaço pequeno.
— O senhor… quer que eu agradeça de joelhos agora?
Eu fico imóvel por um segundo, mas ela fala sério.
— Não.
A resposta sai mais dura do que planejei.
— Aqui ninguém ajoelha para mim.
Ela parece aliviada e confusa ao mesmo tempo.
Quando tento fechar a porta, ela para na frente, olha para mim outra vez. O mesmo olhar. Limpo demais. Confiando demais.
— O senhor não vai me mandar embora?
Eu respiro fundo.
— Não agora, nem pense nessas coisas, pense em ficar melhor.
Ela aceita essa resposta como se fosse promessa eterna.
Entra no box do chuveiro ligado devagar, ainda segurando o lençol. Antes de fechar a porta, me olha mais uma vez. Não é medo o que vejo agora. É algo mais perigoso.
Admiração.
Eu fico parado no corredor por alguns segundos depois que a porta fecha. Passo a mão pelo rosto. Não era para ser assim. Eu trouxe uma desconhecida para dentro da minha casa. Uma menina espancada, sem nome completo, sem história clara.
E ainda assim, quando ela me olha daquele jeito, como se eu fosse a coisa mais certa que já aconteceu na vida dela, alguma coisa dentro de mim se move.
Isso é problema.
Volto para a sala e preparo algo simples para ela comer. Pão, um pouco de queijo, caldo quente. Nada pesado. Enquanto faço isso, escuto o barulho da água caindo no banheiro.
Penso nas marcas que vi no corpo dela. Nas cicatrizes antigas. Aquilo não é de um dia. Não é de um erro isolado. Alguém fez aquilo por muito tempo.
Meu maxilar trava.
Se alguém aparecer procurando por ela, vai ter que falar comigo.
E eu não costumo ser paciente.
Quando a água para, eu já estou esperando, uma roupa de minha irmã bem antiga ainda de sua adolescência, com cheiro de guardado, mas é o que tenho agora.
Não sei exatamente o que essa história vai trazer para dentro da minha casa. Só sei que a partir do momento em que ela caiu na minha estrada, deixou de ser apenas problema dela.
Agora é meu também.
E eu não abandono o que está sob minha responsabilidade.
Nem que isso me custe mais do que eu estou disposto a admitir.