Eva narrando.
Eu fico parada no meio da cozinha mesmo depois que a porta se fecha com a saída dele.
Gael saiu sem dizer nada, como se o mundo lá fora estivesse sempre chamando por ele antes de qualquer outra coisa, como se despedidas fossem desnecessárias, e eu apenas observo, com o pano ainda preso entre os dedos, sentindo um vazio estranho se instalar devagar dentro do peito, porque eu nem tive tempo de agradecer pelo café que ele tomou junto de mim, nem de perguntar se ele gostou do bolo direito, nem de desejar um bom dia como eu gostaria.
Eu solto um suspiro longo, olhando para a porta fechada.
Ele é tão bonito.
O pensamento vem sozinho, sem pedir licença, e eu sinto meu rosto esquentar levemente, mesmo estando completamente sozinha, como se alguém pudesse me ouvir pensando aquilo, como se fosse errado admirar alguém daquele jeito, mas eu não consigo evitar, porque tudo nele parece forte, seguro, firme, como se ele fosse feito para proteger, como se fosse impossível algo r**m acontecer perto dele.
Eu levo a mão ao peito, apertando de leve o tecido da camisa grande que estou usando.
E se ele me mandar embora?
O pensamento muda tudo.
Aquela sensação boa que estava dentro de mim se encolhe um pouco, dando lugar a um medo silencioso, constante, que eu conheço muito bem, aquele medo de perder o pouco que tenho, de não pertencer, de estar ocupando um espaço que não é meu de verdade.
Eu olho ao redor da cozinha.
Tudo limpo.
Organizado.
O cheiro do café ainda no ar.
O bolo na bancada.
Eu engulo seco.
Eu posso ser útil aqui.
Eu sei que posso.
Eu posso cozinhar, limpar, cuidar da casa, fazer tudo que for preciso, eu não preciso de muito, nunca precisei, só de um lugar onde eu possa ficar sem medo, onde eu não precise pedir perdão o tempo todo por existir.
— Eu vou fazer tudo certo… — eu murmuro, quase como uma oração, olhando para a mesa — tudo.
— Vai mesmo?
Eu me assusto tanto que quase deixo o pano cair no chão.
Viro rápido, com o coração disparado, e encontro o senhor Walter encostado na entrada da cozinha, me olhando com um sorriso calmo, como se já estivesse ali há algum tempo me observando sem fazer barulho.
— Ai… desculpa… — levo a mão ao peito — eu não ouvi o senhor chegar.
Ele ri baixo, caminhando até a mesa com passos tranquilos.
— Percebi que não ouviu, bom dia menina.
Eu abaixo a cabeça automaticamente.
— Me perdoe senhor, bom dia.
— Você pede desculpa até por respirar, menina — ele responde com um tom leve, puxando a cadeira — vem tomar café, deixe de ser cismada, fique a vontade.
Eu travo.
— Não, senhor… eu…
Ele levanta o olhar para mim, com calma, mas firme.
— Não o quê?
Eu aperto as mãos na frente do corpo.
— Eu não posso.
Ele inclina a cabeça de lado, analisando.
— Você lembra o que o Gael disse ontem à noite?
Meu corpo inteiro fica mais rígido.
Eu lembro.
Claro que lembro.
A voz dele mandando, firme, sem espaço para recusa.
“Eu estou mandando você sentar e comer.”
Eu baixo os olhos.
— Lembro…
— Então senta e toma um café comigo, não pode ficar ai de pé o dia todo.
Não é um pedido.
É simples, direto, mas não é rude, é só firme o suficiente para não deixar dúvida.
Eu obedeço.
Puxo a cadeira devagar e me sento, sentindo o coração bater um pouco mais rápido, como se ainda estivesse fazendo algo errado, mesmo sabendo que não estou.
— Assim — ele diz, servindo café na minha xícara — melhor, obrigada pela companhia, meu filho saiu cedo hoje.
Eu seguro a xícara com cuidado, sentindo o calor nas mãos.
Eu não pego o bolo.
Nem olho muito para ele.
Prefiro pegar um pão e colocar na frigideira com manteiga, fazendo um pão na chapa simples, como estou acostumada.
O senhor Walter percebe.
— Não vai comer o bolo?
Eu balanço a cabeça de leve.
— Não, senhor.
— Por quê?
Eu demoro um pouco para responder.
— É melhor deixar.
Ele não insiste, mas continua me observando enquanto comemos em silêncio por alguns minutos, o som dos talheres e da frigideira sendo a única coisa quebrando o silêncio da cozinha.
Eu lembro da punição, esse é um bolo simples, mas eu também nunca pude, apenas o que fazemos com os põas velhos que sobram no convento, o bolo de pão, ou pudim como também chamam foi meu único contato com essas coisas melhores, e eu sou apaixonada.
Eu sinto que preciso falar e me explicar que não posso comer isso.
Mas tenho vergonha.
Mesmo assim, junto coragem e decido compartilhar e pedir outra coisa ao pai de Gael.
— Senhor…
Ele levanta os olhos.
— Fala menina.
Eu aperto os dedos contra a borda da mesa.
— O senhor poderia… me ajudar com uma coisa?
— Posso — ele responde sem hesitar — o que é?
Eu respiro fundo.
— Eu queria fazer uma lista de compras.
Ele assente devagar sem entender.
— Certo.
Eu continuo.
— Gael autorizou, mas eu não sei escrever direito.
O silêncio dura um segundo.
Talvez dois.
Eu sinto um pequeno aperto no peito, como se estivesse admitindo algo errado.
Mas ele apenas se levanta.
— Então a gente faz junto, sem problemas.
Eu levanto na mesma hora porque ele faz assim, e fico feli pela prontidão em me ajudar, sigo ele até a bancada.
Ele pega um papel e uma caneta e coloca na minha frente.
— Vai falando.
Eu olho para o papel.
As palavras ainda são difíceis para mim, parecem distantes, como algo que nunca foi realmente permitido.
Mas eu lembro de algumas coisas.
— Farinha…
Ele escreve.
— Açúcar…
— Ovos…
A caneta desliza com facilidade.
— Chocolate em pó… — eu digo, lembrando do bolo que não consegui fazer.
— Manteiga… leite… fermento…
Eu vou falando devagar, pensando, lembrando do que fazia falta no convento, do que poderia tornar a comida melhor, mais completa.
Ele escreve tudo.
Sem pressa.
Sem me apressar.
— Mais alguma coisa? — ele pergunta.
Eu olho ao redor da cozinha.
— Arroz.
— Feijão.
— Carne…
Eu paro, sem saber especificar.
Ele levanta o olhar.
— Que carne?
Eu penso por um instante.
— A que o senhor quiser, se puder colocar temperos ai também, os naturais e aqueles em pó, eu não sei os nomes, ia por cheiro.
Ele dá um meio sorriso, como se entendesse o que eu quis dizer, e escreve mesmo assim.
Depois vira o papel para mim.
— Está bom assim?
Eu olho.
Não consigo ler tudo, mas reconheço algumas palavras.
— Está perfeito.
Eu sorrio, sincera.
— Muito obrigada.
Ele dobra o papel com cuidado.
— Depois a gente compra.
Eu assinto.
Mas ele continua.
— Hoje eu não vou trabalhar.
Eu me viro para ele.
— Não?
— Não.
Ele cruza os braços.
— Pensei em te levar até a cidade.
Meu coração acelera sem eu querer.
— Me levar?
— Para comprar roupas também, percebi que está com as emprestadas e gigantes que meu filho arrumou.
O ar parece prender na minha garganta.
— Roupas?
Ele me olha como se fosse óbvio.
— Você não tem.
Eu começo a balançar a cabeça antes mesmo de pensar.
— Não, não precisa, senhor… eu posso ficar com essas, está tudo bem, eu não quero incomodar…
Ele franze a testa.
— Não é incômodo.
— Mas é gasto… — minha voz diminui — eu não quero causar gasto…
Meu peito aperta.
A ideia de entrar em uma loja me deixa nervosa.
Pessoas.
Escolhas.
Coisas caras.
Tudo isso não é para mim.
— Eu nunca fui numa loja — eu confesso, quase em um sussurro — eu tenho medo de errar… de tocar em algo que não posso… de não saber me comportar…
Ele passa a mão pela barba, claramente pensando no que fazer.
Eu fico ali, parada, com o coração acelerado.
— Então vamos fazer diferente — ele diz depois de um tempo.
Eu levanto os olhos devagar.
— Como?
— Eu vou sozinho e compro para você o que precisa.
Eu pisco.
— O senhor?
— É.
Ele dá de ombros.
— Tento achar roupas do seu tamanho.
Eu sinto meus olhos encherem de água na mesma hora.
— O senhor não precisa fazer isso…
Ele me corta com um gesto simples.
— Eu quero.
Eu abaixo a cabeça.
— Muito obrigada… mesmo.
Ele me observa por alguns segundos.
Depois fala, mais baixo.
— Você sabe de uma coisa, Eva?
Eu levanto o olhar.
— O quê?
Ele sorri leve.
— Tem algo muito bom em você.
Meu coração dispara.
— Em mim?
— Tem.
Ele olha ao redor da cozinha.
— Essa casa estava precisando disso.
Eu sinto um calor subir pelo peito.
— E o Gael também.
Meu coração quase para.
Eu baixo os olhos rápido, sem saber o que fazer com aquilo.
— Eu só quero ajudar… — eu digo, com sinceridade.
Ele assente devagar.
— E já está ajudando mais do que imagina, meu filho merece essa ajuda.
Eu fico em silêncio.
Mas por dentro, algo muda.
Algo cresce.