Tudo brilhando

1563 Palavras
Gael narrando. O dia começa errado e termina mais longo do que eu gostaria. Eu saio da fazenda logo cedo com meu pai porque um dos peões apareceu batendo na porta da casa antes mesmo do sol nascer direito. Uma das cercas do pasto do fundo caiu durante a madrugada e parte do gado passou para o terreno vizinho. O vizinho não é homem fácil, então não dava para deixar aquilo virar problema maior. Eu nem pensei em mais nada quando escutei a notícia. Peguei o chapéu, a chave da caminhonete e sai com meu pai quase correndo. No meio da pressa eu não olhei para trás. Nem passei pelo quarto, ou até cozinha para comer algo. Nem vi Eva em seu quarto para confirmar seu bem estudar. Só quando já estamos na estrada é que a lembrança dela volta como um peso na cabeça. Aquela menina ocupou meus pensamentos a noite inteira. Mesmo depois que ela dormiu. Mesmo depois que a casa ficou silenciosa. Eu fiquei sentado um bom tempo na cozinha pensando em quem ela era, de onde vinha, quem teria feito aquelas marcas nas costas dela. Aquilo não era castigo de convento, não do jeito que ela contou. Tinha coisa mais feia ali que ela nõ soube dizer, e pelo que percebi ela nem viu como um problema grande. Mas ela falava de tudo com uma naturalidade que me deixava sem resposta. Como se a dor fosse só mais uma parte da vida. Agora, enquanto dirijo pela estrada de terra com meu pai ao lado, me pego pensando se ela ainda está dormindo. Se comeu alguma coisa. Se acordou assustada. Meu pai percebe meu silêncio. — Está quieto hoje — ele comenta. Eu dou de ombros. — Só pensando nas cercas. Ele solta um pequeno riso, porque sabe quando estou mentindo, mas não insiste. O trabalho leva o dia quase inteiro. Recuperamos o gado, arrumamos parte da cerca, discutimos com o vizinho, voltamos para reforçar mais alguns pontos. Quando finalmente voltamos para casa já é fim de tarde. Eu estou cansado. Cansado de verdade. O corpo pede banho e comida. Assim que descemos da caminhonete meu pai estica os braços e solta um suspiro. — Vou fritar uns ovos pra gente jantar com pão. Eu tiro o chapéu e passo a mão pelos cabelos. — Vou ver como a menina está, espero que ela tenha comido algo, frite mais dois para ela também pai. Ele me olha de lado. — A tal Eva, pobre moça. — É. Ele não diz mais nada, mas vejo aquele brilho curioso nos olhos dele. Eu entro na casa. O silêncio me recebe primeiro. Subo direto para o quarto onde deixei Eva. A porta está encostada. Eu empurro devagar. O quarto está arrumado. Muito arrumado. A cama está feita com o lençol esticado, o travesseiro alinhado, a cadeira encostada na parede. Mas ela não está lá. Eu paro no meio do quarto por um momento. — Eva? Nenhuma resposta. Meu coração dá um aperto estranho. Eu viro e desço as escadas mais rápido. É quando escuto vozes na cozinha. Uma voz baixa, feminina. E a voz do meu pai. Quando entro na cozinha, os dois se viram ao mesmo tempo. Eva está parada perto da mesa. Ela parece pequena ali dentro. Muito pequena. Quando os olhos dela encontram os meus, tudo muda. Ela corre. Corre direto até mim e para atrás do meu braço, como se eu fosse uma parede. Como se estivesse se escondendo. Eu olho para meu pai. Ele levanta as sobrancelhas. — O que foi isso? Eu não fiz nada filho, ela está com medo de mim. Eva segura a parte de trás da minha camisa com as duas mãos. Eu consigo sentir os dedos dela tremendo um pouco. — Calma — eu digo, virando um pouco o corpo para olhar para ela. — Está tudo bem. Ela espreita por trás do meu braço, olhando meu pai como se ele fosse um perigo. — Quem é ele? Eu solto um pequeno suspiro. — Eva, esse é meu pai. Ela pisca. — Seu… pai? — É. Meu pai cruza os braços e observa a cena com um sorriso divertido. — Não mordo, menina. Eva abaixa a cabeça na mesma hora. — Me perdoe senhor. Ela dá um passo para frente devagar. — Eu… eu não sabia. Ela junta as mãos na frente do corpo, como se estivesse pedindo perdão na igreja. — Meu nome é Eva. Meu pai estende a mão para ela. — Walter Monteverde. Ela aperta a mão dele com cuidado, quase reverência. — Muito prazer, senhor. Ele olha para mim. — Educada, e bonita a menina. Eu dou de ombros sem querer saber o que ele tanto pensa agora. — Foi criada em convento, tem educação até demais. Ele faz um “ah” baixo, eu não vou retirar isso, já cansei dela me chamando de snehor mesmo quando eu mandei que não o fizesse. — Explica muita coisa. Então ele aponta para a mesa. — Aliás, meu filho, você deveria saber que ela fez o jantar. Eu viro a cabeça devagar. — Ela fez o quê? Eva abaixa o olhar. — Eu fiz comida senhor Gael. Meu peito se enche de uma irritação imediata. — Você deveria estar descansando, eu mandei que fizesse isso, está machucada. Ela levanta os olhos rápido. — No convento eu teria que trabalhar assim que acordasse, e o senhor ficou bastante tempo fora, merecia uma comida de verdade. A voz dela é calma, sincera. — Não foi nada de esforço senhor.. Eu balanço a cabeça. — Eva... Mas meu pai me interrompe. — Antes de reclamar, vai ver a comida Eu olho para ele sem entender. — O que tem a comida? Ele sorri. — Vai lá. Eu caminho até a porta da sala de jantar ainda desconfiado. Quando entro, paro no meio do caminho. Demoro alguns segundos para entender o que estou vendo. E então eu retorno para onde eu estava, e reparo melhor o que ela fez. O chão está brilhando. Literalmente brilhando. A pia está vazia. Sem nenhuma louça empilhada. Eu me aproximo devagar. Passo a mão na bancada. Limpa. Eu olho para o fogão. Não tem uma mancha de gordura. Nenhuma migalha. Nada. Eu abro a geladeira. Por um segundo acho que estou na casa errada. Tudo está organizado. As prateleiras limpas. Os potes alinhados. A geladeira, que normalmente tem aquela cor meio amarelada de uso, está branca de novo. Eu fecho a porta e abro o freezer. Nem a crosta de gelo que sempre se forma nas paredes está mais lá. Eu passo a mão na cabeça. — Mas que diabos... Volto para a sala de jantar. Eva está parada no mesmo lugar. Quando me vê olhando, parece nervosa. — Eu… fiz algo errado? Eu olho para ela por alguns segundos. Depois olho para a mesa. E só então percebo. Tem comida ali. Muita comida nas panelas. Uma panela grande de arroz. Feijão. Carne acebolada. Salada. Brócolis. Tudo arrumado com cuidado. Um banquete simples, mas perfeito. Eu sinto uma satisfação estranha subindo pelo peito. Uma sensação de casa de verdade. Eu encaro Eva. — Foi você que fez isso tudo? Ela assente devagar. — Sim. Eu passo a mão pela barba. — Obrigado então. Ela sorri pequeno. — Eu só quis ajudar. Depois aponta para a sala de jantar, um canto que eram armários, um dia era todo vazio com um vaso de flor no centro, mas agora está lotado cheio de coisas. — Eu não quis mexer lá no entanto, não quis mexer nas coisas do senhor. — Por quê? — Tem muitas coisas em cima da mesa. Eu solto uma risada curta. — Isso é verdade. Meu pai entra atrás de mim. — A casa estava uma zona filho, mas agora temos uma cozinha, e uma mesa de jantar. Eu concordo. — Antes tínhamos uma mulher que cuidava da casa. Eva olha para ele. — E agora? — Se aposentou faz uns anos — ele responde. — Nunca mais fomos atrás de outra. Eu balanço a cabeça. — Nunca confiamos muito em deixar estranhos aqui. Eva pensa um pouco. Depois fala com cuidado. — Eu posso arrumar a casa para vocês, e fazer comida. Eu olho para ela na mesma hora. — Não. Ela parece surpresa. — Por quê? — Porque você precisa descansar. Ela cruza as mãos na frente do corpo. — Eu posso arrumar amanhã. — Eva... — Para pagar minha estadia. Eu balanço a cabeça. — Você não precisa pagar nada. Ela insiste. — Eu quero. Meu pai observa a conversa em silêncio, divertido. — Eu posso limpar a casa — ela continua. — Não vai me machucar. Eu olho para as costas dela, lembrando das feridas. — Você m*l consegue se mexer direito. — Consigo sim. Ela fala com uma certeza simples. — Eu não vou fazer nada que me machuque. Eu fico olhando para ela por alguns segundos. A menina é teimosa. Mas o que mais me chama atenção não é isso. É a forma como ela olha para mim. Como se eu fosse algo grande demais. Algo importante demais. Como se eu fosse… um salvador. E eu sei que não sou. Mas mesmo assim, pela primeira vez em muito tempo, aquela casa parece menos vazia. E isso me deixa perigosamente satisfeito.
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