Gael narrando.
Quando a porta do banheiro abre, eu já estou esperando.
Não porque esteja ansioso. Pelo menos é isso que digo a mim mesmo. Mas meus olhos levantam na mesma hora.
Ela aparece devagar, como se ainda estivesse testando o chão. Está usando uma camisa minha que peguei no quarto e deixei dobrada na porta. A camisa fica enorme nela, caindo quase até as coxas. O cabelo loiro ainda está molhado, escorrendo em fios claros pelos ombros. Agora dá para ver melhor o rosto.
Ainda tem marcas, ainda tem roxos, mas também tem algo que eu não tinha notado antes.
Ela é bonita.
Não de um jeito arrumado, sofisticado. É uma beleza limpa, quase angelical de tão pura e sincera. Os olhos claros parecem ainda maiores no rosto pequeno.
Ela para quando me vê olhando.
— Eu… lavei o chão — diz, nervosa.
Franzo o cenho.
— Lavou o quê?
— O chão do banheiro. Eu molhei muito. Não queria sujar a casa do senhor.
Solto um suspiro pelo nariz.
— Não precisava fazer isso.
Ela baixa a cabeça imediatamente.
— Perdão.
— Para de pedir perdão por tudo.
Ela levanta os olhos de novo, meio confusa.
— Eu… vou tentar.
Faço um gesto com a cabeça em direção à mesa.
— Vem comer.
Ela segue atrás de mim como se estivesse entrando em uma igreja. Passos pequenos, silenciosos. Quando chega perto da mesa e vê o que coloquei ali, ela para completamente.
Pão. Um pedaço de queijo. Um prato com caldo quente.
Nada especial.
Para ela, parece outra coisa.
Os olhos dela se enchem de luz.
— É… para mim?
— É.
— Tudo isso? — concordo com a cabeça e posso ver lágrimas se formando em seus olhos, eu não quero ver ela chorar, não suporto essas coisas.
Ela olha para mim como se eu tivesse oferecido ouro.
— Obrigada… meu salvador.
— Tá tá, agora senta e coma tudo isso.
Ela senta devagar na cadeira, como se tivesse medo de quebrar. Antes de tocar no pão, junta as mãos na frente do peito e fecha os olhos.
— Obrigada, meu Deus, por essa comida… e por esse lugar… e por ele… o senhor me enviou o anjo mais bondoso para me salvar, obrigada por se importar comigo mesmo com meus pecados.
Abro a boca para interromper, mas desisto. Ela termina a oração e então pega o pão.
Come devagar no começo. Depois um pouco mais rápido. Não é desespero, mas também não é costume. É como alguém que ainda não acredita que aquilo está realmente permitido.
Fico observando.
— Come com calma, ou vai passar m*l.
Ela assente enquanto mastiga.
Depois de alguns minutos, toma um gole do caldo e suspira pequeno.
— Está muito bom.
— É só caldo pronto, compro no mercado.
— Mesmo assim, a dona ou senhor mercado que fez deixou excelente. — ela não sabe o que é um mercado?
Ela sorri. Um sorriso simples, verdadeiro.
Eu me sento do outro lado da mesa.
— Eva.
Ela olha na hora.
— Sim?
— De onde você veio?
Ela segura o pão com as duas mãos. Parece pensar em como responder.
— Do convento.
— Convento?
— Sim.
— Você é freira?
Ela quase engasga.
— Não! — diz rápido, assustada. — Não… eu só… morava lá, elas me salvaram da rua e perigos do mundo.
Cruzo os braços.
— Morava por quê?
Ela olha para a mesa.
— Porque me deixaram lá quando eu era pequena.
— Quem?
Ela hesita, parece não saber responder.
— Eu não sei, ninguém nunca me disse isso.
Isso me faz franzir o cenho.
— Você não sabe quem são seus pais?
Ela balança a cabeça devagar.
— Não, senhor.
O “senhor” volta. Eu ignoro por enquanto.
— E você ficou lá a vida inteira?
— Sim, até agora a madre e as freiras me deram educação e um teto.
Ela toma mais um pouco do caldo.
— As outras meninas também moravam lá. A gente ajudava na cozinha, limpava, cuidavamos das coisas, sendo de limpeza e produção fazíamos.
Ela fala com naturalidade demais.
— E você fugiu. — evito perguntar da óbvia agressão que sofreu e ainda é mais do que evidente em seu corpo.
Ela levanta os olhos.
— Sim.
— Por quê?
Ela fica quieta por alguns segundos. Não parece saber qual parte contar.
— Eu… comi um pedaço de bolo que não era meu.
Espero que ela continue.
— Era o aniversário da madre superiora — explica. — Eu ajudei a fazer o bolo. Eu estava com muita fome, e eu juro que foi o bolo mais bonito que eu fiz, tinha até calda, coloquei morangos em cima, e na hora de cortar e servir eu pequei, comi algo que não era meu e eu não merecia, não era para meu tipo.
Ela fala isso de um jeito simples. Como se fosse um erro comum.
— E por isso você foi espancada daquele jeito? — não me aguento.
Ela parece surpresa com minha palavra e clareza.
— Espancada?
— Os machucados no seu corpo.
Ela baixa o olhar para as mãos.
— Eu roubei, fui punida como merecia, mas eu não aguento mais pagar pelos meus pecados, eu... fugi, sou fraca senhor.
A resposta me incomoda, ela não sabe que a forma que foi espancada por um bolo é um absurdo.
— Você comeu apenas, era um aniversário Eva.
— Era dela, delas na verdade, eu nunca pude comer algo assim, já deveria saber.
— E?
Ela parece realmente não entender o ponto.
— Eu fui gulosa, é pecado a gula.
Eu fico em silêncio por alguns segundos.
Algo nessa história não encaixa. Não preciso entender tudo para saber que não é normal alguém quase morrer por causa de um pedaço de bolo.
Mas ela fala disso com uma calma estranha.
Talvez porque não saiba que aquilo não é normal.
— E depois você fugiu.
Ela assente.
— Sim. Porque eu achei que se ficasse lá eu ia morrer em um próximo pecado.
Ela fala isso como quem comenta sobre o clima.
Eu apoio os cotovelos na mesa.
— E agora?
Ela olha para mim sem entender.
— Agora o quê?
— O que você pretende fazer?
Ela fica parada.
— Eu… preciso ir embora, é o certo a se fazer.
A resposta sai rápida demais.
— Ir para onde?
Ela pisca confusa, parece não ter pensado sobre isso.
— Procurar trabalho.
— Onde?
Ela olha ao redor, como se o lugar pudesse responder por ela.
— Em alguma casa, posso trabalhar para alguma família em troca de casa e comida.
Eu solto um pequeno riso sem humor, sem acreditar em tamanha inocência, ela acabou de definir um trabalho escravo.
— Você nem sabe onde está.
Ela abaixa a cabeça de novo.
— Desculpa.
Passo a mão pelo rosto.
— Eva, olha pra mim, você deve buscar algo que pague, que tenha direitos.
Ela levanta os olhos.
— Você tem família?
— Não.
— Parentes?
— Não.
— Alguém esperando por você?
— Não.
Cada resposta vem simples, direta.
Nada.
Ela não tem nada.
Olho para ela de novo. Agora limpa, alimentada, ainda frágil.
Também vejo outra coisa.
Beleza.
E isso é problema.
Uma menina daquele jeito, sozinha, andando por estrada procurando trabalho em casa de estranho. Não dura uma semana.
Talvez nem três dias.
Eu me recosto na cadeira.
Irritado demais, ela não sabe os perigos do mundo, eu a encontrei, mas poderia ser outro... e se eu me meter nisso, talvez não consiga mais sair, e colocar alguém tão bela e pura aqui.
— Você não vai sair procurando emprego hoje.
Ela parece confusa.
— Não?
— Não.
É tudo o que posso dizer agora, não posso oferecer algo melhor, tenho que pensar.
Ela segura o pão de novo.
— Então… quando?
Penso alguns segundos antes de responder.
— Eu vou perguntar na cidade se alguma casa precisa de ajuda.
Ela arregala um pouco os olhos.
— O senhor faria isso?
— Gael.
— Gael.
Ela corrige rápido.
— Enquanto isso — continuo — você fica aqui.
Ela fica completamente parada.
— Aqui?
— Aqui.
— Na sua casa?
— Sim, vai descansar e se curar totalmente, ficar saudável e vemos o restante depois.
Ela parece não saber o que fazer com essa informação.
— Mas… eu não posso dar trabalho.
— Você não está dando.
— Eu posso ajudar.
— Depois.
Ela aperta o pão entre os dedos.
— Eu posso limpar, cozinhar…
— Depois Eva.
Repito com firmeza.
— Primeiro você descansa.
Ela fica quieta por um momento.
— Eu posso… pegar comida quando tiver fome?
A pergunta é tão tímida que me irrita de novo.
— Pode.
— Mesmo?
— Eva.
Ela olha rápido.
— Sim?
— Enquanto você estiver aqui, essa casa também é sua.
Ela fica completamente imóvel.
Os olhos verdes enchem de água, mas ela segura.
Porra, não chore, não sei lidar com mulheres.
— Obrigada… Gael, meu Salvador.
Ela diz meu nome devagar, com cuidado.
Eu me levanto da mesa.
— Termina de comer.
Ela assente.
— Eu vou chamar o médico para ver como você está.
Ela parece aceitar isso como ordem divina.
Quando caminho para fora da cozinha, olho para trás uma última vez.
Ela está comendo de novo. Devagar. Feliz de um jeito simples.
E eu percebo uma coisa que talvez ainda não deveria admitir.
Trazer aquela menina para dentro da minha casa pode ter sido o começo de um problema muito maior do que eu imaginei.
E mesmo assim…
não sinto vontade nenhuma de mandá-la embora.