Eva narrando.
Eu não consigo parar de pensar nele mesmo enquanto o olho, pensar em como ele é perfeito e belo, gentil.
Mesmo sentada sozinha na cozinha, mastigando o último pedaço de pão devagar para durar mais, minha cabeça fica voltando para o mesmo lugar.
Meu salvador.
Gael.
Eu repito o nome dele dentro da cabeça para não esquecer. Parece forte quando penso. Parece o nome de alguém que nasceu para mandar no mundo.
Eu nunca vi um homem assim antes.
Ele é alto, grande, forte, com aqueles olhos azuis que parecem enxergar tudo. Quando ele fala, as palavras saem firmes, como se não tivesse costume de repetir ordens.
Ele é poderoso, sabe dizer e não deixar dúvidas que está mandando, e vi seu esforço em falar calmo comigo, ele deve ser bem... mandão também
Mas ele foi bom comigo.
Muito bom.
Ele me deu comida.
Me tirou da estrada, cuidou de mim, me deixou tomar banho.
Eu ainda fico surpresa só de pensar nisso. Comida boa, de verdade, que eu pude comer sentada numa mesa, sem medo de alguém tirar do meu prato.
E também me deixou tomar banho.
Um banho de verdade, com chuveiro e tudo, não o balde de água fervida com a do poço e a canequinha de sempre, foi tão gostoso, e dolorido confesso, a força do chuveiro é maior, doeu os machucados, mas era tão quentinha e constante.
Mas eu quase rio sozinha lembrando, sempre imaginei, eu os limpava lavando os banheiros dos importantes.
No convento a água era fria quase sempre. Também tinha de ser rápido, sem desperdiçar.
Aqui tem um chuveiro.
Água caindo sozinha do teto, quente, abundante, sem precisar carregar balde nenhum.
Eu fiquei parada debaixo da água um tempo sem fazer nada, só sentindo. Achei que aquilo devia ser coisa de gente muito rica ou de gente muito abençoada por Deus.
Ele também deixou várias coisas no banheiro.
Frascos bonitos, com cheiros fortes e bons.
Eu não sabia usar quase nenhum.
Usei só o sabonete no corpo, porque sabonete eu conheço. Esfreguei o corpo com cuidado para não abrir os machucados. Mesmo assim doeu um pouco.
Mas a água quente ajudou, eu realmente estou muito feliz de ter realmente tomado banho assim, chique.
Meu cabelo estava um desastre. Cheio de terra, seco, duro, mas ele também deixou outras coisas que eu poderia ter usado.
Um frasco tinha a foto de um homem na frente. Um homem bonito, com cabelo arrumado. No outro frasco tinha umas palavras grandes que eu tentei ler devagar.
“Hidrata… igual… cavalo.”
Eu não entendi muito bem o que aquilo queria dizer, mas pensei uma coisa simples.
Se Gael é o homem mais bonito do mundo e usa aquilo, então deve ser bom.
Então eu usei.
Passei um pouco no cabelo, espalhei como achei que devia. O cheiro era forte, mas bom.
Enquanto fazia isso eu agradeci a Deus mais uma vez pela bondade daquele homem.
Eu termino de comer o último pedaço de pão e limpo as mãos batendo uma na outra, não quero sujar a roupa emprestada que encontrei dobrada perto da porta.
Ele saiu para chamar o médico e não voltou, bem, até ter um barulho de motor, eu os conheço, são coisa de gente boa e rica.
E eu escuto um carro chegando.
Meu coração dispara um pouco.
Será que é alguém importante? Será que fiz algo errado? Como ele disse que ia chamar o médico eu espero que seja ele.
A porta se abre e Gael entra primeiro, por onde ele saiu?
Atrás dele vem um homem mais velho, talvez uns cinquenta anos. Tem cabelo grisalho e cara séria, mas não parece bravo. Junto com ele vem uma mulher.
Ela é gentil.
Eu percebo isso na hora.
Assim que ela me vê, o olhar dela muda. Não é medo, não é raiva.
É tristeza.
Eu não entendo por quê.
— Essa é a menina — Gael diz.
O homem me observa por alguns segundos.
— Eva, certo?
Eu assinto rápido.
— Sim, senhor.
— Sou o doutor Mendes.
Ele fala simples, como alguém acostumado a ser obedecido.
A mulher se aproxima de mim devagar e eu faço igual aprendi, me levanto, coloco a cadeira no lugar e abaixo a cabeça ficando com postura ereta.
— Eu sou Clara.
A voz dela é doce.
Quando chega perto, ela levanta a mão e toca meu cabelo com cuidado, afastando uma mecha do rosto e erguendo minha cabeça sutilmente para ela.
— Você é linda, e vejo que tomou banho, que bom querida.
— Sim… senhora.
Ela sorri um pouco.
Eu não sei o que dizer
De repente ela me puxa para um abraço.
Eu fico dura no começo. Não estou acostumada com isso. Mas o abraço dela é quente e gentil. Ela passa a mão pelos meus cabelos como se estivesse consolando uma criança.
Eu sinto vontade de chorar, mas seguro.
— Coitadinha… você é tão forte menina — ela murmura baixo.
Eu não entendo por que ela diz isso.
O doutor pega a cadeira e senta perto da mesa.
— Precisamos ver como você está.
Eu obedeço imediatamente.
Ele pede para eu virar um pouco de lado e levantar a camisa nas costas. Eu fico com vergonha, mas faço. Clara fica ao meu lado, segurando minha mão.
O doutor observa os machucados com atenção.
Ele não fala nada por alguns segundos.
Depois solta um suspiro.
— Vai cicatrizar — diz para Gael. — Mas algumas dessas marcas vão ficar não é?
Eu não entendo direito.
— Marcas?
Clara responde.
— Cicatrizes, querida.
Eu penso um pouco.
— Está bem.
Eles trocam um olhar rápido, mas não sei porque estão preocupados com isso, eu não ligo, já tenho tantas, são para eu sempre me lembrar que pequei e fiz algo errado, a madre me disse.
O doutor continua.
— Você vai precisar usar roupas leves por um tempo. Ainda tem feridas abertas nas costas. Se cobrir demais pode piorar.
— Ela vai.
Senhor Gael garante e mesmo que eu não entenda muito sei que se ele concorda é o melhor.
Eles fazem mais algumas perguntas simples. Se sinto dor, se consigo comer, se estou tonta.
Depois de um tempo eles se levantam.
Antes de ir embora, Clara me abraça de novo.
— Descansa bastante, está bem?
— Sim, senhora.
— E não tenha medo, você está em uma boa casa tá, fica tranquila e se deixe viver.
Eu assinto.
Quando eles vão embora, a casa fica silenciosa outra vez.
Gael fecha a porta e volta para a cozinha.
— Você precisa descansar.
Eu concordo na hora.
— Sim se...
Paro antes de o chamar de Senhor e se ele ouviu finge que não.
Ele faz apenas um gesto para eu seguir.
Eu o acompanho pelo corredor.
A casa é grande. Muito grande. Cheia de portas e paredes bonitas. Tudo parece masculino, forte, não muito organziado, como se apenas usassem a casa para apoio no final do dia.
Ele abre uma porta.
— Pode ficar aqui.
Eu entro devagar.
O quarto é lindo.
Mas o que realmente prende minha atenção é outra coisa.
A cama.
Grande. Macia. Alta.
Eu nunca dormi em uma cama assim.
Nunca.
Gael percebe meu olhar.
— Consegue subir?
Eu assinto rápido.
— Sim.
— Então deita e dorme um pouco.
— Sim, obrigada por tudo mais uma vez.
Ele assente apenas, e eu o obedeço me guiando para a cama.
Ele sai do quarto e fecha a porta em seguida.
Eu me aproximo da cama devagar.
Passo a mão no lençol macio. Parece nuvem.
Subo com cuidado e me deito rindo, eu nunca pude sonhar tanto.
O colchão afunda de leve.
Eu fico olhando para o teto por alguns segundos.
Depois fecho os olhos.
É a primeira vez na minha vida que eu me deito numa cama de verdade.
Eu adormeço quase imediatamente, que lugar abençoado.
[…]
Quando acordo de novo, está escuro.
Eu me sento na cama.
Meu corpo ainda dói um pouco, mas muito menos. Eu me sinto… leve. Descansada. Cheia de energia.
Eu levanto animada.
O quarto está silencioso.
Abro a porta devagar e caminho pelo corredor até a cozinha. Estou com sede.
Quando entro, vejo que lá fora ainda está noite. Pela janela dá para ver o céu escuro. Deve ser madrugada.
Eu pego um copo de água e bebo.
É quando olho melhor ao redor.
E percebo.
A cozinha está um desastre.
Eu fico parada olhando.
Tem pilhas de louça na pia. Panelas sujas. Migalhas na mesa. O chão com marcas de barro. A geladeira aberta e bagunçada.
Eu arregalo os olhos.
Como ele vive assim?
Meu coração dispara um pouco.
Talvez eles estejam muito ocupados.
Talvez ninguém aqui saiba cuidar direito da casa.
Eu olho ao redor outra vez.
Se Gael foi tão bom comigo… me deu comida… banho… cama…
O mínimo que posso fazer é ajudar.
Eu cruzo os braços e penso por alguns segundos.
Por onde eu começo?
A pia.
Sempre começa pela pia.
Eu sorrio um pouco sozinha e caminho até lá, arregaçando as mangas da camisa grande que estou usando.
Agora eu tenho trabalho a fazer e ocupar a mente.
E isso me deixa muito feliz.