Eva narrando.
Eu acordo antes do sol já me sentindo animada e contente, é lindo ver o céu minutos antes do sol sair e iluminar nosso dia, uma calma indescritível.
Meu corpo parece já ter aprendido a levantar cedo, como sempre foi no convento. Mesmo dormindo em uma cama tão macia que às vezes ainda acho que estou sonhando, meus olhos se abrem assim que a madrugada começa a clarear.
Por alguns segundos eu fico parada aproveitando esse momento, a sensação do meu corpo deitada em algo tão confortável.
O teto do quarto é bonito. Branco, alto, com uma luz suave entrando pela janela.
Eu lembro onde estou.
Na casa do meu salvador.
Meu coração se enche de uma alegria tranquila.
Eu me sento devagar na cama e passo a mão pelo lençol macio. Ainda me surpreendo com aquilo. Dormir numa cama assim parece um presente que não termina. Eu nunca tive isso, nunca mesmo, nem um colchão em tive um dia, quem dirá poder ter o privilégio de dormir em algo tão confortável como isso, que sonho, de verdade eu fico imensamente feliz.
Eu olho para a janela.
O vidro está fechado, como deixei na noite anterior, mas mesmo assim a claridade começa a entrar. O céu está ficando claro, com aquele tom azul que aparece antes do sol nascer de verdade.
Eu gosto disso.
De ver a luz chegando devagar.
Levanto da cama e caminho até a janela.
O sol ainda não apareceu completamente, mas já dá para ver a linha dourada surgindo no horizonte.
A fazenda está silenciosa.
Os campos ainda estão cobertos por uma névoa leve da madrugada.
Eu junto as mãos perto do peito.
— Obrigada, meu Deus, obrigada por eu ter encontrado o meu Salvador, ele é tão abençoado.
Falo baixo.
— Obrigada por essa cama… por essa casa… por essa nova chance.
Eu respiro fundo.
Depois me afasto da janela.
Ainda estou usando a roupa emprestada que encontrei dobrada no quarto no dia anterior. A camisa é grande em mim, mas confortável. A calça também fica larga, mas eu amarro com um pedaço de corda.
Arrumo um pouco meu cabelo na frente do espelho pequeno do quarto.
Ele ainda está estranho, mas melhor do que antes.
Eu sorrio.
Então saio do quarto.
O corredor está silencioso. Caminho devagar pelas escadas até a cozinha.
Eu já penso no que posso fazer.
Talvez preparar algo para o café da manhã.
Um bolo.
Sim, um bolo seria bom.
Eu entro na cozinha e começo a procurar ingredientes.
Abro armários, olho potes, procuro farinha, açúcar, ovos.
Mas percebo algo.
Tem poucas coisas.
Alguns ingredientes acabaram.
Não tem chocolate em pó.
Também não tem algumas coisas que eu usaria para fazer um bolo mais elaborado.
Mas ainda consigo fazer algo simples.
Bolo de milho.
Eu encontro o milho, os ovos, o açúcar e a farinha. É o suficiente.
Então começo a preparar.
Misturo tudo com cuidado, como aprendi anos atrás.
Enquanto trabalho, sinto uma felicidade tranquila dentro de mim.
Cozinhar sempre me acalmou.
No convento, mesmo quando estávamos cansadas, cozinhar era uma das poucas coisas que fazia o tempo passar rápido.
Quando coloco a massa na forma e levo ao forno, fico observando a cozinha.
Ela continua limpa desde ontem.
Eu sorrio lembrando do rosto de Gael quando viu tudo arrumado.
Ele parecia surpreso.
Muito surpreso, irritado também, mas foi o preço por um momento.
Eu tenho que ser útil, já sou um peso aqui, atrapalhando ele, comendo de sua comida, deitando na casa dele, tenho que servir e mostrar serviço
O cheiro do bolo começa a se espalhar pela cozinha.
É um cheiro doce, quente, acolhedor.
Eu fico feliz.
Quando o bolo finalmente fica pronto, tiro do forno com cuidado.
É nesse momento que escuto passos.
Passos firmes.
Eu reconheço imediatamente.
Gael.
Ele entra na cozinha ainda com cara de quem acabou de acordar. O cabelo está um pouco bagunçado e ele veste apenas uma camisa aberta e a calça de trabalho.
Mesmo assim ele parece forte como sempre.
Eu sorrio.
— Bom dia, senhor.
Ele me olha.
— Bom dia.
Depois olha para o bolo na bancada.
— O que você fez?
Eu respondo animada.
— Um bolo de milho simples.
Eu aponto para ele.
— Não tinha chocolate em pó para fazer um bolo de chocolate.
Ele para por um segundo.
Fica olhando para a cozinha como se estivesse pensando em algo.
Depois fala.
— Então pensa no que precisa comprar, pode fazer uma lista que eu mando comprar tudo, nunca liguei muito, não sei o que precisa para uma casa direito.
Eu fico confusa.
— Comprar?
— Ingredientes, o chocolate em pó, mais farinho, fermento, o que você quiser e precisar usar para fazer suas comidas, você cozinha bem. Mas já coloca tudo para não precisar ficar indo buscar
Ele cruza os braços.
— Tudo que precisar para cozinhar.
Meu coração se aperta um pouco.
— Eu… não sei escrever muito bem.
Ele franze a testa.
— Como assim?
Eu explico.
— Eu aprendi muito pouco.
Eu mexo nas mãos.
— Algumas meninas do convento tentaram me ensinar.
Eu sorrio lembrando delas, sempre foram muito gentis comigo, todos eram porque tinham dó, a madre superiora realmente era mais grosseira comigo, todas sabiam.
— Elas aprendiam bastante.
Depois meu sorriso diminui.
— Mas comigo era diferente.
Ele fica olhando para mim.
— Diferente como?
Eu respondo simples.
— A madre não gostava que eu aprendesse.
Silêncio.
— Ela sempre me separava das outras.
Eu dou de ombros.
— Nunca entendi muito bem por quê a madre não me deixava ter as poucas aulas, mas ela fazia o que achou melhor para mim..
Ele não responde.
Então eu apenas balanço a cabeça.
— Mas posso tentar lembrar das coisas, ou te falar se o senhor tiver tempo talvez, o que você preferir.
Ele assente.
— Tudo bem, pensa e depois me fala todas as coisas que eu anoto.
Confirmo com a cabeça grata por ele entender.
Eu começo a preparar o café.
É quando ele fala de novo.
— Eva…
Meu coração dá um pequeno salto.
É a primeira vez que ele me chama assim.
Sem raiva.
Sem pressa.
Só dizendo meu nome.
Eu me viro rápido.
— Sim?
Ele coça a nuca, parecendo meio sem jeito.
— Você vai cozinhar mais alguma coisa?
Eu sorrio imediatamente.
— Posso fazer algo se o senhor desejar.
Ele faz uma pequena careta.
— Sabe fazer pão com manteiga na chapa?
Ele parece tentar explicar melhor.
— Na verdade na frigideira… que você sela o pão e…
Ele faz um gesto com a mão.
— Sabe?
Eu quase rio de felicidade.
— Sei sim, senhor.
Eu me viro rápido para pegar o pão.
— Irei fazer agora mesmo, fico feliz que tenha dito do que gosta, é um norte para mim.
Ele pega a caneca de café.
— Apenas Gael, sem mais senhor.
Eu paro por um segundo.
— Sim… Gael.
Ainda soa estranho dizer isso.
Mas eu gosto.
Coloco manteiga na frigideira quente.
O cheiro sobe imediatamente.
Depois coloco o pão.
Ele começa a dourar devagar.
Eu viro quando está no ponto certo.
Crocante por fora, macio por dentro.
Sirvo no prato e entrego para ele.
Ele se senta à mesa.
Eu fico perto da bancada observando.
Ele pega o café.
Depois corta um pedaço do bolo ainda quente.
Eu prendo a respiração sem perceber.
Ele leva à boca.
Mastiga.
Fica em silêncio por um segundo.
Depois levanta as sobrancelhas.
Eu sinto uma alegria enorme explodindo dentro do peito.
Ele gostou.
Eu sei que gostou.
Ele corta outro pedaço.
E depois mais um.
— Está bom — ele diz.
Só isso.
Mas para mim parece a melhor coisa do mundo.
Eu quase dou pulinhos de alegria.
Eu sorrio grande, segurando as mãos na frente do corpo.
Porque ver meu salvador comendo algo que eu fiz…
É a melhor sensação que já senti.
Poder agradar ele por um momento