Eva narrando.
Eu observo os dois homens sentarem à mesa como quem assiste algo importante.
Ainda fico um pouco afastada, perto da porta, com as mãos juntas na frente do corpo como aprendi.
O senhor Walter puxa a cadeira primeiro. Ele parece confortável ali, espero que ele tenha me perdoado pelo susto e medo da presença dele, afinal eu não o conhecia, fiquei com medo.
Gael senta logo depois.
Ele se move com firmeza, como se estivesse cansado do trabalho pesado do dia, mas ainda assim cheio de força, ele é um homem bonito e resistente, fico feliz pelo pai dele, deve sentir muito orgulho do filho ser assim.
Os dois começam a colocar comida nos pratos.
Eu fico feliz vendo isso.
Muito feliz.
A comida está bonita, arrumada, quente. O arroz soltinho, o feijão bem temperado, a carne cheirando muito bem. Foi a primeira vez que cozinhei numa cozinha tão grande, com tantas coisas diferentes.
Eu estava com medo de errar, fazer algo que ninguém comesse aqui, no convento tinham meninas que estudavam lá ou passavam, que eram vegetarianas, ou tinham alguma alergia, e tivemos que aprender à cozinhar para cada um desses paladares diversos.
Mas eles estão comendo.
Isso significa que deu certo.
Eu sorrio um pouco sozinha.
— Eva.
A voz de Gael me chama.
Eu levanto os olhos imediatamente.
— Sim, senhor?
Ele aponta para a cadeira vazia.
— Senta e janta conosco, não sei porque não fez junto.
Eu fico confusa.
— Sentar com os senhores?
— Aqui, anda.
Ele bate a mão na mesa mas continuo parada, ele não sabe que não devo?
— Para comer Eva, vamos.
Eu balanço a cabeça rápido.
— Não posso senhor, me desculpe mas sei o meu lugar.
Ele franze a testa.
— Como assim não, que negócio é esse de lugar?
Eu dou um pequeno passo para trás.
— Eu não posso, mas muito obrigada por tamanha bondade senhor Gael, você é realmente um bom homem, mas não posso exigir que quebre regras por mim, por tamanha generosidade sua.
O senhor Walter observa a conversa em silêncio, com uma expressão curiosa.
Gael apoia os cotovelos na mesa.
— E por que não?
Eu explico da maneira mais simples que consigo.
— Porque eu não sou do mesmo nível de vocês.
O silêncio que vem depois pesa na cozinha.
Eu penso que talvez tenha falado algo errado.
Gael me encara e começo a ver certa raiva nele, uma veia me acena diretamente de sua testa.
— Que história é essa?
Eu continuo, tentando ser educada.
— Vocês são os donos da casa. Eu sou só uma... eu sou apenas Eva senhor.
Eu quase digo pecadora fruto do m*l, como a madre me dizia sempre que precisava me lembrar , mas lembro que ele disse que eu estava em repouso, e me tratou tão bema té agora, não quero que ele perca sua fé em mim.
Então fico quieta.
Ele respira fundo.
Depois fala.
— Eva.
Eu levanto os olhos, ele está até mais vermelho, as mãos fechadas com raiva, eu vejo sua luta em raiva contra mim, poxa Deus, eu não queria ter feito nada de errado.
— Sim senhor?
— Eu estou mandando você sentar e comer.
A voz dele é firme.
Eu ainda hesito.
— Mas...
Ele bate a mão na mesa de repente.
— Senta e como com a gente, eu estou te mandando Eva, não ouse me desobedecer, você é igual a todas as pessoas, e nessa casa comemos juntos à mesa!
A voz sai quase como um grito.
Eu me assusto.
Meu coração dispara e minhas mãos tremem um pouco.
— Sim, senhor.
Eu puxo a cadeira devagar e me sento.
O senhor Walter parece querer rir, mas segura.
Eu pego o prato com cuidado.
Começo a me servir.
Coloco um pouco de arroz.
Depois feijão.
Depois um pouco de salada.
É o suficiente.
Eu paro.
Quando levanto a cabeça, Gael está olhando meu prato.
Ele franze a testa.
— Cadê a carne?
Eu balanço a cabeça.
— Não precisa.
— Precisa sim.
— Não, senhor.
Ele parece irritado.
— Eva, porque você não pega.
Eu tento explicar, ele já está quase explodindo, e eu realmente não quero que ele exploda.
— Esse bife é de gente chique senhor, eu não sou importante para isso.
Ele fica parado por um segundo.
— O quê?
— De gente importante.
Eu falo como se fosse algo óbvio.
— Eu não posso comer isso.
Ele me encara como se estivesse tentando entender se eu estou brincando.
— Do que você está falando?
Eu repito com paciência.
— Esse tipo de carne é cara.
Aponto para o prato dele.
— É de gente rica.
Ele abre a boca para falar, mas quem fala primeiro é o senhor Walter.
— Eva.
Eu olho para ele.
— Sim, senhor?
Ele apoia os braços na mesa.
— Que tipo de carne você pode comer então?
Eu respondo com naturalidade.
— Fígado.
Ele pisca.
— Fígado?
— Rabada também.
Eu começo a contar nos dedos.
— Moela, ovo, às vezes pescoço de galinha, essas partes menos nobres são para meu tipo e não preciso me preocupar.
A sala de jantar fica completamente silenciosa.
Eu olho para Gael.
E percebo.
Ele está prestes a explodir.
Os olhos dele estão fixos em mim, duros.
A mandíbula travada.
Eu penso que fiz algo muito errado.
Talvez eu tenha ofendido a comida.
Talvez eu tenha falado demais.
Mas ele não diz nada.
Em vez disso, ele pega o garfo.
Espeta um bife enorme na travessa com raiva e muito pouco limite.
Coloca direto no meu prato.
O pedaço de carne ocupa quase metade dele.
Eu fico olhando para aquilo como se fosse algo proibido.
Então Gael fala.
A voz dele é grossa.
Curta.
Prática.
— Come tudo, Eva, e não discuta, você merece comer, e eu quero que coma tudo.
Eu levanto os olhos para ele.
E entendo imediatamente.
Não existe espaço para discordar.
Nenhum.
Eu engulo seco.
— Sim, senhor.
Eu corto um pedaço pequeno da carne.
Levo à boca.
O sabor explode na minha língua.
É macio.
Quente.
Tempero forte, mas bom.
Eu paro de mastigar por um segundo, surpresa.
Nunca comi carne assim antes.
Eu olho para o prato.
Depois para Gael.
— Está bom?
Ele pergunta.
Eu assinto rápido.
— Muito bom, obrigada pela sua bondade senhor Gael.
O senhor Walter começa a rir baixo. Ele não vê que seu filho está bravo?
— Parece que você apresentou o mundo para a menina, filho.
Gael não responde.
Ele apenas continua comendo.
Mas eu percebo uma coisa.
Ele está prestando atenção em cada garfada que eu dou.
Como se estivesse garantindo que eu realmente vou obedecer.
Eu continuo comendo.
Arroz.
Feijão.
Um pedaço de carne.
Depois outro.
Meu estômago parece não acreditar no que está acontecendo.
Comida boa.
Em quantidade.
Sentada à mesa.
Com pessoas.
Eu sinto uma alegria estranha dentro do peito.
Depois de um tempo, o senhor Walter fala.
— Você cozinha bem, Eva.
Eu sorrio tímida.
— Obrigada, senhor.
— Onde aprendeu?
— No convento.
Ele levanta as sobrancelhas.
— Eles te ensinavam?
— Sim.
Eu penso um pouco.
— As meninas mais velhas cozinham para as mais novas e os membros importantes lá dentro.
— E você era uma das mais velhas?
— Sim.
Ele olha para meu prato.
— E nunca comia carne assim?
Eu balanço a cabeça.
— Não.
— Por quê?
Eu dou de ombros.
— Não era para nós.
Ele troca um olhar rápido com Gael.
Mas Gael continua em silêncio.
Quando termino de comer, fico com vergonha de levantar primeiro.
Então espero.
Os dois terminam depois.
Eu começo a recolher os pratos imediatamente.
— Pode deixar que eu lavo.
Gael levanta os olhos para mim.
— Eva.
Eu paro.
— Sim?
— Amanhã você descansa e não faça nada, e quando digo nada é realmente nada.
Eu sorrio pequeno.
— Eu prometo que não faço nada pesado.
Ele me encara por alguns segundos.
Depois suspira.
— Você é teimosa.
Eu baixo a cabeça.
— Desculpa.
O senhor Walter ri.
— Não peça desculpa por trabalhar, menina.
Eu fico feliz ouvindo isso.
Porque trabalhar é a única coisa que eu sei fazer direito.
E se eu puder fazer isso aqui…
Talvez eu consiga merecer ficar.