Ficar aqui

1495 Palavras
Gael narrando. Eu não costumo voltar para casa no meio do dia, mas hoje alguma coisa não me deixa continuar no trabalho como se nada tivesse mudado. Saí cedo, resolvendo problema com gado espalhado, gente me chamando de um lado para o outro, mas mesmo no meio de tudo isso minha cabeça não ficou onde deveria. Ficou nela. Naquela menina que eu trouxe para dentro de casa sem pensar duas vezes. Eva. Eu nem sei explicar direito o que me incomoda mais. Se é o jeito que ela apareceu, frágil, quebrada, quase morrendo… ou o jeito que ela olha para mim agora, como se eu fosse alguma coisa que claramente não sou. Parece que olha para um santo quando me observa, grata por coisas que não importam, mas ela com essa gratidão à tudo já está mexendo comigo, me irritando, eu não sou nenhum salvador, pelo contrário, ela apenas deu sorte. Eu paro a caminhonete perto da casa, desligo o motor e fico alguns segundos ali, com as mãos ainda no volante, olhando para frente sem realmente ver nada. Eu não combinei nada com ela. Não disse que ela precisava fazer nada. Não prometi trabalho, nem estadia permanente. Ela está ali por enquanto. Só isso. Mas mesmo assim… eu voltei. Esperando um almoço que nem é obrigação dela, e eu sei que preciso tirar ela dai logo, mas colocar onde? Essa menina não tem nada e nem ninguém. Desço, batendo a porta com mais força do que o necessário, como se isso ajudasse a organizar a cabeça. O sol está alto, o calor pesado, o cheiro de terra e mato grudado na roupa, e eu caminho direto pelos fundos, como sempre faço quando quero entrar sem dar volta. Só que eu não encontro silêncio. Eu escuto água. Movimento. Um som ritmado, constante, que me faz diminuir o passo sem perceber. Quando viro o canto da casa, eu paro. Ela está ali. No tanque. Lavando roupa na mão com uma escova grande, esfregando um jeans de trabalho. Eu fico imóvel por um instante mais longo do que deveria. Ela não me viu ainda. Está concentrada no que faz, inclinada sobre o tanque, as mãos mergulhadas na água enquanto esfrega o tecido com uma força que não combina com o tamanho dela. O vestido que usa é simples, rosa, fechado, comprido até o joelho, sem qualquer tipo de decote, exatamente o tipo de roupa que alguém criado num lugar rígido usaria. Eu não sei de onde ela conseguiu isso, mas deve ser invensão do meu pai, ele já criticou comigo que a menina não tem o que vestir, usar, ela estava bem aidna descalça e com o que emprestei, o plano não era ela trabalhar aqui, e sim se recuperar, e agora está com um vestido novo. Não tem nada de errado nele. Nada. Mas mesmo assim… Marca seu corpo. Eu aperto a mandíbula quando percebo isso. O tecido acompanha o corpo dela de um jeito natural, sem intenção, sem malícia, mas ainda assim revela mais do que deveria aos olhos de quem observa com atenção. E eu estou observando. Mais do que deveria. Ela se inclina um pouco mais para frente, esfregando a roupa com força, e o movimento desenha a linha da cintura, o leve contorno do quadril, a forma como o corpo dela é delicado… mas não fraco. Eu desvio o olhar por um segundo, passando a mão na nuca, incomodado comigo mesmo. Isso não está certo. Ela é só uma menina. Repito isso na cabeça, como se fosse suficiente para me colocar no lugar. Mas não é. Quando olho de novo, continuo ali. Parado. Assistindo. Ela termina de esfregar uma peça, torce o tecido com esforço, a água escorrendo entre os dedos, e eu acompanho o movimento sem querer. Quando ela se levanta para levar as roupas até o varal, eu observo cada passo. Como um i****a. Ela levanta os braços para estender a roupa, e o vestido sobe um pouco, revelando mais das pernas. Nada demais. Nada indecente. Mas o suficiente. Eu respiro fundo, tentando afastar o que começa a crescer dentro de mim. Não é só desejo. É consciência. Consciência de que eu não deveria estar ali parado olhando. Mas continuo. Ela termina de pendurar tudo, uma peça depois da outra, concentrada, como se aquilo fosse importante. E quando acaba, ela dá um passo para trás, observa o que fez… e sorri. Um sorriso leve. Limpo. Ela dá pequenos pulos de felicidade, como se aquilo fosse o suficiente para fazer o dia dela valer a pena. E aquilo me pega desprevenido. Porque não tem malícia nenhuma. Não tem jogo. Não tem provocação. Só… ela. E por um segundo, eu esqueço completamente do que estava pensando antes. Até que ela se vira. E me vê. O sorriso muda na hora, cresce, ilumina o rosto inteiro como se eu tivesse acabado de chegar depois de muito tempo. — Meu salvador! A palavra me atinge de novo, direto. Eu travo o maxilar. Ela vem até mim, passos rápidos, leves, parando perto demais sem perceber. — Fico feliz de te ver. Você veio para almoçar? A voz dela é sincera. Simples. Eu tento me recompor. — Vim. Minha resposta sai mais curta do que deveria. — Eu fiz comida — ela diz, quase com orgulho. Eu arqueio levemente a sobrancelha. — Fez? — Sim. Eu quis… retribuir. Retribuir. A palavra fica na minha cabeça por um instante. Eu a encaro, tentando entender até onde isso vai. — Vamos ver então, você devia descansar. Ela sorri e me conduz para dentro da casa, sem nem responder a parte do descanso, já percebi que isso é quase impossível, entramos direto para a cozinha pelos fundos. Eu reparo que ela não vai até a sala de jantar, não chega nem perto. Para na mesa menor, mais simples, como se soubesse exatamente qual é o lugar dela ali. Isso me incomoda mais do que deveria. — Pode sentar — ela diz, puxando a cadeira. Eu me sento, observando em silêncio enquanto ela começa a servir o prato com cuidado, atenta, como se cada detalhe importasse. — Eu fiz arroz, feijão, carne… e legumes, o seu pai já almoçou assim que ficou pronto e foi deitar na rede, lá na varanda, ele comprou algumas coisas na cidade para mim também. Eu pego o garfo, provo. Está bom. Muito bom. — Está bom, você cozinha bem Eva — eu digo. E o jeito que ela reage… como se aquilo fosse a melhor coisa que ela poderia ouvir… me deixa sem reação por um segundo. Ela sorri, visivelmente feliz, e se afasta um pouco, mas continua ali, por perto, como se quisesse garantir que está tudo certo. Eu continuo comendo. Mas não consigo ignorar o resto. Ela se move pela cozinha, passa perto da mesa, mexe em alguma coisa na pia, e eu sinto. Sinto a presença dela. Sinto quando ela está perto demais. Sinto o efeito que isso causa. E isso me irrita. — Você não precisava fazer isso — eu digo de repente. Ela olha para mim. — Eu quis. Simples assim. — Eu não mandei você trabalhar. — Eu sei. Ela abaixa um pouco o olhar, mas não parece envergonhada. — Mas eu não consigo ficar parada ocupando a sua casa. Eu solto um resmungo baixo. — Você deveria estar descansando. — Eu já descansei bastante. Ela hesita por um segundo antes de continuar. — Lá… eu teria que trabalhar assim que acordasse no dia seguinte, com dor ou sem. Eu paro por um instante. Não gosto do jeito que isso soa. Não gosto de imaginar. Mas não comento. Volto a comer. E então ela fala de novo. — Gael… Eu levanto os olhos. Ela está parada, mais séria agora. — Agora que eu estou melhor… eu posso ficar? Trabalhar para você e seu pai. Eu não respondo. Ela continua. — Eu posso trabalhar em troca de comida… e um lugar para dormir. Sem exigência. Sem cobrança. Só… pedido. Eu encaro ela. E o problema não é o pedido. É o que vem junto com ele. Se ela ficar… Isso continua. Essa proximidade. Esse olhar. Essa sensação que eu não pedi. E que está crescendo rápido demais. Eu aperto o garfo com força. — Eu preciso pensar Eva, não posso responder agora. Minha voz sai mais dura do que eu queria. Ela assente na hora. — Sim senhor, eu confio em sua decisão. Sem discutir. Sem insistir. E isso só piora. Porque ela aceita tudo. E eu não sei se isso facilita… Ou complica ainda mais. Eu termino de comer em silêncio, tentando organizar a cabeça. Mas uma coisa fica clara, mesmo que eu não queira admitir. Se ela ficar aqui… Eu vou precisar me controlar. Muito mais do que estou acostumado. Porque aquela menina… É inocente demais para mim. E se eu não tomar cuidado… Eu sou exatamente o tipo de problema do qual ela deveria estar fugindo.
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